2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas! Que vivam Bem!

quarta-feira, 24 de abril de 2019

A Amazônia não comemora regime genocida

Uma das principais marcas das ditaduras no mundo é a política genocida. Com a ditadura militar instalada no Brasil em 1964 não foi diferente. Ela deixou marcas profundas na Amazônia. A mais terrível dessas marcas foi o genocídio cometido contra povos indígenas.
Percebendo a necessidade de revelar essa história da ditadura militar no Brasil, para que nunca mais se repita, o Comitê Estadual de Direito à Verdade, à Memória e à Justiça do Amazonas pesquisou e publicou um relatório sobre o genocídio cometido contra o povo Waimiri-Atroari.
Durante a construção da BR-174, os Waimiri-Atroari foram trucidados. Com uso do aparato militar disponível na época, o povo Waimiri-Atroari sofreu massacres que o reduziu a apenas 332 pessoas, a maioria jovens e crianças. Esse senso realizado em 1982, pelo pesquisador Stephen Baines, corresponde a somente 13% do que as estimativas oficiais da FUNAI indicavam no início dos trabalhos de construção da rodovia.
Para entender o que ocorreu naquele período, o Comitê levantou depoimentos de indígenas, trabalhadores da rodovia, militares, servidores da Funai, pesquisadores e uma extensa lista de documentos que não deixam dúvidas sobre a prática genocida do governo ditatorial contra os Waimiri-Atroari.
O caso Waimiri-Atroari é o mais bem documentado dessa história genocida da ditadura militar. Casos semelhantes, entretanto, ocorreram com outros povos indígenas.
Os genocídios, as torturas, os assassinatos e os sequestros são alguns dos crimes contra a humanidade cometidos pela ditadura militar. Portanto, o estado brasileiro não tem qualquer motivo para festejar essa data.
É com muita preocupação que o Comitê Estadual de Direito à Verdade, à Memória e à Justiça do Amazonas enxerga a iniciativa do presidente da república expressa na “Ordem do Dia Alusiva ao 31 de março de 1964”. Celebrar a passagem do aniversário desse regime ditatorial é incompatível com as garantias impostas pela constituição federal de 1988.
O Comitê Estadual de Direito à Verdade, à Memória e à Justiça do Amazonas reafirma seu compromisso com a história e repudia a iniciativa desse governo em celebrar esse data que representa tanto sofrimento aos povos desse país.
Para que nunca mais se repita.
Manaus, 31 de março de 2019.

Comitê Estadual de Direito à Verdade, à Memória e à Justiça do Amazonas.

Colégio Cristo Rei – São Leopoldo – 1967

Revmo. Pe. Geral Pe. Pedro Arrupe
Pax Christi!

Somos escolásticos, estudantes de Teologia. Trabalhamos – durante o nosso Magistério – três anos na Missão Anchieta de Diamantino, Mato Grosso. E é do trabalho daquela Missão e em particular do trabalho entre os indígenas e da situação dos indígenas do Brasil que queremos informar à V. Paternidade. Queremos fazê-lo com toda a sinceridade, procurando referir pontos, que nossos estimados superiores, pelo acúmulo de trabalhos talvez, às vezes, se esqueçam de referir à V. Paternidade, mas que afetam – no nosso entender – muito a orientação da Companhia.
Parece-nos, P. Geral, que há um desajuste radical nos critérios segundo os quais se destinam os nossos aos trabalhos de evangelização em povos estranhos. Queremos falar da experiência que vivemos em nossa querida Missão Anchieta.
A generosidade, que julgamos ser a estrada geral do Espírito Santo para as almas, e delas para a cristianização do mundo, ficou esquecida e desrespeitada em algumas Províncias, ou tornou-se joguete de interesses pessoais dum homem, duma casa, duma Província.
Referimo-nos, sobretudo às destinações dos irmãos à Missão Anchieta, que se fazem tão necessárias naquela difícil Missão. Vamos descer à particularidades bem recentes e só da Província sob cuja responsabilidade está a Missão.
Havia aqui um Irmão velhinho muito esquisito, num posto onde esta originalidade caía muito em vista. Todo o mundo opinava que o Irmão não possuía equilíbrio suficiente... Mas transferi-lo para onde? E o problema se foi arrastando durante anos... Afinal, aludindo a uma manifestação favorável do Superior da Missão, e pretextando, que a Missão Anchieta já não tem mais aspectos de Missão, lá se foi o presente de grego, para tomar parte na obra mais fundamental da Província, segundo as Constituições...
Em Florianópolis, havia o Ir. Jacó Mallmann. Um santo. Quando jovem pedira para ir à Missão. Não obtivera a licença. O velhinho, talvez nunca desobedecera em seus quase cinquenta anos de Companhia. Agora, em seus velhos dias, já totalmente afeiçoado ao seu trabalho em Florianópolis, teve um desentendimento com o seu superior, no qual talvez ainda tivesse razões de discordar de seu superior. E o quase setuagenário Ir. Jacó obteve a “licença” de ir à Missão, que não obtivera quando jovem, mas desta vez a contra gosto.
