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Que vivam os Povos Indígenas! Que vivam Bem!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Campanha da Fraternidade e Conversão

A Igreja é o povo de Deus (Vaticano II). Até 313 a Igreja estava inserida na lógica da mãe-terra. A terra era a segurança, o sustento e o refúgio dos cristãos na paz e nas perseguições do Estado. Celebravam a Eucaristia no interior da mãe-terra: nas catacumbas, com vestimentas e utensílios do povo local. Eram “pagi”, pagãos conscientes, desprezados pelos cidadãos romanos, os homens da metrópole, como ainda hoje o são as pessoas que vivem da terra e na terra.
As lideranças escolhidas pelas comunidades não recebiam Ordem e nem viviam em palácios. Viviam no meio do povo, peregrinando pelas comunidades, levando informações e as novidades, não só em termos de organização, mas também do trato da terra e das colheitas dos irmãos, mundo afora. Não existia a instituição cristã, construída sobre leis escritas, sobre o direito canônico. Procuravam seguir a “lei perfeita da liberdade” (Tg.1,25), a consciência, sabedoria congênita, “os caminhos do Deus”.
Viviam em permanente conflito com o Império Romano opressor, da metrópole até a última colônia. Em 313, d.C., o imperador romano articulou a paz com as lideranças mais próximas e as acolheu nos palácios do Império. Originaram-se assim os palácios episcopais e em seguida os estados pontifícios, o Estado do Vaticano, as leis escritas, a lei positiva, o direito canônico, impondo-se sobre as consciências. As comunidades de base começaram a ser pressionadas até aderirem ao modelo estatal, no Império e fora dele.
Os “pagãos” se tornam cidadãos do Império. Da terra-mãe passam para o estado-cimento. O minério invade os templos. As túnicas e os cálices de ouro começam a aparecer nas celebrações. Nos festejos de 20 anos do imperador Constantino em 326, por iniciativa da imperatriz, Sta. Helena, foram construídas as três primeiras catedrais: São Pedro em Roma, o santuário de Belém e a catedral de Treveris (Trier) no Reno. Houve resistência nas comunidades de base por toda a parte. Ao longo do Reno, na África e no Oriente Médio. Mas a resistência foi quebrada aos poucos por missionários que vinham de fora, de outras partes do Império.
As Américas eram habitadas por povos, subdivididos em milhares de comunidades que viviam em harmonia com a mãe-terra. Tinham paradigmas de organização que poderiam perpetuar a vida e o seu bem-estar no planeta. Era uma ceara imensa onde os missionários poderiam “colher as sementes do Verbo ocultas” (Vaticano II - Ad Gentes) que poderiam reabrir para as comunidades cristãs o seu caminho às origens. Mas os Estados europeus, incluída a Igreja-Estado, invadiram seus territórios e pressionaram povos e comunidades, a se tornarem cidadãos de reinos longínquos. Quase todos preocupados apenas em transformá-los em mão-de-obra escrava, para colher especiarias e procurar minérios para sustento do luxo depredador dos Estados de além-mar.
Neste tempo da Quaresma e de Campanha da Fraternidade, tempo de penitência e de revisão da nossa relação com a mãe-terra que “geme em dores de agonia” e com o povo que dela vive, é oportuno revermos a nossa história para nos arrependermos. E a matéria do arrependimento é o abandono dos nossos erros que se repetem.
Conheci o bispo de uma Prelazia da Amazônia que decidiu morar em uma casinha popular. Sentiu-se sempre muito feliz nela, como pude testemunhar freqüentes vezes. E o povo sentia-se orgulhoso de seu bispo muito querido. Quando morreu, o seu sucessor achou aquela casa indigna de um bispo e construiu um palácio episcopal para si.
Jesus é o orientador dos cristãos e ele “armou a sua tenda entre nós”, como diz João no seu evangelho. A tenda não prejudica permanentemente a mãe-terra. Ela é transitória. O palácio é permanente, cobre por séculos a terra. Ali nada cresce. O líder que arma a sua tenda entre o povo e se compromete com a sua existência é acolhido como pessoa da terra. Seus hábitos são semelhantes aos do povo da terra. Aceita ser servido no prato e no copo de barro da aldeia.
Do minério, do palácio e das metrópoles sempre saíram as máquinas que destruíram e continuam destruindo os povos e a vida na terra. Se a Igreja, povo de Deus, é peregrina, por que as catedrais, as grandes igrejas, por que incluir túnicas estranhas e cálices de ouro em nossas celebrações litúrgicas?

Casa da Cultura do Urubuí / Amazonas, 15 de abril de 2011

Egydio Schwade

2 comentários:

  1. É importante ressaltar que os nativos brasileiros, na sua origem (o que quero dizer no "primeiro contato com os europeus") não viviam em "plena harmonia" com natureza, esta visão já foi colocada a baixo academicamente a mais de uma década (se não mais) mas persiste em perpetuar-se no senso comum numa certa revolta contra a cultura européia. Hoje em dia já dispomos de boas referências bibliográficas que nos mostram isto com clareza, sem preconceitos; dentre os autores encontramos Michael H. Crawford, Evaristo Eduardo de Miranda,Maria Regina Celestino de almeida, Jorge Couto, Maria Leônia Chaves de Resende entre muitos outros. Mas eu diria que o autor em maior destaque neste momento seja o Leandro Narloch, responsável pela divulgação em massa destas informações na sua obra "Guia politicamente incorreto da história do Brasil". Naqueles tempos os nativos possuíam uma dependência técnica muito evidente para com as queimadas, elas garantiam sua subsistência para a agricultura como também para a caça; destarte, não faziam por maldade, mas apenas por necessidade. Temos como evidencia desta prática vários registros históricos que nos indicam que, ao contrário da história politicamente correta, os europeus na verdade acabaram por disciplinar as comunidades indígenas na preservação dos ecossistemas; mas deve-se advertir que este processo educativo foi efetuado mais por interesses econômicos na flora nacional.

    "O poder de fogo e de devastação ambiental ficou gravado no vocabulário tanto dos índios quanto dos portugueses. Na língua tupi, são muitas as palavras diferenciando as matas abertas (por queimadas), como capoeira (roça abandonada), cajuru (entrada da mata) caiuruçu (incêndio), capixaba (terreno preparado para plantio)." (NARLOCH, Leandro. Guia politicamente incorreto da história do Brasil, 2009 p. 53)

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  2. Querido Gael,
    Não se pode estigmatizar uma prática sem analisar seu contexto.
    O uso do fogo por comunidade indígenas, por exemplo, em nenhum momento interferiu no equilíbrio dinâmico dos ecossistemas brasileiros. Nota-se hoje que as terras que estiverem ocupadas por povos indígenas são mais agricultáveis que qualquer outra ao seu redor. Basta observar os vários relatos sobre as manchas de terras pretas na Amazônia, entre eles, o livro “As Terras Pretas de Índios da Amazônia”, coletânea com 30 textos de agrônomos, biólogos, ecólogos, físicos lançado em 2010. Esses relatos destacam essas terras como berços da fertilidade e ricos em biodiversidade.
    Ao contrário, o agronegócio e demais práticas capitalistas, por onde passam deixam seu rastro de degradação. Quanto tempo levaremos para novamente plantar em um lixão urbano, sobre o asfalto ou em solos lixiviados?
    abraços

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