2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas! Que vivam Bem!

quinta-feira, 7 de junho de 2018

MUNICÍPIO DE PRESIDENTE FIGUEIREDO – II


 “O minério anima e enfeitiça”

A rede de rodovias construídas pela Amazônia, incluindo a rodovia BR-174, Manaus-Boa Vista, teve como principal objetivo ligar as minas da região, garantindo a infraestrutura para a sua exploração. As obras enriqueceram empresas de construção e as aliciou para ampliarem os seus objetivos. Assim, as rodovias se tornaram “veias abertas” - na expressão de Eduardo Galeano, - por onde se escoam os recursos naturais, em especial, o minério, deixando para a população local, pouco benefício, mas muitos buracos na floresta e nas estradas...

Na opinião de Robert Goodland, assessor do Banco Mundial a estrada Manaus-Boa Vista teve como objetivo principal a exploração mineral,(1) relegando a segundo plano a sonhada ligação rodoviária das capitais Manaus e Boa Vista. Antônio F. de Souza, em seu livro “Roraima em Revista”/1970, corteja o pensamento do governo: “O minério anima e enfeitiça, Roraima faísca e fascina.”(2) “A BR-174 é fator de integração nacional e de ligação internacional com a Venezuela, nas fronteiras setentrionais da pátria brasileira, cujo subsolo esconde riquezas minerais que se traduzem nas grandes possibilidades econômicas que as estradas ajudarão a descobrir”(3).

Sob o título: “Sondando a Desconhecida Bacia Amazônica – uma investigação de 21 programas de exploração mineral no Brasil” – Max White, geólogo do Geological Survey dos Estados Unidos, publicou em maio de 1973 um artigo que descreve 21 projetos geológicos e de mineração iniciados na Bacia Amazônica como parte de um programa de cooperação entre o Departamento Nacional de Produção Mineral, a Companhia de pesquisa de Recursos Minerais e o Geological Survey dos Estados Unidos, sob o patrocínio do Governo Brasileiro e da Agência para o Desenvolvimento Internacional dos E.U.A. (USAID). De acordo com White, naquela data já havia 225 geólogos e engenheiros realizando investigações minerais na Amazônia – mais de 125 com base em Belém, perto de 40 em Manaus e cerca de 60 em Porto Velho.” (4).

Uma das principais áreas de pesquisa mineral na época se localizava na região dos Kiñá “na parte Noroeste da Bacia Amazônica, no Território de Roraima e no Estado do Amazonas. O artigo de White descreve três grandes projetos nessa região: (1) o projeto Norte da Amazônia, que consiste no reconhecimento geológico e geoquímico de 1.051.840 km2, quase todo o 
território do Brasil ao norte do rio Amazonas; (2) o projeto Roraima, que consiste em trabalhos geológicos numa área de 120 mil quilômetros quadrados na parte setentrional do Território de Roraima, perto da fronteira com a Guiana e a Venezuela; e (3) o projeto Aripuanã-Sucunduri, que cobre uma área de 80 mil quilômetros quadrados nos sistemas de drenagem dos rios Aripunanã, Rooswelt, Guariba, Juma e Sucunduri, na parte Sul do Estado do Amazonas.” (5).

O fato que mais influiu nesse grande número de atividades de prospecção mineral na região, foi a conclusão do projeto RADAM, ou seja, o imenso levantamento aerofotogramétrico e mineral da Bacia Amazônica. Em 1973, quando White publicou o seu artigo, os geólogos do Projeto RADAM já haviam praticamente completado um exame de toda a parte Norte da Amazônia. “De acordo com periódicos especializados em mineração, (lamentavelmente distantes do público nacional), grandes depósitos de minério de ferro, manganês, estanho, bauxita e carvão, haviam sido encontrados na região. O projeto RADAM descobrira também grandes depósitos de colúmbio, tântalo, zircônio, ouro e diamantes. Os resultados desses levantamentos indicavam que a Bacia Amazônica continha um dos mais valiosos e diversificados perfis minerais do mundo” (6).