Assim - no momento – o ponto de maior responsabilidade na Missão Anchieta, onde se exigiriam as mentalidades mais jovens e maleáveis, está em grande parte sendo dirigido por Irs. idosos. Com tais princípios e critérios de Missão, como poderão as nossas províncias brasileiras e a Companhia, progredir no seu fim?
Uma análise de todos quantos na Companhia pediram para ir às Missões, quem sabe, até em concreto para a Missão Anchieta, seria hoje, um belo campo para se fazer um levantamento, que revelasse os critérios de Missão reinantes em algumas Províncias da Companhia atual.
Mas talvez poderia V. Paternidade pensar que isto se deve à falta de outras pessoas que se ofereçam para tal difícil Missão. Porém, é exatamente aqui que se origina o desrespeito aos princípios básicos que sempre deveriam orientar a Companhia.
As vocações para as Missões, também para a Missão Anchieta do Mato Grosso, são abundantíssimas, e sobretudo entre os irmãos. Só na casa em que vivemos, convivem conosco, cinco a dez irmãos de ótimas qualidades para a Missão Anchieta, e todos jovens que já pediram, alguns uma, outros duas, três vezes ao Provincial para irem à Missão Anchieta.
E quanto às vocações em geral: Um inquérito feito entre os rapazes que se estavam preparando para ingressarem no noviciado da Província Sul-brasileira – revelou que 80% deles eram atraídos à Companhia por vocação Missionária. Tal ideal, inicialmente sempre apoiado pelos nossos orientadores e educadores, parece-se, entretanto, apenas como a isca dum anzol. Uma vez na Companhia o cultivo de tal vocação vai sendo esquecido, quando não substituído sorrateiramente, ou até explicitamente. E os dramas espirituais que tal situação cria, sobretudo, nos irmãos que não tem, muitas vezes, a suficiente preparação ou ousadia de recorrerem diretamente ao Pe. Geral, são por vezes, trágicas. Quando não levam para fora da Companhia, formam homens amargurados, ou então conformados, não, porém, realizados.
Eis o que pretendemos exprimir, quando dizemos, que os carismas próprios da Companhia, se tornaram joguetes de interesses dum homem, duma casa, ou duma Província. Como repreender os que abandonam a Companhia, quando a procuram por um motivo justo e generoso, e depois são em realidade tragicamente enganados? Se hoje se tomam em conta com tanto cuidado os talentos meramente humanos, os nossos pendores para esta ou aquela especialidade, porque não se há de tomar em conta também com o mesmo respeito, a tendência em nós inscrita, não por mãos humanas e interesses pessoais, mas por Deus?
Achamos que se Nosso Senhor, chama hoje tantos para as Missões, talvez seja porque a partir de lá – haja lá muitos ou poucos – se irradia o seu Evangelho ao mundo, talvez de uma forma menos instalada e estática. Que a partir de atos de generosidade, de desprendimento, o mundo seja levado à fé.
A Missão dos índios se defronta hoje com outro grave problema. Poderíamos defini-lo como falta de compreensão, mas tememos que o termo seja exagerado, senão injusto. Por tratar-se de um trabalho que não pode ter compreensão humana, mas unicamente pode ser apreciado à luz da fé, não podemos é claro, exigir uma compreensão, como nada de divino pode ser exigido.
Mas daí surge para a Missão Anchieta em concreto, um grave problema, que nas atuais circunstâncias, pensamos, poder agravar-se cada dia mais. A Missão Anchieta não estende seu trabalho unicamente aos índios, até possui mais obras entre a gente civilizada. E daí nasce o grave problema da Missão dos índios. Há um ano entregamos um Relatório ao Revdo P. Assistente, no qual, contra a opinião da maioria dos missionários dos índios – que propunham uma separação entre a Missão dos índios e as dos garimpos, sustentávamos que a Missão devia ficar unida: isto é, garimpo e índios.
Agora, após o contato com outras tribos de índios em outros Estados do Brasil, mudamos de opinião. A situação dos índios no Brasil – e talvez na América do sul em geral – é a mais desumana que seres humanos possam levar. A propósito, poderíamos fornecer a V. Paternidade os dados de um levantamento que em nossas férias fizemos entre os índios do Rio Grande do Sul e que falariam melhor da realidade que afirmamos, mas a nossa carta ficaria longa demais.
Embora todas as legislações lhes garantam direitos – até especiais – sobre os brancos, eles nada mais são do que joguetes nas mãos de cristãos sem consciência. E por se tratar de homens que por natureza ou caráter, não reclamam, nem tem advogados que os defendam, nem se sabem defender, nem mesmo os bispos e vigários vêem o drama porque passam estes míseros seres humanos em suas próprias paróquias, a suas vistas. Ou quando o percebem, por não lhes conhecer o caráter nada fazem.
