2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas! Que vivam Bem!

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Como iniciou a alfabetização na língua dos Kinã-Waimiri-atroari

Companheiras e companheiros,

Com esta publicação abaixo retomamos hoje as nossas publicações em nosso blog. Escolhemos vários assuntos e atividades nas quais estivemos e continuamos envolvidos. Iniciamos com o tema da alfabetização que realizamos na aldeia Yawara dos índios Waimiri-Atroari ou Kiña entre 1985 e 1986.


Doroti Alice e eu dedicamos a nossa existência à promoção da vida humana, em especial, às populações mais abandonadas e ultimamente também à promoção da fauna e da vida vegetal. Muitas pessoas amigas vem insistindo para que escrevamos essa nossa experiência. 

Uma boa parte de nossas vidas, Doroti e eu, não andamos juntos, embora mesmo antes do casamento pensássemos juntos. Diante disso, prefiro usar aqui de forma muito livre a primeira pessoa, mesmo que esta ora se refira a Egydio ora a Doroti. Conforme se referem carinhosamente os professores da Unicamp, Juracilda Veiga e Wilmar D`Angelis na dedicatória do livro “Desafios atuais da Educação Escolar Indígena”: “A Egydio Schwade que nos falou como um ancião indígena, a partir de sua experiência de 70 anos completados em 7 de julho de 2005 (durante o Encontro que gerou essa publicação), como partícipe e testemunha ocular da história do Brasil e da história indígena da segunda metade do séc. XX e do início do novo século. Por sua coragem em teimar, sempre, que a esperança vem da terra, vem do povo, vem daqueles dos quais ‘nada se espera’. E a Doroti, sua companheira, que com ele compõe um ser humano pleno.”

Em 1979 recebemos convite de Dom Jorge Marskell, Bispo de Itacoatiara para morar na Prelazia com a finalidade de apoiar o povo Waimiri-Atroari ou Kiña, como se autodenomina, razão porque os chamaremos frequentemente por esse nome. Desde 1975, pesava sobre mim (Egydio) uma proibição do governo militar de penetrar em qualquer área indígena do país. Por isso, iniciamos o nosso trabalho com cautela, incerindo-nos no movimento popular da Prelazia de Itacoatiara. Ao lado desse trabalho, organizamos um arquivo sobre a área Kiña, no que tivemos o auxílio de várias instituições, museus, arquivos e pessoas amigas. O arquivo desembocou em 1992 na criação da Casa da Cultura do Urubuí-CACUÍ e conta hoje com mais de três mil peças, entre artigos, mapas, relatórios, livros, etc. Simultanemente fizemos um levantamento da região para avaliar a situação dos Kiña e da população envolvente. De 1980 a 1985 procuramos transmitir dados do arquivo e de nossa experiência indigenista à população do Baixo Amazonas. Assim esta conheceu a história do povo Kiña e a de outros povos indígenas da região, seus ancestrais, em sua maioria extintos. Desta forma, colaboramos na mudança da mentalidade anti-indigena radicada na população regional. A simpatia pelos índios, em especial dos Waimiri-Atroari, pela sua histórica de resistência começou a se manifestar logo na Prelazia de Itacoatiara.

A partir de 1982, tomamos os primeiros contatos com as aldeias Kiña, através da BR-174. Contatos clandestinos, esporádicos e breves, mas suficientes para nos fazermos conhecidos e aceitos. Inicios de 1985, começo da Nova República, fomos convidados por um dirigente da FUNAI a participar de um Grupo de Estudos e Trabalho(GET) de 11 pessoas, criado pelo então Presidente da FUNAI, Gerson da Silva Alves, visando mudar a política indigenista na área Waimiri-Atroari até então conduzida de forma desastrosa pela FUNAI. Na última reunião do GT, realizada na aldeia Yawara, Km. 185 da BR-174/Sul de Roraima, recebemos o pedido explícito dos índios e o incentivo do GT, para iniciar as aulas. Aceitamos. E a autorização do Presidente da FUNAI ainda nos credenciou não só a lecionar, mas também a realizar pesquisa demográfica e etnológica.

Transferimo-nos para a aldeia Yawará com os nossos filhos, Marcos Ajuri 5 anos, Mauricio Adu 4 anos, e Mayá Regina 2 anos, no dia 4 de setembro de 1985, dispostos a efetivar a primeira experiência de alfabetização na língua Kiñá, ou kiñayara.  
O prédio da escola fora construído pelos índios com o apoio da Mineração Taboca S/A, Paranapanema e chamava-se “General Euclides Figueiredo”, uma homenagem da FUNAI ao irmão do ditador presidente da República, Gal. Joao Batista que assinou o decreto de desmembramento da parte Leste da reserva Waimiri-Atroari. Decreto que favoreceu a mineradora em prejuízo dos índios. Euclides Figueiredo era então o Comandante Militar da Amazônia. Da inauguração da Escola participaram, além do homenageado, Gal. Euclides Figueiredo, o presidente da FUNAI, Cel. Paulo Moreira Leal que preparou a minuta do decreto de redução da reserva. 