Durante todo esse período a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais-CPRM, desempenhou um papel importante na abertura da frente de expansão mineral da Amazônia. A CPRM foi criada pelo Governo Militar em 1969 e desde então tem cumprido três funções básicas: 1. melhorar o conhecimento geológico básico do país; 2. fornecer assistência técnica e financeira às companhias ineressadas em sua exploração, tanto estrangeiras como nacionais, para o desenvolvimento da prospecção e da lavra mineral; e 3. patrocinar e desenvolver a base tecnológica para a rápida expansão da indústria de mineração no Brasil.

A área Waimiri-Atroari foi perscrutada desde 1968 por geólogos da Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais – CPRM – e do Departamento Nacional de Produção Mineral-DNPM. Levantaram o potencial mineral do alto e médio Rio Uatumã e afluentes, incluindo as minas do Pitinga em área dos Kiñá.

Em maio de 1969 o Ministro do Interior, Costa Cavalcanti, encaminhou à FUNAI um processo, contendo um plano de urbanização e povoamento de uma faixa de fronteira da Amazônia compreendida entre a Guiana e a Venezuela, elaborado pela empresa amazonense Erolt. “A região proposta no plano abrange o território dos Atroari e dos Waimiri que, prometeram unir-se para enfrentar o homem branco, seu inimigo, interessado em suas terras ricas em minério”.

O conceito de (des)envolvimento na Historia Oficial, portuguesa e brasileira, referente à Amazônia, tem ligação com a alienação dos povos amazônicos e o (des)envolvimento de sua terra e riquezas naturais que são transferidas para outras partes do mundo, sem melhorar a vida da população local e regional. Com a estrada se impôs um novo modelo de poder político e se baniu o modelo comunitário-indígena milenarmente reinante.

A História dos recursos naturais do território Kiñá-Waimiri-Atroari é ilustrativa. No início da colonização o valor que os portugueses procuravam na região do Rio Negro era mão de obra indígena e especiarias. No final do século XIX, o território Kiña começa a ser invadido com novos objetivos: a exploração da borracha, do pau-rosa e a transferência do gado de Roraima para Manaus.

Os “interesses” sempre se organizam e elaboram so seus planos na surdina, sem a consulta e opinião dos segmentos populares. Alheias ao processo, as comunidades locais não tem condições de se organizar em sua defesa. Desta forma, os índios e a população regional, em especial, os pequenos agricultores do rio Uatumã e da BR-174, ficaram à mercê de manipuladores dos empreendimentos que se apossaram de seu território, de suas pessoas e dos seus recursos naturais.

O Governador Danilo Areosa do Amazonas, na oportunidade da morte do padre Calleri, em 1968, protestou contra o pedido de interdição dos trabalhos da BR-174 pela FUNAI: “Esses silvícolas, - referindo-se aos Kiñá, - ocupam áreas das mais ricas do nosso Estado, impedindo a sua exploração
com prejuízos incalculáveis para a receita nacional, impossibilitando a captação de maiores recursos para a prestação de serviços públicos”.(7) E o Governador de Roraima, Fernando Ramos Pereira acrescentava: “Sou de opinião que uma área rica como essa não pode se dar ao luxo de conservar meia dúzia de tribos indígenas atravancando o seu desenvolvimento”.(8) Fica evidente a intenção de afastar os índios a qualquer custo. E eles começaram a sumir a partir de 1968. “...tombaram no silencio da mata, foram sutilmente enterrados e esquecidos no espaço e no tempo” – como refere o sertanista da FUNAI, Apoena Meirelles.(9)

Ao roubo do patrimônio dos índios Waimiri-Atroari e o sumiço de pelo menos 9 aldeias indígenas, seguiram grandes investimentos para o saque das riquezas.

A criação do município de Presidente Figueiredo ocorreu dentro e em função desse acobertamento do saque mineral em terras Waimiri-Atroari.

Casa da Cutura do Urubuí, 7 de junho de 2018,

Egydio Schwade.