A maioria destes vigários e bispos são bem intencionados e alguns almejam a ajuda de pessoas que os circundam neste problema social de suas paróquias. Um bispo – auxiliar de Porto Alegre – nos pediu que fizéssemos um plano de atendimento a estes pobres índios que eles, os bispos, nos dariam cobertura total. Tal inclusive já foi posto em discussão numa reunião de bispos no Rio Grande do Sul.
Pediu-nos inclusive, o bispo, que nós permanecêssemos no Rio Grande do Sul para atender estes índios, ao que respondemos que já estávamos comprometidos com a Missão do Mato Grosso, que realmente estimamos com um amor inseparável. Aliás, a situação dos índios em outros estados do Brasil é a mesma que a do Rio Grande do Sul.
Diante desta situação que se estende a todos os 80.000 índios do Brasil, que ainda não foram destruídos pelo bárbaro processo de extermínio lento – mas sempre brutal – em marcha desde 1500, sempre com os mesmos processos, ficamos pensando numa solução para atingir não apenas os poucos índios da Missão Anchieta, mas também os índios sob a tutela do Serviço de Proteção ao Índio – órgão oficial do governo – e de outros ainda não pacificados, e hoje barbaramente trucidados.
E foi então que retomamos a solução proposta pelos colegas missionários dos índios na Missão do Mato Grosso, que propugnavam uma separação por não se virem suficientemente apoiados pela direção da Missão e da Província, ao qual parece interessar mais o trabalho no setor de garimpos onde rende mais.
Realmente, Pe. Geral, temos pena da situação dos missionários pacificadores de índios ainda bravios, após um fracasso, como o foi da última penetração pacificadora aos índios Beiços de Pau em maio próximo passado! Um deles, ferido por uma flecha, acabrunhado pelo insucesso – e contudo convencido de que é o trabalho número um a ser realizado no mundo – o missionário tem de ouvir ainda a incompreensão de muitos de seus próprios colegas. E em verdade quem possui uma visão clara da situação dos índios no Brasil, não pode deixar, como cristão, de expor a sua vida para salvar da destruição certa a estes índios.
Pensamos que seria uma boa contribuição para o ano da fé, para a Companhia, rever o trabalho dos índios e a sua Missão Anchieta.
Outro motivo que nos leva a proposta que a seguir hemos de expor é a seguinte: Muitas vezes a nossa Província Sul-brasileira já não se sente inteiramente responsabilizada por aquela Missão, como Missão, aludindo que já não possui mais feições de Missão. A opinião nasce daí que realmente os trabalhos nos garimpos e sítios absorvem hoje mais missionários, que a Missão Anchieta entre os índios, para a qual se abriu esta frente de trabalho. E os trabalhos apostólicos nos garimpos, não divergem dos de outras regiões do Centro-oeste-brasileiro, de maneira alguma considerados Missão. E procuram encobrir a Missão entre os índios por ser pouco representativa em números de pessoas atingidas.
Esta opinião está-se transformando em mentalidade que vem prejudicando muito toda a Missão Anchieta. Dentro da própria Missão a questão tem mais  ou menos as seguintes consequências prejudiciais. Não há possibilidade de uma especialização séria. Cada ano é quase destinado um padre que se preparou para trabalhar entre os índios, para ocupar uma paróquia nalgum garimpo. Isto ocasiona no nosso entender um desperdício de forças muito grande e pode dar inclusive, a longo prazo, a impressão de que não se esteja levando nenhum setor da Missão, com real seriedade para a frente.
Pensamos que se Nosso Senhor chama hoje tantos jesuítas para trabalharem no apagado trabalho dos índios, é para se dar real ocasião de proporcionar uma mais plena realização dos mesmos neste setor específico. E se faz tal, não terá suas intenções, o seu fim? E daqui surge a nossa proposta.
Iniciamos com uma pergunta que põe em questão a nossa querida Missão na sua forma atual. Será que Nosso Senhor nos quer a nós missionários dos índios apenas entre os índios da Missão Anchieta? Não visará Ele com tão abundantes operários que se sentem chamados a este trabalho, por parte de nós uma ação mais ampla, conjunta no sentido de atingir também os índios de outras regiões do Brasil e da América, que não tem quem se interesse por eles?
Neste caso formar-se-ia realmente uma equipe especializada de missionários para o setor indígena: Em Antropologia, Sociologia, Ciências Econômicas, Agronomia, na pacificação de indígenas ainda bravios, que então estaria engajada numa espécie de trabalho interprovincial e atenderia também o Serviço de Proteção aos índios na parte religiosa. Mas tal Missão inter-provincial teria então seu superior próprio, independente do superior da Prelazia – dos garimpos de Diamantino.
