2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas! Que vivam Bem!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Relatório de Doroti Escrito em 29-11-1977 (Sobre os Jamamadi)

Vida e Hitória de Dorotí Schwade: Texto 11

Obs: Este texto foi trascrito a partir de rascunho manuscrito do relatório escrito por Dorotí em 1977. Tráta-se do relatório encaminhado ao amigo Beto a que faz referência referência o texto anterior desta série.


Relatório

Saímos de carona em “batelão” (canoa grande coberta e de motor). Pernoitamos no “barracão” e seguimos viagem de canoa a remo. Um dia a remo. Ia conosco um amazonense. Já aí soubemos que na maloca onde iríamos estava programada uma “festa” e muitos civilizados iam para lá.

Quando o igarapé se tornou intransitável devido às galharias e “paus” que fechavam o caminho encontramos uma “colocação”. Neste lugar já estavam “agasalhadas” uma família de mestiços e uma mulher com as filhas que iriam para a maloca para a festa. O Pedro ajudou a refazer o “tapiri” (era uma “colocação” abandonada) enquanto eu procurei me entrosar com as mulheres. Apenas açaí para matar a fome enquanto o “caboclo” foi caçar. Lá pelas dez da noite ele veio com uma paca e todos comemos. No dia seguinte de manha comemos novamente da carne da caça e levamos uma parte para viagem. Agora por “varadouro”. Éramos 8 pessoas adultas e três crianças pequenas. Andamos por dez horas apenas com meia hora parada. O assunto era a “festa”. Seria um ritual de iniciação (só que o povo não falava assim) e os comentários eram os mais negativos a respeito do ritual. Inclusive diziam para o padre que ele deveria impedir, pois era muito bárbaro. Combinamos, eu e o padre, de que não faríamos isto, ao contrario iríamos tentar neutralizar a influencia do “civilizado”. De fato isto foi necessário.

Quando chegamos na aldeia a comida estava escassa. Os homens e rapazes que tinham saúde (eram poucos é uma pequena aldeia) iam caçar e pescar. Voltaram à noite sem nada. Isto aconteceu por três dias. Passávamos à base de banana verde e açaí. Farinha e quando tinha um peixinho se fazia um panelão de caldo. O pessoal que nós tínhamos acompanhado até aí só reclamava. Éramos um peso para a aldeia. No quarto dia os caçadores não voltaram e no quinto, véspera da festa, chegaram com uma anta e com um caitetu. Neste dia chegaram mais “civilizados” e começaram a chegar os Jamamadi que moravam por perto. (5 horas de viagem). Nos dias que antecederam a festa a gente procurou valorizar o máximo possível a lingua e os costumes do índio. Isto eu e o padre. Os outros ao contrario constantemente “mangavam” deles. A situação era tão escabrosa que as mulheres Jamamadi por não saberem falar português, quando na presença do civilizado chegavam a se comunicar apenas com gestos.

Um velho da aldeia, percebendo que a gente não agia como o povo da região, sempre que podia vinha nos explicar as coisas e ensinar a língua. Ele também quase não falava português. Um dia ele simplesmente veio perto de nós explicou, auxiliado com gestos, o sol poente. Seu olhar tinha o brilho do sol e a tranqüilidade do poente...

Chegou o dia da festa, mais “civilizado” e mestiços chegaram trazendo cachaça. Um engradado de cachaça.

Às cinco da tarde iniciou o ritual. Seria um ritual de iniciação completando muitos meses de preparação. Quando a menina fica moça ela permanece reclusa e depois é feito este ritual e atualmente não mais embelezado pelas plumagens e chocalhos e colares e pinturas que adornavam a moça. Tudo teve que ser abandonado em função da “civilização”.

Iniciou-se com gestos. As mulheres que haviam se afastado da aldeia vinham em procissão trazendo a menina com roupas novas e com o rosto coberto. Uma de cada vez iniciava uma espécie de ladainha. As outras em seguida completavam e no terreiro os homens respondiam. Tudo cantado. Quando as vozes masculinas ressoavam eu tinha a impressão de estar ouvindo uma missa solene em latim. Não vou mais entrar em detalhes sobre o ritual, apenas dizer que foi até as 7 horas da manhã seguinte. No final a menina é colocada numa espécie de altar e é acoitada pelos homens mais velhos. São alguns minutos só, mas isto é considerado uma barbaridade sem limites pelo “civilizado” é claro. Até quase esta hora de vez em quando alguém dos civilizados vinha fazer para nós comentários pejorativos sobre o que estava acontecendo e pedindo que não permitíssemos o final do mesmo.