(1) Goodland, Robert e Irwin, H. S. – „Amazon Jungle: Green Hell to Red Desert?“ – Amsterdam/1975.
(2) Souza,, Antônio F. de - “Roraima em Revista”/1970.
(3) Idem
(4) White, Max G. – Probing the unkown Amazon Basin – A Roundup of 21 Mineral Explotation Program in Brasil. 
– 05/1973.
(5) Davis, Shelton – “Victims of the Miracle” – Rio de janeiro/1978
(6) Idem
(7) Jornal A Crítica - Danilo Protesta contra Interdição do Alalaú – Manaus, 27-11-19768
(8) Jornal A Crítica – Governador acusa índios pelo atraso de Roraima – Manaus, 05-03-1975.
(9) Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO – 26-10-1975.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Paróquia e Missão: Vinho novo em odre novo?


Durante a minha caminhada de 55 anos de vida missionária, (15 anos como celibatário e 40 com família) que teve seu início na Prelazia de Diamantino/MT, depois como coordenador técnico da OPAN, em seguida como Secretário Executivo do CIMI-Conselho Indigenista Missionário, seguindo na Prelazia de Itacoatiara/AM e agora na Arquidiocese de Manaus, tive oportunidade de conhecer paróquias em todo o país, de Sul a Norte e de Oeste a Leste. E o meu foco sempre foram as populações em situação de missão.

Minha caminhada missionária iniciou em meio à agitação do Concilio Vaticano II. Os documentos conciliares: Lumen Gentium-A Luz dos Povos, (com novas orientações para toda a Igreja), Gaudium et Spes-Alegria e Esperança e Ad Gentes-Aos Povos, (dirigidos, especialmente, aos povos esmagados pelo Estado e seus subprodutos, empresas de mineração, agronegócio...) sobre o Ecumenismo e outros, contêm orientações que retomam o conceito original da missão e por isso agitaram corações e mentes nos seminários e em muitas paróquias e Dioceses de então. 

Mundo afora criaram-se organizações missionarias que abriram novos horizontes aos cristãos em dimensões planetárias. Pessoalmente participei da fundação de diversas delas aqui no Brasil. Em fevereiro de 1969 participei da criação da OPAN-Operação Anchieta, que suscitou, treinou e enviou jovens leig@s que sob o impulso da orientação do Concilio e superando as fronteiras das igrejas, se dirigiram à Amazônia, onde mudaram o conceito de missão doutrina, para missão encarnação, uma presença-serviço ao reerguimento dos povos indígenas. Três anos depois coordenei a reunião onde foi criado o CIMI-Conselho Indigenista Missionário, fundado sobre os mesmos princípios. Em 1975 ajudei na criação da CPT-Comissão Pastoral da Terra, visando a encarnação da Igreja na realidade dos pequenos agricultores injustiçados de diversas formas. Estes organismos contagiaram muitos setores da sociedade, onde em seguimento se criaram outras organizações de apoio para o erguimento dos povos e populações esmagados por injustiças históricas do Estado. Surgiram associações e comissões de apoio. Tive oportunidade de participar da criação, em Porto Alegre da ANAI-Associação Nacional de Apoio ao Índio, da CPI-SP- Comissão Pró-Indio de São Paulo, do GREQUI- Grupo da Questão Indígena em Belo Horizonte e do Grupo Kukuru de Apoio ao Índio, em Manaus. No seguimento desses organismos surgiram outros como o MST-Movimento dos Trabalhadores sem Terra. E, se as populações indígena, quilombola e do pequeno agricultor estão aí hoje, vigorosos e organizados, com boa parte de suas terras reconquistadas, voltando a espalhar as suas “sementes divinas ocultas”, devem muito a todo este mutirão de pessoas e organizações.