Resumindo, pensamos que o trabalho de atendimento aos índios como está não pode continuar. Nesta “lenga-lenga”, daqui há poucos anos veremos os nossos índios destruídos e destruídos a nossa vista. A propósito de ilustração, queremos relatar um fato ocorrido em 1963, durante os anos em que trabalhamos na Missão: Uma tribu de índios completamente bravios – os Cinta Larga – foram atacados por quatro expedições de brancos, que com metralhadoras, granadas de mão, fuzis, apoiados com mantimentos fornecidos de avião os queriam exterminar por obstarem a invasão de suas terras. Nós nos desculpávamos laconicamente: não são do nosso território. Realmente era fora do território da Missão Anchieta que tal sucedia. Entretanto, nós estávamos melhor informados do que os próprios responsáveis pela Missão vizinha, cuja sede distava mais da tribu atacada.
Embora incompreendidos, P. Geral, gostaríamos de levar este árduo trabalho avante e gostaríamos de ser ao menos compreendidos e apoiados inteiramente pelos irmãos da mesma Missão, eis porque gostaríamos que V. P. considerasse a possibilidade que propomos, de se criar uma Missão com uma visão mais aberta para o problema indígena do Brasil, mais voltada para o índio, e que exclua oficialmente os outros setores, a fim de não cair na tentação de procurar o que rende mais, em detrimento do que mais necessita ou para o que Deus chama.
V.P. sempre está presente em nossas orações e trabalhos.
Cordialmente vos saúdam, vossos servos em Cristo,

Egydio Schwade, sj

Thomaz de Aquino Lisboa, sj

THOMAZ MEU COMPANHEIRO DE CAMINHADA MISSIONÁRIA

Embora substituísse Thomaz Lisboa em 1963 no campo de trabalho, onde passou todo o ano anterior, não pude me encontrar com ele antes de assumir o seu trabalho, na Prelazia de Diamantino, onde como estudantes jesuítas fizemos a nossa primeira experiência indigenista, só vim a conhecê-lo alguns meses depois. Vivemos os dois anos que se seguiram naquela missão, completamente isolados, sem juntos podermos avaliar as nossas experiências. O isolamento era uma das características em que viviam principalmente os estudantes jesuítas naquele tipo de missão, embora a decisão que nos levou ali era geralmente a mesma. Surgirá na vivência da família e no discernimento dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola, e, naquele momento histórico, foi encorajada pelas orientações do Concílio Vaticano II, que nos dizia que ser preciso mudar a estrutura da Igreja Missionária, para que os povos indígenas pudessem sobreviver e participar com seus valores na construção de um mundo mais humano.
Thomaz chegou à Prelazia de Diamantino em 1962. As estruturas dos educandários para indígenas, Utiariti e Lar do Menor, na Prelazia de Diamantino, onde passamos totalmente separados a nossa primeira experiência missionária indigenista, longe das aldeias não contribuía para cultivarmos “as sementes do Verbo ocultas nos povos” como o Concílio nos orientava (Ad Gentes, 11). Uma convicção já nos unia, embora longe um do outro: Não seria os educandários da Ordem que nos levariam à realidade. Só a vivência nas aldeias, na convivência com o povo, ouvindo os seus sábios. Era preciso ir lá e encarnar-se na sua situação, fora das velhas estruturas do poder, do dinheiro...
A Missão indígena estagnada sobre seus internatos, para onde levava a juventude logo após o primeiro contato. (Vimos em Utiariti chegarem jovens Rikbaktsa, à tardinha com seus lindos enfeites sobre o corpo nu e no dia seguinte ajoelhados, “europeizados”, de roupas “civilizadas”, nos bancos da igreja.) A Igreja missionária parada sobre as suas construções, não entendia a aflição desses povos. Doutrinar, europeizar e integrar objetivavam os Estados, tanto o Vaticano, como o Brasileiro. O Lar do Menor, em Diamantino, onde atuamos, depois de Utiariti, prosseguia o trabalho de integração ou marginalização. Ali eram acolhidos não só indígenas, mas também meninos pobres do interior, filhos de agricultores e garimpeiros. Nestes três anos vivenciamos momentos de alegria, mas também os absurdos, contradições e incoerências próprios das missões da época pré-conciliar, sem saber como tomar alguma atitude para superá-las.
A Igreja Católica, para ser ‘católica’ teria que crescer horizontalmente e não para o alto. Encarnar-se na realidade dos povos e populações brasileiras e não viver em um mundo de prédios, de Colégios e Universidades, alienados da realidade desses povos e populações que deixavam as suas aldeias para irem esconder os seus valores, a sua identidade, nas periferias urbanas.
Foi em São Leopoldo/RS, em 1966, quando fui continuar os meus estudos que nos conhecemos mesmo. E foi lá que pudemos trocar as nossas experiências recentes, vividas na Missão e unir os nossos sonhos. Thomaz já estava ali há um ano. Pouco depois de minha chegada elaboramos a primeira carta conjunta com um plano de mudança da missão e que enviamos no dia 18 de março a todos os agentes de pastoral da Prelazia de Diamantino. O plano tinha como pontos centrais. 1. Parar os trabalhos da Prelazia e nos dedicarmos prioritariamente à atração dos índios isolados e ao reconhecimento do território da Prelazia que na época tinha 354.000 km2. 2. Levantamento sócio-econômico-religioso total. As poucas respostas que recebemos foram uma decepção total.