A escola funcionou, durante todo o período, de 4 de setembro de 1985 a 4 de dezembro de 1986, com plena satisfação dos índios e presença total da aldeia, incluindo os bebês. Para o início dos trabalhos tivemos a assessoria da linguista Ruth Monserat, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e em seguida de Márcio Silva da UNICAMP-Universidade de Campinas. Além disso, a experiência foi acompanhada, fiscalizada e recomendada pelo único lingüista que a FUNAI então possuía: Nelmo Roque Scher, como refere em conclusão no seu relatório: “A experiência que está sendo levada avante no PV Terraplanagem deverá ser estendida aos outros grupos Atroaris (Xeri, Baixo e Alto Alalaú) e Waimiris se possível sob orientação dos professores da escola Yauará, porque são pessoas comprometidas vitalmente com a causa desse povo. Cumpre-me enfatizar que não percebi qualquer forma de proselitismo religioso ou interferência cultural por parte dos professores. Estão, sim, empenhados em recuperar e valorizar os costumes, crenças e festas típicas desse povo através de sua ação pedagógica. O processo pedagógico demanda um tempo prolongado, assim sendo, é necessário que os atuais professores do PV Terraplanagem sejam apoiados e que se se necessitar de um convênio com o CIMI para garantir sua presença, que o mesmo seja assinado. Assim a FUNAI estará prestando um serviço a causa dos Waimiri-Atroari.” 

Em poucos meses os Kiña criaram a sua ortografia e começaram a elaborar textos em sua língua. Textos sobre sua geografia política, sobre a natureza, festas, vida diária e também sobre a sua história recente e violência sofrida com a passagem da BR-174 pelo seu território. Paranapanema, FUNAI, Exército e Eletronorte, invasores da sua terra, se sentiram ameaçados pela revelação dos índios. E a nossa presença se tornou incômoda. Por isso, em dezembro de 1986 o Superintendente da FUNAI, Sr. Sebastião Amâncio da Costa, por determinação do Presidente da Funai, Romero Jucá, nos retirou compulsoriamente da área e nos substituiu por um casal de norte-americanos da MEVA – Missão Evangélica da Amazônia, entidade, repetidas vezes, denunciada por funcionários da FUNAI pela sua interferência na cultura dos índios Wai-Wai/RR. Além disso, o casal foi introduzido na área através de autorização do Superintendente Regional, fora dos trâmites normais do órgão, ou seja, pela Direção do Museu do Índio/RJ. 

E a Mineradora Paranapanema não contente com a nossa expulsão, financiou uma campanha nacional contra nós e o CIMI.



Veiga, Juracilda, Rocha Ferreira, Maria Beatriz – Desafios atuais da Educação Escolar Indígena – Campinas, 2005.

Alves, Gerson da Silva (Presidente da FUNAI). Portaria No. 1901 de 12 de julho de 1985.

Alves, Gerson da Silva – Ofício Nr. 014/1985.
 
O Estado de São Paulo – 09 a 15 de agosto de 1987.


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Nota da Frente Brasil Popular: pela liberdade de Lula.

Após meses de uma campanha alimentada pelas corporações de mídia do País junto com um consórcio que une setores do capital estrangeiro ao nacional, segmento do setor judiciário e do parlamento, o Supremo Tribunal Federal, resolveu mais uma vez passar por cima da Constituição Federal de 1988.

O sistema de direita que se apossou do País, com medo de Lula ganhar a eleição, decidiu que a principal liderança nacional não terá os seus direitos garantidos. Essa decisão tem impacto em todo espectro jurídico: hoje é Lula que não tem direito de provar sua inocência, amanhã é o conjunto dos brasileiros.

Ao negar o princípio da presunção da inocência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Supremo assumiu descaradamente que sempre fez parte do golpe iniciado com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

A tentativa do STF com a resultante da decisão é deixar o povo brasileiro fora dos rumos que o País deve seguir nesse momento de encruzilhada política. A solução da crise institucional, política e econômica que hoje tira o sono de milhões de brasileiros deve sair das urnas. É o povo que deve escolher quem vai governar e qual programa será a luz que a Nação deve perseguir.

Mais uma vez o poder judiciário pleteia o protagonismo político e desequilibra a relação entre os poderes. Na verdade, cumprem papel de servidores ativos do neocolonialismo internacional que quer sugar o Brasil em suas múltiplas dimensões, seus recursos naturais, as estatais, as relações de trabalho e fazer com que o papel da Nação seja diminuído na geopolítica mundial sendo mais uma vez apenas colônia.