São apenas alguns lampejos da memória de minhas andanças pelo país. Conheci paróquias que irradiaram esta vida nova e agitaram para além de seus limites. Ocorrem-me, neste momento, exemplos como a paróquia dos padres Claretianos de Goiânia, São José, na Asa Norte de Brasília, (que acolheu a sede do CIMI na mira da Ditadura e escondeu o padre francês, Francisco Gentel, missionário entre agricultores injustiçados pelo agronegócio no Araguaia, perseguido e afinal expulso do país pela mesma Ditadura,). Pimenta Bueno/RO, Itamarati, no médio Juruá/AM e muitas outras. Lembro ainda da agitação em estruturas maiores. No nível da CNBB, Dioceses inteiras se tornaram igrejas irmãs de outras necessitadas ou se transformaram, como a Diocese de Goiás/GO e de São Félix do Araguaia/MT, de Rio Branco/AC e Itacoatiara/AM, de Santarém/PA e Crateús/CE, de Recife/PE e João Pessoa/PB, de Linz/SP e Volta Redonda/SP, de Nova Iguaçu/RJ e Chapecó/SC, São Bernardo do Campo e São Paulo, igrejas que encontraram o seu lugar de missão, abrindo suas portas aos injustiçados do campo, da cidade e aos operários e políticos perseguidos. Conheci padres, irmãs e leig@s e entidades em diferentes partes do país e do mundo que caminharam com estas iniciativas missionárias. Foi o caso das Comissões de Justiça e Paz, dos seminaristas dominicanos que adentraram na transformação da política ditatorial, das Irmãzinhas de Jesus, junto aos Tapirapé e dos jesuítas da Prelazia de Diamantino/MT que acabaram com a doutrinação e a estrutura de internato indígena, para se encarnarem na realidade das aldeias. Muitos padres, irmãs e leig@s, em diferentes partes do país, Porto Alegre/RS e Caxias do Sul/RS, Curitiba/PR e Palmas/PR..., apoiando as iniciativas missionarias. Seminaristas, interrompendo os seus estudos, devido ao fechamento das 
instituições ante o clamor dos excluídos e integrando organizações missionárias onde pudiam se encarnar melhor na realidade das populações oprimidas, derramando o “vinho novo” do Concílio, em “odres novos” e contribuindo decisivamente para o reerguimento dessa gente país afora. 

Acompanhei de perto o surgimento de outras iniciativas, no campo e nas cidades, como a d@s médic@s do Hospital Pio X de Ceres/GO que transformaram a estrutura de hospital, ampliando o olhar e o raio de ação, treinando agentes de saúde para a Amazônia. Conheci muitos jornalistas que 
arriscaram as suas vidas, teimosamente, diariamente, conquistando, a duras penas e com risco do emprego, espaços em jornais conservadores dando notícias de índios, de pobres e de perseguidos pelo esquema repressor da Ditadura. Tudo isto, sem querer ignorar a agitação e iniciativas semelhantes surgidas em outros países do mundo.

Hoje, infelizmente, para a maioria d@s católic@s, o Concílio permanece letra morta. A maioria das paróquias caminha paralela, como se o Concílio não tivesse existido. Será porque @s paroquian@s nunca tiveram acesso ao seu conteúdo, ou porque se viciaram na rotina de pastorais sacramentalistas e financeiras, perdendo a perspectiva missionária? Ou será porque as casas de formação de padres e irmãs esqueceram o Concílio? O fato é que muitas 
paróquias não anunciam a Boa Nova para os excluídos da paróquia e do mundo. A Missão é vista apenas como pregação da palavra ou da doutrina bíblica, não como anúncio da Boa Nova da libertação. Anúncio que inicia pelos mais pobres, lá onde a Má-Nova se evidência mais e onde também se encontram escondidas as raízes e as sementes da Boa Notícia da libertação e os instrumentos da Boa-Nova das mudanças estruturais para o bem viver da humanidade. A liturgia volta aos trajes ultramarinos e aos ritos individualistas, ao invés de se atualizar com a riqueza viva das praticas dos povos regionais. 

