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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Vida e Histórias de Doroti Schwade: Texto 2

Estamos publicando semanalmente neste blog textos, documentos e depoimentos que ajudam a lembrar e divulgar a história de Doroti. Esta semana publicamos texto escrito por Luzia Müller, irmã de Doroti, contando episódios da sua infância. Gostaríamos de convidar novamente a todos os amigos que conviveram com ela e se sintam a vontade e felizes em registrar algo, que nos enviem seus textos.Pretendemos juntar e sistematizar posteriormente todo o material que conseguirmos sobre ela, mas não como uma história morta e sim como uma história viva, que contenha as emoções, sensações e sentimentos de todos. Os textos mais apropriados para o blog também vão ser publicados neste espaço que inauguramos hoje. Vosso material pode ser enviado para egydio.schwade@gmail.com ou mauadu@gmail.com.

Alguns episódios da infância da Doroti

Algo que tenho até hoje na lembrança é a visão de nosso pai com uma malinha na mão e Doroti no colo. Era uma noite escura de inverno. Nossa irmã Regina mal havia nascido e minha irmãzinha Doroti, que tinha por volta de dois aninhos e alguns meses, estava muito doente. Nossa mãe não podia acompanhá-la ao hospital, por isso meu pai foi levá-la de ônibus até o Hospital Sta. Isabel. Lá, se descobriu que ela estava com difteria e, se não ficasse internada, poderia morrer. Nosso pai ficou com ela aquela noite e, ao amanhecer, foi trabalhar. Não lembro bem, mas pe

nso que ficou sozinha uma semana internada. Mas, como Doroti, desde a mais tenra idade, sempre reverteu as situações mais adversas, fiquei sabendo que todo o hospital estava mobilizado com aquela garotinha que conquistava a todos com o seu olhar firme e acolhedor. Todos queriam fazer o melhor pra aquela garotinha tão corajosa, apesar de tão doente e longe de qualquer membro de sua família. Todos, médicos, enfermeiros e auxiliares a adotaram e lhe deram o melhor tratamento.

Outro acontecimento, na mais tenra idade de Doroti, quando devia ter por volta de sete anos. Quando saímos da escola isolada e fomos para o Colégio Estadual Luiz Delfino, ela e eu ficamos em salas diferentes. Ela, como era muito inteligente, era uma das primeiras a concluir os exercícios que a D. Clélia passava na lousa. Como Doroti estava ociosa e já havia terminado tudo o que lhe tinha pedido a professora, começou a fazer um ensaio, escrevendo de olhos fechados, a mesma lição que já estava pronta. A professora, não teve dúvidas: nem sequer foi olhar o caderno de Doroti e, com uma grande régua de madeira, bateu nas mãozinhas frágeis daquela aluninha que estava tentando ocupar-se, já que estava impaciente com a demora dos outros colegas.

Infelizmente, eram os tempos da palmatória. Doroti, que tinha uma letra primorosa, desde esse acontecimento infeliz, passou a escrever com garatujas inintelegíveis até sua morte. Eu, hoje, enquanto psicóloga, concluo que o trauma deve ter sido muito profundo para aquela alma sensível e gentil.

Luzia Müller

3 comentários:

  1. Meus queridos,
    obrigada por publicarem esses acontecimentos que ocupam minhas lembranças há quase 60 anos. Continuam me emocionando, chegando às lágimas.
    Beijos/Lu

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  2. Querido Maurício Adu!
    Quero te desejar muitas felicidades e anos de vida, neste dia de seu aniversário.
    Beijos/Lu

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  3. Mayá, querida:
    manda uma cópia dessa foto pra mim. Ela é muito linda e eu não tenho. Pode ser escaneada e vc manda por email.
    Obrigada/beijos/Lu

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