É preciso expressar a resistência nas ruas e nas redes em defesa da liberdade de Lula, por eleições livres e democráticas e contra a perseguição aos movimentos sociais e as lideranças progressistas que ousam discordar e lutar para que o Brasil não caia do abismo da repressão e autoritarismo.

O Brasil não ficará de joelhos perante a qualquer chantagem, seja ela de general ou de Ministro. Esse consórcio já dirigiu o País e lutamos décadas para reconquistar a democracia. Com sangue, suor, trabalho e muita luta, o povo brasileiro estará entrincheirado em defesa de Nação forte, soberana, desenvolvimento e socialmente justa.

Vamos às ruas, às praças, organizando o povo para garantir o presente e o futuro do Brasil.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

É fácil identificar quem se beneficia com morte de Teori

A queda do avião Hawker Beechcraft, modelo C90GT, que pertencia ao Grupo Emiliano , e que acabou resultando na morte de cinco pessoas, incluindo o seu proprietário, o empresário Carlos Alberto Fernandes Figueira, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, nas águas oceânicas de Paraty é mais reveladora do que se imagina.

O comentário é de Marcos Pedlowski, professor associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ. Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em "Environmental Design and Planning" pela Virginia Tech, publicado no seu blog, 20-01-2017 e replicado na página do Instituto Humanitas Unisinos.


Mas antes de explorar melhor as revelações que a queda da aeronave nos propicia, quero refletir sobre a surpresa que é termos pessoas ricas ou famosas envolvidas em acidentes com pequenas aeronaves. É que, convenhamos, esse tipo de veículo é para quem pode pagar ou desfrutar da amizade de pessoas mais afortunadas. Então, realmente, não sei qual é a surpresa com o fato de que, novamente, pessoas ricas e poderosas pereceram num acidente aéreo.

Mas vamos às revelações trazidas por esse trágico acidente. A primeira é que veio à tona a forte amizade entre um empresário que possuía entre suas propriedades hotéis voltados para o consumo de alto luxo e um ministro do STF que, coincidentemente, estava à frente de homologar delações no âmbito da chamada Operação Lava Jato. Esta não é ao meu ver uma revelação qualquer. É que, mais uma vez, fica explícito que a alta burocracia estatal brasileira vive muito próxima dos ricos e ultra ricos. Daí que esperar ou alimentar a ilusão de que podemos ter uma justiça equânime beira a completa ingenuidade.

A segunda revelação é que o supostamente austero Teori Zavascki não via nenhum problema em ter como amigo uma pessoa que não só está respondendo por crimes ambientais no STF (Aqui!), como também era sócio do BTG Pactual, e tinha pelo menos um dos seus hotéis envolvidos como local de recebimento de propinas que fazem parte das apurações feitas pela mesma operação Lava Jato da qual ele era o relator (Aqui! e Aqui!). Pode-se até dizer que para Zavascki valia o princípio do “amigos, amigos, sentenças à parte”, mas não há como não fica com a pulga atrás da orelha em relação à sua suposta austeridade e isenção técnica.

A terceira revelação que surge em minha opinião é de que na morte todos tendem a ser santificados, especialmente se for um ministro do STF que colaborou para o impedimento de uma presidente eleita para que um governo antipopular e antinacional pudesse tomar o poder sem ser eleito. Daí que qualquer “teoria da conspiração” para explicar a queda do Hawker Beechcraft em Paraty vai estar apenas contribuindo para que o papel cumprido por Zavascki na concretização do golpe de estado “light” cometido contra Dilma Rousseff não seja corretamente analisado. Não custar lembrar que Zavascki segurou por tempo suficiente o processo de remoção de Eduardo Cunha da presidência da Câmara de Deputados para que o processo de impeachment fosse votado.

Mas não se enganem, com ou sem a presença de Teori Zavascki o desfecho da operação Lava Jato não será mudado. É que toda essa operação já cumpriu o seu papel que foi retirar Dilma Rousseff do poder e facilitar o aumento do controle das corporações multinacionais sobre a economia brasileira, especialmente na área da exploração do petróleo. Em outras palavras,

Zavascki já havia cumprido o papel que lhe cabia nessa trágica fase da nossa história.

E nós que continuaremos por aqui é que teremos de conviver com as consequências deste modelo social onde para poucos alguns sobram todas as benesses geradas pelas riquezas nacionais, enquanto a maioria precisa se preocupar em saber se terá um teto sobre suas cabeças nos próximos dias.

Finalmente, agora me respondam, qual é mesmo o padrão de ética que perdura no STF? É que primeiro tivemos Gilmar Mendes acompanhando o presidente “de facto” numa viagem a Portugal, usando dinheiro da viúva para ir a um enterro onde ele nem apareceu. Agora, temos um ministro do STF voando nas asas de um jatinho de propriedade de réu de uma operação policial da qual ele era relator. Como podem os mais pobres ter alguma confiança de que a justiça brasileira serve a todos os cidadãos de forma equânime? A resposta é simples: não podem.