Vendo o nosso plano rejeitado pelos companheiros em campo e vendo que seria difícil mudar algo com o quadro missionário religioso da Prelazia, partimos em outro rumo. Pensamos na entrada de leigos, não como tapa-buracos, mas como companheiros que pudessem pensar e realizar conosco a desejada mudança. Organizamos então uma ‘fotonovela’, sobre o trabalho indigenista e nos fins de semana nos dirigimos a grupos jovens das comunidades católicas e evangélicas (dentro dos princípios do ecumenismo desejado pelo Vat. II) no Vale do Rio dos Sinos, discutindo o nosso plano de ação. Obtivemos adesões entusiastas, mas não conseguimos concretizar uma organização, durante os três anos que estudamos juntos em São Leopoldo.
Eu era muito tímido, ao contrário do Thomaz, cujo forte era empurrar logo para ação os planos e sonhos que nos vinham na cabeça. A Semana Santa de 1967 passamos junto aos índios do Rio Grande do Sul. Sem que tivéssemos tido algum contato anterior e sem conhecer uma só aldeia. Viajamos a sua procura, iniciando por Nonoai. Naquela semana visitamos 5 toldos, como são conhecidas as áreas indígenas no Rio Grande do Sul. Voltamos tristes com a lamentável situação que encontramos. E escrevemos 9 artigos, publicados pelo jornal “Correio do Povo” de Porto Alegre, sob o título: “Drama de 1080 Famílias Indígenas Riograndenses”/maio/1967. O quadro apresentado chocou a opinião pública e a Assembleia Legislativa criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito-CPI para apurar as denúncias dos ‘estudantes jesuítas’. Fomos chamados a depor. O Rio Grande do Sul era então o único Estado que ainda tinha serviço estadual de proteção aos índios. 4 reservas, reminiscência da estadualização da política indigenista pela primeira Carta Magna republicana e que “integrou” ou acabou com quase todos os povos indígenas dos estados da costa brasileira. Mas possuía também 4 reservas federais sob a proteção do SPI-Serviço de Proteção dos Índios. O fato dessa dualidade de serviços provocou, durante os trabalhos da CPI-estadual, uma polêmica que resultou na CPI-Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara federal que terminou na extinção do SPI e criação da FUNAI, em dezembro daquele ano de 1967. Esperávamos uma real mudança na política indigenista oficial. E por isso, Thomaz e eu, investimos forte na perspectiva desta mudança.
Levamos o líder indígena, Juvêncio de Paula, cacique do toldo de Votouro, para que relatasse a situação do seu povo. O depoimento teve muita repercussão. Em 1967 o Governo criou a Operação Rondon que levava estudantes para a Amazônia. Já no ano seguinte, Thomaz e eu sugerimos através da Secretaria de Educação do RS, a criação de uma Operação Rondon Regional, que no caso se dirigisse aos Toldos Indígenas do Rio Grande do Sul. A proposta foi aceita e durante um mês coordenamos um trabalho de estudantes universitários gaúchos junto às comunidades indígenas do Estado, com o apoio logístico do Exército. E enquanto estudantes em São Leopoldo, continuamos visitando os postos indígenas e animávamos outros estudantes jesuítas a fazerem o mesmo. Como o Noviciado jesuíta funcionava então em Florianópolis, começaram a sair dali estudantes para conhecerem também a realidade indígena de Santa Catarina. Tomamos ainda contato com diversas Escolas normais do RS e conseguimos animar jovens professoras para quase todos os postos da FUNAI no Estado. Com o apoio da Secretaria de Educação do Estado, todas participaram de um curso especializado, dentro da própria Secretaria em Porto Alegre e com a nossa assessoria.
Da parte da Igreja, Thomaz e eu, sempre tivemos reações controversas frente às nossas iniciativas. Muitas vezes contraditórias. Assim com os levantamentos feitos pela CPI da Assembleia Legislativa, foi descoberto que o Arcebispo de Porto Alegre e o Bispo de Passo Fundo, foram favorecidos por funcionários do SPI, com madeira, para a construção de seus seminários, madeira retirada ilegalmente das áreas indígenas do Estado. O que foi publicamente denunciado. Em consequência os dois bispos pediram providências em assembleia do Regional da CNBB, ao provincial dos jesuítas para nos reprimir. O que este de fato fez. Entretanto, da parte do Secretário da CNBB-Sul III, D. Ivo, recebemos logo após esta reunião da CNBB, pedido para organização de um encontro dos religiosos que trabalhavam em paróquias onde havia toldos indígenas. Apresentamos a dificuldade que teríamos para organizar o encontro diante da atitude hostil de alguns bispos e da reprimenda que havíamos recebido do nosso superior religioso. Mas D. Ivo com sua tranquila determinação nos respondeu: “Eu ouvi a queixa dos dois bispos, mas vocês ficam os encarregados dessa reunião e vão realizá-la o encontro no seminário do bispo de Passo Fundo.”