Aonde está a nossa paróquia? Não se encontra perdida no meio dos ricos, daqueles que contribuem com o maior volume financeiro na construção de obras materiais, pouco se importando se o dinheiro vem de algum opressor, dum agronegociante, depredador da biodiversidade que Deus semeou na terra, duma empresa mineradora, ou até dos cofres públicos, cujo destino deveriam ser iniciativas em prol do povo do município, do estado ou do país? Quais são os problemas que enfrentam as pessoas na paróquia, na Diocese e no mundo? Mas, principalmente, no interior da paróquia? Como amamos o próximo? A pergunta ecoa insistente e de acordo com o Papa Francisco hoje vem acrescida da pergunta: como está nossa irmã, a mãe-terra? A nossa “casa comum, comparada por São Francisco de Assis, ora a uma irmã com quem compartilhamos a existência, ora a uma mãe, que nos acolhe em seus braços”.(Laudado Si) A missão prioritária do padre, da irmã, do pastor e do bispo, não deveria ser como a de Paulo: andar no meio das comunidades, animando os fiéis a encontrarem o seu lugar no processo de acolhimento de todos nesta “casa comum”? Onde está a Boa-Semente? A Boa-Notícia? Durante os 29 anos da sua existência a nossa paroquia dos Santos Mártires e Nossa Senhora Aparecida cresceu muito em obras, prédios, mas e em ações missionárias? Em seu percurso perdeu até o seu principal eixo missionário: os “Santos Mártires”. E Nossa Senhora que após a morte de seu Filho “surgia” nas comunidades como a “Aparecida”, consolando os aflitos, os sobreviventes dos mártires, deve-se sentir abandonada, refém como continua o povo Waimiri-Atroari de tantos mártires recentes: o martírio de mais de 2.000 pessoas.

O Ecumenismo entre os cristãos também é um amplo campo missionário aberto em nossa paróquia. Segundo o Concílio o caminho que leva a desejada unidade dos cristãos, não pelos argumentos bíblicos, mas “...contribuir para a dignidade da pessoa humana, promover o bem da paz, aplicar o Evangelho na vida social, (...) aplicar qualquer gênero de remédios aos males de nossa época, tais como: a fome e as calamidades...” (Ecumenismo 12). 

Sei que há pastorais missionárias funcionando, como a “pastoral da visitação” e a “pastoral da criança”, que precisam e recebem constante incentivo, também dos recursos financeiros paroquiais. Ajudar a tod@s @s paroquian@s a acharem a sua vocação missionária deve ser a preocupação prioritária. 

Foi encarnado na realidade do povo mais oprimido e excluído desta paróquia, os Kiña ou Waimiri-Atroari que encontrei, com minha esposa e família as fontes ou “sementes de Deus ocultas”, todo um sistema de valores sociais e religiosos como: a comunidade, a solidariedade, a partilha dos bens da terra, o encontro diário, o mutirão no trabalho, a segurança na terra, na família e na comunidade. Uma generosidade que sempre encontra algo (fruta, carne moqueada ou beiju) para oferecer e alegrar os visitantes, mesmo em meio à pobreza imposta pela interferência do modelo egoísta invasor. Gente que pratica um sistema de educação libertador, sem discriminação de pessoas, que cultiva o gênio ou dom de cada um, fazendo-os conhecerem e “dominarem” a natureza no seu verdadeiro sentido e não apenas pelo que ela representa de valor econômico ou comercial. A natureza respeitada em sua totalidade. Fontes de sabedoria oferecidas a tod@s para que dela tod@s se saciem plenamente.

Hoje surgem problemas e necessidades que exigem a criação de “novos odres”. O Planeta está sendo tomado por cânceres de diferentes espécies: o cimento, o asfalto e o próprio Estado que não responde às exigências da humanidade, clamando por um novo paradigma de organização dos povos. Para isto exigem-se novas organizações que preparem pessoas que a partir das “sementes do Verbo", colhidas ao longo da História da Igreja missionária, recente e passada, criem novos modelos que façam voltar a esperança e o bem-viver à humanidade.

“Colher, com alegria e respeito, as sementes do Verbo ocultas nos povos” (Ad Gentes 11). Reviver a economia da Amazônia, hoje invisível, a riqueza escondida nos povos oprimidos pela “crematística”,(citando Aristóteles), este sistema capitalista vigente que tudo queima e destrói. O Planeta carece de estruturas novas que criem pessoas novas, com coragem de propor modelos ou paradigmas alternativos ao caos atual instalado pelo Estado capitalista.

