2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas! Que vivam Bem!

domingo, 7 de agosto de 2011

Vida e Histórias de Doroti Schwade: Texto 9

As Sementes de Doroti Müller Schwade* 


A indigenista, agroecologista e militante socioambiental Doroti Alice Mueller Schwade, com sua sensibilidade e determinação, é uma das grandes construtoras de conhecimento para a sustentabilidade da Amazônia. ‘A índia-branca’ Doroti, nasceu em Blumenau, SC, e veio para a Amazônia nos anos 70 como uma jovem e idealista para lutar pela emancipação dos povos indígenas. Posteriormente, casou-se com o também idealista indigenista Egydio Schwade e, juntos, semeiam alternativas para a soberania dos povos e para o respeito a todas as formas de vida da Amazônia.
As sementes de amor e de sustentabilidade de Doroti Mueller Schwade não são contaminadas com agrotóxicos, herbicidas, inseticidas, não são transgênicas e nem precisam ser semeadas com adubos químicos. As sementes de Doroti valorizam a vida, a soberania econômica e política dos povos, a força das mulheres e o meio ambiente e são regadas com a integração da sabedoria tradicional e popular e do conhecimento científico e muito amor.
Doroti transita com completo domínio entre o saber científico e o popular, sabe fazer uma inteligente integração entre a ciência libertadora e as práticas tradicionais dos povos da Amazônia e é uma incansável educadora e construtora participativa de conhecimentos para a sustentabilidade. Doroti é uma grande experimentadora agroecóloga compartilha seus conhecimentos com as comunidades amazônidas, com os movimentos sociais e com todos os órgãos de pesquisa, extensão e ensino que buscam a sustentabilidade. Sua filosofia de uso dos recursos naturais, de organização social e comunitária e de economia solidária e suas práticas agroecológicas e de criação de abelhas nativas no sítio da família Schwade-Müller em Presidente Figueiredo fazem parte de todos os cursos da Embrapa, do INPA, da UFAM, IFAM e UEA que tratam da sustentabilidade rural.
Doroti nos ensina que a agricultura deve produzir vida e não a morte dos igarapés, a infertilidade do solo, o desmatamento das florestas, a perda do conhecimento tradicional e alimentos que degradam a saúde humana. Ensina-nos que a verdadeira economia solidaria começa com a mesa farta, diversa e saudável de nossas famílias e de nossos vizinhos. Doroti nos alerta que povos soberanos se alimentam de seus produtos regionais, realizam agricultura sem dependência de agrotóxicos e adubos químicos, usam sementes que não perderam a capacidade de se multiplicar anualmente para enriquecer a indústria agroquímica e integram conhecimentos científicos e tradicionais em prol da qualidade de vida. Doroti demonstra que apesar de sua dedicada militância e magistério em prol de um mundo melhor, o principal papel social que homens e mulheres podem desempenhar para este fim é formar crianças éticas, humanitárias que valorizem a diversidade social e todas as formas de vida.
Doroti e Egydio Schwade constituíram uma família com cinco maravilhosos filhos, todos cidadãos que sabem amar e respeitar e que constituem um exemplo de vida para a transformação social e a qualidade de vida para sua comunidade e para a Amazônia.
Hoje, membros dos movimentos socioambientais, indígenas, feministas, agroecologistas, das pastorais sociais, os que constroem uma ciência libertadora e os cidadãos éticos estão de luto pela passagem de Doroti Müller Schwade. No entanto, todos temos muito a saudar e a agradecer pelo exemplo de vida e pela constante luta de Doroti em prol de um mundo melhor.
As homenagens estão sendo realizadas na Igreja de sua comunidade em Presidente Figueiredo, AM, cujo altar consiste de uma enorme pintura do rosto do lendário cacique Maroaga com lágrimas escorrendo devido à construção da BR 174 e da hidrelétrica de Balbina dentro do território Waimiri-Atroari, o que quase causou a extinção do combativo povo Kiña. Os Waimiri-Atroari e os demais povos da Amazônia perderam hoje uma grande aliada contra os impactos de obras faraônicas como a BR 174, BR 319, a hidrelétrica de Balbina, as hidrelétricas do Madeira e as do Xingu.
Consola-nos saber que entre as mais belas sementes de Doroti continuará frutificando entre nós sua maravilhosa família cujos filhos, Ajuri, Adu, Mayá, Maiká, Luiz e o queridíssimo companheiro Egydio Schwade continuarão exercendo dignamente suas cidadanias e nos mostrando que uma outra Amazônia é possível.

Elisa Wandelli
Bióloga, Pesquisadora da Embrapa Amazônia Ocidental

*Texto revisado pela família de Doroti e originalmente publicado no Adital e NCPAL

Um comentário:

  1. Sempre bom saber que não estamos sozinhos neste imenso país - Força e Honra na trajetória de vocês giereiro! /l\

    ResponderExcluir