Quando no início de 1969 fiz o levantamento da situação indígena no Paraná e a CNBB paranaense publicou o meu relatório, começou o primeiro conflito com os dirigentes da FUNAI. O Delegado Regional considerou o relatório uma crítica ao trabalho do órgão. Tentei convencê-lo do contrário. Ele então nos convidou a participar do Primeiro Encontro FUNAI-Missões que estava sendo programado pelo Presidente do órgão, Queiroz Campos, em Brasília. Participamos,Thomaz e eu, e discutimos com força. Apresentamos uma proposta de estratégia concreta para mudanças na política do órgão. Propusemos que ao invés de querer mudar logo a calamitosa situação indígena no país inteiro, se começasse pelas áreas de maior premência. E concretamente, sugeríamos que iniciasse em Nonoai. A repercussão da solução encorajaria os índios e desestimularia os invasores a prosseguirem em sua ação nefasta. Nossa proposta foi aceita e para concretizá-la se criou uma equipe conjunta que iniciaria os trabalhos in loco. Fomos incluídos no grupo que seria dirigido por Ney Land e mais um advogado da FUNAI. Entretanto, no dia marcado, apenas Thomaz e eu estávamos em Nonoai. Ninguém da FUNAI compareceu.
Em 1969 Thomaz Lisboa, com a Teologia completada, voltou à Missão Anchieta ansioso por realizar os nossos sonhos de mudanças. Nomeado superior de Utiariti, fechou o internato, incentivando índios e religiosos(as) a se integrarem às aldeias. A decisão de Thomaz de fechar Utiariti foi um chamado a toda a Igreja Cristã do Brasil e desencadeou um modelo de vivência cristã há muitos séculos abandonada, mas profundamente atual e transformadora. Quase simultaneamente no Sul onde ainda concluía meus estudos de Teologia, tive sucesso em outro rumo de nossos sonhos.  Durante um encontro de jovens, congregados marianos catarinenses, reunidos no convento dos franciscanos em Rio Negro/PR, foi criada a OPAN-Operação Anchieta, hoje Operação Amazônia Nativa. Com estas duas novas frentes, desencadeou-se nas missões religiosas um processo de mudança irreversível que adiante, levou à criação do CIMI e da CPT, entidades que até hoje conduzem o processo de mudança e presença da Igreja missionária, junto aos índios e pequenos agricultores.
Mas os nossos sonhos iniciais de mudança concreta da rotina da Missão Anchieta-MIA, priorizando a atração dos índios ainda isolados, também não ficou esquecida por Thomaz.
Nas férias de 1968 fui à Missão Anchieta com outro colega jesuíta, João Born, para fazer um levantamento da população da paróquia de Porto dos Gaúchos. Na descida do Rio Arinos, território dos índios Tapaiuna, também conhecidos como Beiços-de-pau, a certa altura, os índios lançaram flechas contra nossa embarcação. Uma caiu a um metro de mim. Um mês depois, ao voltar, em outro local do rio, outro grupo dos mesmos índios arredios, se apresentou pacificamente chamando-nos para a margem do rio. Alguns tripulantes jogavam roupas, enquanto os índios ofereciam cestas e colares e com gestos pediam que o barco encostasse. Mas o dono do barco, receoso, apenas passou rente, evitando encostar.
Preocupado pelos índios, temendo que algum irresponsável se aproveitasse dessa situação e fosse contatar o grupo levando-lhes doenças, procurei em Diamantino/MT os responsáveis pela Missão Anchieta e tentei convencê-los a enviar imediatamente algum missionário para que contatasse o grupo e ficasse com ele, animando-o a permanecer na sua aldeia, afastado do rio. Os superiores, porém, alegaram que não tinha ninguém disponível. Prontifiquei-me, então a interromper a Teologia, para ir. Mas não me permitiram. Deixei ainda uma carta manuscrita, bastante dura, manifestando a minha preocupação e alertando sobre o perigo que os índios corriam, expostos a contatos indiscriminados de aventureiros que não faltavam na região ou então funcionários despreparados da FUNAI.
