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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Para Duas Mulheres

[Publicado originalmente em D24]




Ambas unidas pela fé lutavam pelo que acreditavam. Ambas escolheram a Amazônia como palco de suas ações. Ambas já nos deixaram, uma de ‘morte matada’, assassinada num dos bárbaros crimes que ocorrem nesta Amazônia sem fim, a outra de ‘morte morrida’, de males que só nestes trópicos há.

Ambas levavam a vida adubando a terra e semeando, cuidando da mata e dos bichos, mas cuidaram mesmo foi de gente, especialmente dos injustiçados. Ambas foram radicais e não faziam concessões na defesa do que acreditavam, porém suas radicalidades tinham um quê de ternura, de afeto e de leveza, pois o que lhes impulsionava era o amor à vida em toda a sua plenitude. Uma conhecido movimento pastoral, pois a partir dos anos 1990 não havia uma reunião para se discutir a Amazônia na perspectiva dos mais simples que seu nome não fosse citado. A outra tive o privilégio de conhecer pessoalmente e de aprender muito com seus ensinamentos.

É sobre esta que escrevo o que dela conheci no dia a dia. A casa que construiu não tem portas nem janelas, visto que sempre está aberta a todas as pessoas do mundo, de várias línguas, de diferentes credos, alguns buscando aprender, outros contribuindo e outros tantos apenas experimentando outro modo de viver. Para ela não havia felicidade maior do que acolher e compartilhar.

Tive o privilégio de assistir ao crescimento de seus filhos e à casa inteira se transformar de doces, de mel, de amor em experiências de solidariedade como se aquela casa no interior da Amazônia fosse um cantinho construído para mudar o mundo.

Há pouco mais de um ano Ela nos deixou, quando um mal súbito nos privou de seus ensinamentos, conselhos, receitas naturais e da alegria de acolher. Foram uns poucos dias de sofrimento e ela, que cuidava de todos, não cuidou suficientemente de si e foi cuidar de outros num recanto qualquer do universo.

Lembro-me com exatidão do seu velório, em que acadêmicos, intelectuais, membros de organizações sociais, políticos, sobretudo gente simples, vieram de vários lugares para lhe prestar homenagem. Era um dia de domingo e a mãe terra que ela ajudou a cultivar a recebeu para sempre. A terra estava úmida, resultado das primeiras chuvas de dezembro a contradizer-se com o sol escaldante de uma morna manhã. A floresta dava contorno ao cenário. Ouvia-se um longo silêncio, nada havia para se dizer. Palavra alguma seria capaz de expressar o que foi essa grande mulher que escolheu a Amazônia para viver. Com ela se foi um pouco de cada um que estava ao seu redor e de outros tantos espalhados pelo mundo. Conosco fica vivo seu exemplo de coerência e dedicação às boas causas e a memória de luta e persistência em defesa da Amazônia e de sua gente.

O silêncio foi rompido pelo canto de um pássaro a encorajar as últimas homenagens. Em seguida, até o pássaro cessou seu canto e novamente predominou o silêncio, como para expressar, que nessas ocasiões nada há a dizer, o silêncio comunicou o estado de espírito.

Para duas grandes mulheres, Dorothy Stang e Doroti Schwade simplesmente uma palavra: obrigado, seus exemplos continuarão, pois lutar é preciso.

Um comentário:

  1. Parabéns pelas belíssimas e poéticas palavras em memória à Doroti Müller Schwade cujo trabalho conheci já na fase final de seus dia através da sua irmã Luzia.
    Paulo M Kubota

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