A paróquia precisa ser abrigo e lar destas novas experiências, destes “odres novos” que possam acolher sempre de novo o “vinho novo”, semeado por Deus com abundância nos corações jovens de cada época.


Casa da Cultura do Urubuí, 25 de outubro de 2016,
Egydio Schwade

quinta-feira, 31 de maio de 2018

VAMOS INVESTIR NO PARTIDO DOS TRABALHADORES - I


Companheiros(as) do Partido dos Trabalhadores,
Os recentes acontecimentos no Brasil nos demonstram que os governos do PT, apesar de seus erros, abalaram o poder político da Casa Grande que desde 1500 domina o povo brasileiro. Mas não podemos nos iludir. A situação interna do nosso partido não está boa. Necessita de uma autocritica e de mudanças. Tenho a convicção de que a situação interna não está boa principalmente por conta dos erros e desvios e das decisões autoritárias da corrente dominante, atrás da sua ânsia de poder. Para manter sua hegemonia, dentro do partido, fez alianças com a direita, desprezando a opinião dos(as) companheiros(as). E por conta disso não pode realizar o programa do PT: Reforma Agrária, Fome Zero, politica a favor das classes historicamente oprimidas: índios, quilombolas, combate aos depredadores da natureza... Acho que esses anseios dos que participaram desde a sua origem da caminhada petista precisam ser conhecidos e a partir daí chegarmos a um entendimento, unindo as correntes do PT e das esquerdas. Muitas vezes tive a tentação de abandonar o partido, como tantos excelentes companheiros o fizeram que hoje fazem enorme falta aqui no Norte. Aloysio Nogueira, Osvaldo Coelho, Marcus Barros, Edimilson, para citar apenas alguns que nos deixaram por conta desses desvios. Tambem passei por esta vontade de deixar o PT. O que me fez ficar foi a convicção de que organizar um partido como o do PT foi organizado, dificilmente se fará de novo. Então melhor ou mais conveniente é lutar dentro para superar os desvios com sinceridade e dureza.
Como participante desde a sua criação, aqui no Amazonas, vou falar aqui de minha participação e das dificuldades que vivo no PT. Tenho tido quase toda a minha educação na Igreja, instituição onde prevalece a alienação e a submissão ao Estado. Mas a partir do meu curso de Filosofia, em 1962, com o Concilio Vaticano II em curso, apontando para uma nova definição da Igreja, a Igreja como Povo, começou a crescer dentro de mim a convicção que ao invés de seguir pelo caminho da universidade, uma instituição também alienante e doutrinadora, preparando gente para manter o sofisticado esquema da Casa Grande, fui trabalhar no Noroeste de Mato Grosso com os indígenas.
Iniciei o meu trabalho indigenista no Internato dos jesuítas em Utiariti que não seguia outro método que o do Estado, da Casa Grande. Tanto assim que durante o ano que ali vivi, recebi a visita do Superintendente Regional do SPI-Serviço de Proteção aos Indios de Cuiabá, o qual gostou do meu trabalho ao ponto de trazer um grupo de Xavantes e Bororos dos postos do SPI para estudarem comigo durante aquele ano. O objetivo do SPI era a integração do índio ao modelo instalado no país desde 1500. Mas, acompanhando as novas orientações do Concilio Vaticano II (1962-65), com o conceito de Igreja como sendo o Povo de Deus, senti a necessidade de mudanças radicais nas missões católicas, ou seja, a urgente necessidade de acabar com todo o tipo de catequese, não apenas a religiosa, mas também a econômica e integracionista. Foi o que me levou a participar da organização de novos métodos e novos instrumentos de orientação dos trabalhos indigenistas. Já em fevereiro de 1969 criei a OPAN-Operação Amazônia Nativa, primeira ONG indigenista, hoje com sede em Cuiabá, cujos membros tem como primeiro objetivo “encarnar-se na realidade indígena”, sem doutrinação alguma. Em seguida, 1972, participei da fundação do CIMI-Conselho Indigenista Missionário, do qual fui Secretario Executivo até 