Durante a noite, por causa da cachaça dois Jamamadi quase se mataram. Eram jovens e não participavam do ritual por vergonha, estavam em algo superior, se embebedando com a cachaça do branco. A briga foi tão violenta que tiveram que interromper o ritual e envolveu os pais dos jovens. [Algo ilegível] sob o efeito do álcool. Por pouco não se mataram os dois primos que até aquela hora eram amigos.

Quem eram os “civilizados”? Gente paupérrima. Seringueiros, castanheiros, sorveiros, a maioria homens, com exceção daquela mulher e seus filhos e sobrinhos que vieram na mesma ocasião que nós. Um patrão branco que está “civilizando” uma família que, inclusive, mora afastado da aldeia e serve de exemplo para os mais “conservadores”.

Homens subjugados, derrotados, brancos e marginalizados. Gente que nunca vê um médico, um professor e que em termos culturais é nada em relação ao índio. Este “civilizado” acha bárbaro que ritual onde participa todo um povo marcando a passagem de uma menina para o “ser mulher”. Este “civilizado” não percebe que a cachaça e a doença, o complexo de inferioridade vem matando o índio. (Nesta aldeia constatamos caso de tuberculose e soubemos que eles sofreram em anos passados grande depopulação em conseqüência da epedemia). Para eles os índios estão se “civilizando”, pois alguns já possuem toca-disco com os discos do Texeirinha. Bebem cachaça, vestem roupa como nós, são sacramentalizados e cortam seringa e sorva, produzem para o Patrão. Já não usam mais os seus adornos, se envergonham da “gíria”, fala “ruim”. Já não moram mais em malocas como antigamente modificando suas casas. Já passam fome como ele o “civilizado”. Já morrem de gripe, tuberculose, sarampo. Já suas mulheres foram usadas pelo branco (constatamos também isto). Estão se civilizando. E aquele “branco” de lá ainda pode se sentir superior pois encontrou alguém que é escoria, é o último dos homens. Ele é superior, existe alguém que é ainda pior do que ele. O Índio, este que deve morrer.

Eu vivi a tensão daquele momento e também vi outras coisas em outras malocas com outros índios. Em Jurucuá (Lábrea) para onde agora estou indo para conviver com outro grupo de Jamamadi, de outubro do ano passado até abril deste, morreram 12 pessoas por causa do sarampo e da tuberculose num grupo de 200 pessoas, mas não importa eles estão se civilizando...

Meu Deus, isto é um pouquinho do que aconteceu e vem acontecendo neste Brasil que nasceu sob a cruz.

Perto deste município onde ocorreu isto narrei, há doze anos foi exterminada uma tribo porque resistiu ao invasor.

Não é possível evangelizar índios e brancos nesta Amazônia se não respeitamos a vida e a dignidade do homem. Que que adianta toda esta sacramentalização se a injustiça, a opressão faz parte do grande e do pequeno e cada um engole o menor? Que que adiantam as malarias e outras doenças que os padres ganharam e os riscos que correram se abençoaram uma situação de injustiça uma corrente que ligou a Europa, os Estados Unidos até o seringueiro e o índio. Uma corrente que se não mata atrofia física e moralmente o homem. Opressor e oprimido, oprimido opressor... Agora uma tribo “arredia” está tendo seu território invadido porque lá ainda é um dos poucos lugares que tem sorva.

Para tu ainda perceberes a situação de preconceito vou te contar o seguinte. De vez enquando por aí, quando me hospedo numa casa de padres eles ficam me olhando e lá pelas tantas me dizem: “Você tem sangue limpo, é branca mesmo!” Sabe eu tenho vontade de retrucar: “Não, eu tenho o sangue contaminado. Historicamente sujo. Faço parte de uma raça de opressores... Carrego um pecado histórico a ser revisado, avaliado e transformado.” Será que teremos coragem de, como Igreja, fazer de fato uma revisão crítica de nossos pecados históricos? Será que teremos coragem de a partir de uma encarnação de fato junto com o povo, tornados povo, escrever a nossa história de gente e não objetos de manipulação? Creio que sim...

Desculpe, não sei se consegui me fazer entender. Mergulhei de cabeça na vida do amazonense, mas não sei transmitir esta experiência. Também sê feliz e continue a ser “farol”.

Doroti

Nenhum comentário:

Postar um comentário