Antes de voltar para o Sul, recebi ainda convite do Secretário Nacional do SNAM da CNBB, Pe. Lourenço Soonsbeck, para participar de um encontro de Missionários indigenistas de diversas Prelazias, que se realizaria naquele mesmo fevereiro em Morumbi/SP. Foi o primeiro dos encontros que desembocaram em 1972 na criação do CIMI. No encontro ficou claro que um dos entraves principais à mudança que se fazia necessária nas missões, eram os próprios superiores das províncias e missões religiosas. Todos sentiam que se deveria enfrentar essa situação com nova visão da obediência. Presenciei  ali e me atingiu profundamente, diante do que havia sentido em Diamantino com meus superiores, uma discussão acalorada entre o salesiano, Pe. Angelo Venturelli, professor na Universidade Salesiana D. Bosco de Campo Grande/MS e o Frei dominicano, Gil Gomes Leitão, missionário entre os índios Suruí do Sul do Pará, ambiente da futura Guerrilha do Araguaia. Preocupado com a perspectiva que se estava desenhando naquele encontro, Pe. Ângelo, reboou com um vozeirão poderoso: “E onde fica, então, a nossa obediência religiosa?” Em resposta Frei Gil, com sua vozinha gentil deu a inesquecível lição: “Obediência, sim, mas obediência criativa!” . E ilustrou o sobredito. “Certa vez os meus superiores me chamaram da Missão para atender uma comunidade de freiras em Uberlândia/MG. Obedeci, mas logo percebi que aquela comunidade não necessitava de mim. Todas eram santas e tinham tudo o que necessitavam. Arrumei, então, as malas e voltei aos Suruí, que realmente precisavam de minha presença.”  
De Morumbi/SP voltei a São Leopoldo/RS, onde cursava Teologia. Expus ao então já padre Thomaz Lisboa o meu drama de consciência sobre os Beiços-de Pau. Thomaz escreveu no mesmo dia aos superiores da Missão Anchieta, dispondo-se a interromper a Teologia, para ir aos Tapaiuna. Argumentava que já era padre, (os jesuítas se ordenam no 3º. ano de Teologia) estando em condições para levar o trabalho avante, sem grandes prejuízos aos seus estudos. Também não lhe permitiram. Poucos meses depois dois aventureiros, que souberam da atitude pacífica dos Tapaiuna convidaram um grupo de jornalistas das revistas Fatos e Fotos e Cruzeiro, com os quais foram fazer a “pacificação” dos Beiços-de-Pau. Um dos jornalistas estava gripado e levou a doença aos índios. Ele mesmo relata em sua reportagem, entre gracinhas, com detalhes, como tudo aconteceu. Resultado: em poucos meses aquele povo, estimado em mil pessoas, foi reduzido a 41. O acontecimento feriu a nossa consciência e daí por diante não mais nos orientamos atrás das ‘necessidades’ de instituições insensíveis, procurando obedecer com criatividade, “antes a Deus do que aos homens”. (At.5,29)
Após o desastre dos índios os dois aventureiros, discretamente, se retiraram da área e o Presidente da FUNAI, Queiroz Campos, pediu aos superiores jesuítas ajuda para uma presença efetiva com este povo. O pedido foi atendido. O P; Antônio Iasi foi enviado, tendo em mãos o primeiro pedido de autorização expedido pelo órgão. (O segundo foi para o P. João Calleri, para realizar a atração dos Waimiri-Atroari). Quando o Pe. Iasi adoeceu Thomaz e o Ir. Vicente Cañas se ofereceram para substituí-lo. No mês passado, em palestra ao meu lado, no painel de abertura dos festejos de 50 anos da OPAN declarou a este respeito: “Foi o meu batismo de fogo!” Em meio à sua presença junto com o Ir. Vicente Cañas, foi-lhe comunicado que os índios seriam transferidos de seu território milenar para o Parque do Xingu. O que de fato ocorreu, sem previa consulta, nem aos índios e nem a Thomaz e Vicente. E o seu precioso território passou ao latifúndio. Hoje uma iniciativa do MPF, a frente o procurador Júlio Araújo, está tentando rever este ato criminoso.
Thomaz junto com o companheiro nosso, Ir. Vicente Cañas, foram também os artífices de um novo modelo de primeiros contatos com povos indígenas isolados. Talvez tenha sido o primeiro e único modelo conscientemente adotado que não traumatizou esses povos e os fez crescer em número e saúde após o primeiro contato. Com o auxílio de indígenas dos povos vizinhos e depois com acompanhamento da OPAN o método foi aplicado por Thomaz e Vicente junto aos Myky e junto aos Enauenê Nauê em Mato Grosso e por Gunter Kroemer nos Suruwaha do Amazonas
Na segunda metade de 1971 chegou à Missão Anchieta convite para mais um encontro em Brasília de missionários das diferentes áreas de missões indígenas, para dar continuidade às decisões anteriores iniciadas em Morumbi/68. Mas a insatisfação tomou conta de nós jesuítas da Prelazia de Diamantino que havíamos participado dos encontros anteriores. A pauta indicava para uma estagnação da almejada mudança prevista nos encontros anteriores. O coordenador do encontro foi entregue a um padre recém-chegado de Roma por fora das decisões já tomadas, em especial, de se partir para a criação de um órgão que coordenasse novos rumos para as missões indígenas. Mudança já em prática na Missão Anchieta, principalmente, com a entrada da OPAN.  Diante disso, Thomaz e eu, nos reunimos com o Bispo, D. Henrique expondo a nossa preocupação. Este nos pediu para acompanhá-lo ao encontro dos Bispos do Regional/MT em Campo Grande. Ali recebemos a incumbência de redigir uma proposta de alteração da agenda da reunião de missionários prevista para abril/1972. A nossa proposta foi assumida pelos bispos do Regional/MT e, inclusive, publicada no Observatório Romano e na revista SEDOC/abril/1972. No seu primeiro item se propõe: “Que se efetive uma coordenação nacional corajosa, com conhecimento da situação real do índio e representativa de uma visão com abertura nacional e até internacional da problemática.” Seguem os detalhes sobre o seu funcionamento. Mas a proposta não foi aceita pelo coordenador do encontro o que levou a uma árdua discussão durante dois dias para, finalmente, se partir para a discussão sobre a criação do novo órgão missionário. O coordenador, amargurado, abandonou o encontro, deixando aberta a discussão que levou a criação do CIMI, no qual Thomaz foi eleito como um dos primeiros conselheiros.
