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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Vida e Histórias de Doroti Schwade: Texto 6

Carta do Seringal Canadá

(Obs.: Este seringal se localiza no médio rio Envira. Doroti, era então coordenadora do CIMI/Amazônia Ocidental. A Prelazia de Cruzeiro do Sul, ainda olhava com muitas reservas o CIMI. Por isso Doroti acompanhou o padre vigário de Feijó, em viagem de desobriga, como catequista e não como membro do CIMI, para com mais tranqüilidade poder fazer o levantamento da situação dos índios naquela região. Subiu o rio Envira até o povo Kampa ou Ashanika, na fronteira com o Peru.)

Seringal Canadá / 11-10-1976

"Estou morando na casa do professor, ele é também funcionário do barracão (loja). Aqui, pelo menos perto da sede, o pessoal não é tão pobre, parece que o alimento não falta.
O regime, no entanto, é muito parecido com a casa grande e senzala. Não há o castigo físico, mas muita submissão. O patrão é despótico e fala em altos brados que “este povo é preguiçoso, ignorante”. A religião pregada pelo padre é ainda mais despótica do que a autoridade do patrão. Confissões obrigatórias. Quando a gente fica por detrás dos bastidores observando, a gente vê que a confissão pode ser um terror.
A visita do padre em vez de ser a comunicação da graça (comunicação dialogo, amor), parece este injetar do medo nas almas deste povo oprimido. Desse jeito ele nem pode se organizar em grupos, pois tudo o que surgir espontaneamente e não for de acordo com as regras de moral imposta pelo padre, será automaticamente violentada.
Às vezes me sinto fariseu, outras vezes Judas, outras Pedro negando, outras ainda e de modo muito doloroso o Pilatos, lavando as mãos ante a agressão aos humildes e inocentes cristãos.
Não sei se o que falo não vai criar confusão para o povo, mas procuro mostrar que Deus não é um patrão mau, mas um Deus de misericórdia.
Procuro incentivar a fé para a esperança e a caridade.”

Doroti Alice Müller Schwade

11 de outubro de 1976

Um comentário:

  1. alfredo pinto parente5 de novembro de 2012 16:41

    sou filho de seringueiro, meu pai foi seringueiro, no seringal canadá, durante mais de 50 anos e ali nascie e me criei, até 18 anos de idade, porém aos 15 anos com dinheiro ganho da venda de pele de onça comprei um rádio, começei a conhecer mundo, passando a compreender que aquilo era uma verdadeira escravidão e 2 anos depois em 1970, 17 anos de idade comuniquei ao meu pai que no ano seguinte em 1971 deixaria de ser seringuiro, profissão que herdei do meu pai desde 10 anos de idade, quando larguei o seringal canadá, na colocação chamada manga do centro, passando aq residir em belém, chegando aqui 12 de junho de 1971, aos 18 anos de idade, quando matriculei no MOBRAL (movimento brasileiro de alfabetização) e atualente sou PROFESSOR DE HISTÓRIA e ADVOGADO, nos tribunais da grande Belém, mas conforme a pesquisa a produção de borracha era uma verdadeira escravidão.

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