1980. Este segue pelo mesmo caminho, acabando com a doutrinação dos indígenas, mas apoiando à reconquista de sua terra, a retomada da sua cultura e de sua autodeterminação. Adiante, em 1975, participei tambem da criação da CPT-Comissão Pastoral da Terra, uma força em expansão no meio dos pequenos agricultores injustiçados e perseguidos pelo latifúndio. Ainda, como Secretário do CIMI, colaborei na criação de outros instrumentos de luta indigenista, como da ANAI-Associação Nacional de Apoio ao Indio/RS, da Comissão Pró-Indio/SP, do Grupo da Questão Indigena/MG e do Grupo Kukuru de Apoio ao Indio/AM. Todas estas entidades são ou foram instrumentos de luta dos trabalhadores e dos povos oprimidos do interior e todas se envolveram na formação política do povo, um dos meios de que nos valemos para levar a massa trabalhadora do campo a juntar força política na criação e desenvolvimento do PT.
Em 1980 vim com a família morar no Amazonas, inicialmente em Itacoatiara e depois em Presidente Figueiredo, visando um trabalho junto ao povo Waimiri-Atroari. Impedido pela Ditadura Militar de entrar nas áreas indígenas do país, devido às minhas frequentes críticas à Politica Indigenista do Governo, quando Secretário do CIMI, fomos morar em Itacoatiara, fora da Reserva. Ali participamos da luta politica popular das comunidades não-indígenas: Sindicato dos Trabalhadores Rurais e CEBs-Comunidades Eclesiais de Base e mantendo encontros clandestinos com aldeias Waimiri-Atroari.  .
Quase simultaneamente à nossa chegada a Itacoatiara, começou a fervilhar o início do PT a nível nacional, estadual e municipal. Minha esposa e eu participamos intensamente. Muitas reuniões de articulação se realizaram em nossa casinha de madeira, no bairro Iraci. Nossa participação foi reconhecida a nível estadual a ponto de uma comissão, à frente Osvaldo Coelho, candidato a Governador, me convidar, em 1982, para ser o candidato a vice-governador. Recusei, pois era apenas recém chegado. Mas junto com José Ribamar Bessa e Marcio Souza colaborei na elaboração do 1º. Programa de Politica Indigenista para o PT Nacional, integralmente aprovado.
Sempre nos mantivemos ligados ao movimento popular do interior que aqui na Amazônia tinha como principais expressões os movimentos ligados à Igreja: CEBs, CPT, CIMI e OPAN que foram e continuam sendo instrumentos de luta política, com sua estratégia própria, distinta da usada pelos tradicionais partidos políticos de esquerda. Esta diversidade se desenvolveu a partir do governo Jango, com o Movimento de Educação de Base-MEB, atrás do método Paulo Freire. Um método que não foi tomada em conta e respeitado pelos dirigentes urbanos majoritários do PT, tendentes, em sua maioria, aos velhos modelos políticos de esquerda, pouco democráticos e trazidos de fora que foram se impondo e abafando a organização do PT no interior, em especial, aqui na Amazonia.
Concretamente, ainda sobre a nossa caminha aqui. Com a queda da Ditadura Militar alguns dirigentes da FUNAI tentaram mudar a política indigenista do órgão, iniciando com os Waimiri-Atroari. Ao invés de conflitar com as entidades da sociedade civil que apoiavam a luta dos índios, como o fazia a Ditadura Militar, propuseram criar grupos de trabalho integrando nelas pessoas desses órgãos. No caso Waimiri-Atroari, já no segundo mês após o fim da Ditadura, fomos chamados a integrar um Grupo de Trabalho-GT encarregado de fazer um amplo levantamento da situação desses índios para propor uma reorientação do trabalho. O GT integrou: FUNAI, CIMI, OPAN e Universidades, entidades que já acompanhavam a situação desse povo. Infelizmente o grupo da FUNAI integrou dois filhotes da Ditadura, Sebastião Amâncio e José porfírio de Carvalho, o 1º. Um repressor declalrado dos índios e o 2º. um perseguidor da OPAN e do CIMI durante o  Regime Militar.