O primeiro ano do CIMI, foi praticamente sem ação, porque os conselheiros, quase todos experts em indigenismo, mas presos aos seus trabalhos já estruturados, não queriam abandoná-los para se dedicar ao novo instrumento indigenista da Igreja. A insatisfação continuou caindo sobre a CNBB-Nacional cujo Secretário Executivo, D. Ivo, pediu uma reunião do CIMI e sugeriu a criação de um secretariado, a exemplo da CNBB. Em junho de 1973 foi criado o Secretariado executivo do CIMI que assumi a pedido do Conselho e que conduzi por 7 anos. Depois de algumas percorridas pelas prelazias da Amazônia, em dezembro daquele ano, Thomaz e eu, fomos chamados para o nosso último estágio jesuítico, a então chamada “Terceira Provação”, que se realizou com vários outros companheiros jesuítas na Gávea/RJ, sob a orientação do Pe. Luciano Mendes de Almeida. Thomaz e eu, vivemos bastante alheios ao encontro propriamente dito, totalmente envolvidos no planejamento da proposta de programação da ação do Secretariado do CIMI. O nosso programa continha duas metas: Assembleias Indígenas e Encontros de Agentes indigenistas por regiões, sempre com a participação de lideranças indígenas da mesma região. Já próximo ao final da experiência jesuítica, D.Tomás me chamou a São Paulo. Queria conhecer a proposta para melhor poder apoiá-la no encontro do CIMI previsto para janeiro. É que havia divergências entre os conselheiros e poderia haver fortes contestações ao nosso programa.
Em maio de 1975 convocamos a 2ª. assembleia indígena para o alto Tapajoz, aldeia Munduruku do Rio Cururu. Reuniu em torno de 800 indígenas do Pará, Amapá, Tocantins e Mato Grosso. Estes últimos vieram acompanhados pelo P. Thomaz. Estiveram presentes além de nós dois, o Pe. Iasi, D. Tomás, D. Pedro, Nelo Rufaldi, coordenador do CIMI-Norte II (que também faleceu esta semana) e alguns freis franciscanos. Enquanto os indígenas discutiam os seus assuntos, nós aproveitamos a ocasião para dar os primeiros passos para a criação da Comissão Pastoral da Terra-CPT, que teve no mês seguinte sua aprovação por um grupo de bispos e sua primeira programação e equipe, na oportunidade da 1ª. Assembleia Nacional do CIMI, em Goiânia, em julho de 65.
Por volta de 1982, quando Doroti minha esposa e eu, estivemos empenhados na busca de contatos clandestinos com o povo Waimiri-Atroari, (porque eu estava proibido de entrar em todas as áreas indígenas do país pela Ditadura Militar, devido aos meus duros posicionamentos, quando Secretário do CIMI, contra a política indigenista do Governo), Thomaz veio nos apoiar em um dos primeiros contatos clandestinos que tivemos com aldeias desse povo.
Thomaz nunca foi um missionário teórico, mas prático e decidido. Punha em ação o que achava correto, seja dentro das linhas apontadas pela Ordem jesuítica, seja pelas linhas da Igreja, mesmo que para isso tivesse que enfrentar e escandalizar a rotina institucional em que estas instituições se arrastavam. E ambos devido às nossas atitudes pessoais e ações sem respeito a vários cânones do Direito Canônico e regras da Companhia de Jesus, não cabíamos mais nestas instituições. E nos conformamos com isto. Entretanto, sempre nos sentimos muito aceitos por todos os companheiros jesuítas missionários junto aos índios e também pelos agentes de pastoral, padres, irmãs leigos que com o Concílio Vaticano II, creem que a Igreja é o Povo de Deus.
Casa da Cultura do Urubuí, dia 30 de março de 2019,

Egydio Schwade