Após meio ano de atividades na área, em uma reunião realizada no início de julho/1985, na aldeia Yawará, o GT apresentou a sua proposta de trabalho e os índios a sua urgência maior: Queriam ser alfabetizados. Nos oferecemos para isso e já no início de setembro de 1985, com autorização do Presidente da FUNAI, iniciamos o trabalho. A aldeia ficou deslumbrada quando constataram que a sua língua materna podia ser escrita. Todos participavam das aulas, inclusive os bebês. E contagiou outras aldeias, como Xeri e aldeias do Baixo Camanaú que enviaram representantes para a escola na aldeia Yawara. Conduzido no método Paulo Freire o processo de alfabetização trouxe à tona a situação e história recente do povo Waimiri-Atroari. E já em março do ano seguinte, 1986, os lideres das aldeias Yawara e Xeri que haviam sido convidados por dirigentes da FUNAI para uma reunião em Brasília entregaram um documento ao Presidente da República, José Sarney, reclamando da ação da mineradora Paranapanema que vinha invadindo a sua área.
A partir daquele mês começou e a ser demolido o programa organizado pelo GT. A interferência começou pela repressão ao nosso trabalho de alfabetização. Sarney, figura central da Ditadura Militar, já havia então substituído o presidente da FUNAI, Gerson Alves por Romero Jucá, individuo alheio aos interesses indígenas, mas a serviço dos interesses empresas muiltinacionais. Atendendo aos reclamos das empresas Paranapanema e Eletronorte, tendo como assessor imediato, Porfírio de Carvalho e o Superintendente da FUNAI no Amazonas, Sebastião Amâncio, ambos velhas raposas da Ditadura Militar, interromperam no nosso trabalho de alfabetização,  contra o parecer técnico do linguista da FUNAI, enviado por Jucá para fiscalizar, durante um mês, o nosso trabalho que em seu relatório conclusivo, recomendava:
“A experiência que está sendo levada avante no PV Terraplanagem (Aldeia Yawará) deverá ser estendida aos outros grupos Atroaris (Xeri, Baixo e Alto Alalaú) e Waimiris se possível sob orientação dos professores da escola Yauará, (Egydio e Doroti) porque são pessoas comprometidas vitalmente com a causa desse povo. Cumpre-me enfatizar que não percebi qualquer forma de proselitismo religioso ou interferência cultural por parte dos professores. Estão, sim, empenhados em recuperar e valorizar os costumes, crenças e festas típicas desse povo através de sua ação pedagógica. O processo pedagógico demanda um tempo prolongado, assim sendo, é necessário que os atuais professores do PV Terraplanagem sejam apoiados e que se se necessitar de um convenio com o CIMI para garantir sua presença, que o mesmo seja assinado. Assim a FUNAI estará prestando um serviço à causa dos Waimiri-Atroari.”
De volta ao município de Presidente Figueiredo, sofremos de imediato uma campanha de difamação, conduzida pelo jornal O ESTADO DE SÃO PAULO e financiado pela Mineração Paranapanema, onde entre outras calunias o Jornal nos apresentou como estrangeiros a serviço de mineradoras do Sul da Ásia.
Foi então que de 15 em 15 dias nos dirigimos a alguma família de pequuenos agricultores do interior do município, onde durante uma ano, nos reuníamos com a vizinhança para discutir a política brasileira e mundial, com esta classe a mais abandonada da região, em vista da organização do Partido dos Trabalhadores, que efetivamente nasceu no municipio no dia 4 de outubro de 1987, em reunião realizada na casa de um agricultor da estrada de Balbina, Km 41. Na mesma estrada poucos meses depois os 56 fundadores do PT de Presidente Figueiredo, foram as únicas “autoridades” que tiveram coragem de receber, acompanhadas de suas famílias, aquele “comunista barbudo”, Luiz Inácio Lula da Silva, então candidato, já no segundo turno, das eleições presidenciais de 1989.
Casa da Cultura do Urubuí, 27 de maio de 2018,
Egydio Schwade.

Ato em Presidente Figueiredo em apoio à candidatura de Lula para a presidência.

E VIVA LULA LIVRE PRESIDENTE!