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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Dorô, A Menina que Virou Flor, Roça, Pomar, Amor


Obs.: Adaptação do mito da origem da roça do Povo indígena Manoki, em homenagem a Doroti Alice Müller Schwade.

Naquele Tempo vivia uma menina. Sempre que encontrava as pessoas ela perguntava se elas estavam bem e se estavam cuidando das outras e da natureza, mas as pessoas quase nunca respondiam e só assobiavam.
- Vocês estão cuidando das crianças?
- Fi...
- Vocês estão cuidando das pessoas de quem foi tirado o direito a vida digna?
- Fi...
- Vocês estão respeitando as pessoas que tem cultura diferente?
- Fi...
Cada dia a história se repetia:
- Vocês estão cuidando das águas?
- Fi...
- Vocês estão cuidando dos bichinhos?
- Fi...
- Vocês estão cuidando das florestas?
- Fi...
- O que vocês fizeram para que o reino de Deus floresça sobre a Terra?
- Fi...
Era sempre assim: a menina perguntava e as pessoas só assobiavam. Ela não gostava que as pessoas só assobiassem, ficou triste, zangou e disse para seus amigos:
- Amigos, vamos andar por aí? Eu queria ficar perto da natureza.
- Então vamos, menina.
A menina arranjou umas ferramentas e os amigos saíram com ela por um trilho na mata. Chegaram a um acampamento. Ali a menina sentou-se e disse:
- Amigos, olhe que lugar bonito, limpo e perto do mato! Vou ficar por aqui, vocês me enterrem aqui!
- Mas por que você fala assim? Perguntaram os amigos.
- Vocês não viram? Já esqueceram? Sempre que encontro as pessoas e eu pergunto se fizeram alguma coisa para construir uma terra sem males, de mais respeito entre a humanidade e com a natureza, eles só assobiavam para mim e eu fiquei triste. Vocês podem me enterrar, mas não pensem que eu vou morrer.
- Não vamos fazer isso com você! Vamos andando! Disseram os amigos.
Chegaram a outro acampamento. A menina sentou e disse de novo:
- Aqui vocês não vão deixar de me enterrar!
- Vamos voltar para casa, menina, e assar peixe para comer.
- Não amigos, cavem só um buraquinho, assim, raso e redondo, me deitem dentro, e me enterrem até o pescoço e eu vou ficar aqui mesmo!....
- Mas menininha!...
- Se vocês não me enterrarem pode ser que eu não possa mais contribuir para construir a terra sem males. As pessoas só assobiavam para mim!
- Os amigos enterraram a menininha do jeito que ela queria e começaram a chorar. Era de dia e a menina disse:
- Amiginhos, não chorem! Vou morar aqui e só morro se vocês esquecerem-se de mim, não me atenderem e cuidarem de mim no tempo certo, não me semearem e cultivarem. Vocês preparem a terra, as ferramentas, esteiras de folha de buriti e recolham as sementes. E falem para as pessoas prepararem cestas, paneiros, panelas, ralos e tachos. Daqui a uns dias, quando vocês e as pessoas tiverem aprontado tudo isso, vocês venham aqui com eles e tragam paneiros e cestas. Agora vocês podem voltar para casa, amigos, mas, quando chegarem lá, não é para brigarem com as pessoas. E mais uma coisa: andem depressa e não olhem para trás.
Os amigos não estavam entendendo nada daquilo e saíram caminhando ligeiro. Quando iam lá longe, veio uma grande tempestade fazendo um barulhão: wãh... wãh... Nessa hora, ouviram também uns cantos da menina e toques de diversos instrumentos: wãh...wãh...uñ...uñ...uñ...o...o...o...huñ...huñ...huñ... e outros cantos. Foram os primeiros cantos de uma nova esperança.
Quando os amigos chegaram a casa, as pessoas não estavam, mas logo chegaram e perguntaram para os amigos:
- A menina?!... Cadê a menina?
Os amigos não responderam nada: estavam zangados com as pessoas.
- Onde está a nossa menina? Perguntaram as pessoas de novo.
- Vocês nunca respondiam nada para nossa menina, quando ela perguntava pelas criancinhas, pelos doentes, pelos desfavorecidos e pela natureza; e vocês só assobiavam... Já se esqueceram disto? Ela ficou muito triste e nos pediu para enterrar-la lá no mato. Depois que nós a enterramos ela disse: - Agora vocês vão embora, andando depressa, e não olhem para trás. Quando nós vínhamos vindo deu uma grande tempestade no mato, balançando as árvores, fazendo um barulhão assim: wãh...wãh...uñ...uñ...uñ...o...o...o...huñ...huñ...huñ..., no lugar onde nós enterramos a nossa menininha. Tudo isso nós ouvimos.
As pessoas choraram de tristeza e disseram:
- Mas como vocês fizeram isso?! A gente só tinha essa menininha!
E os amigos disseram:
- E ela mandou dizer para vocês fazerem paneiro, ralo, e arranjarem tachos e panelas e, quando tiver tudo pronto, é para vocês irem lá conosco.
Juntos então aprontaram tudo e foram ao lugar onde os amigos enterraram a menina, levando paneiros e cestas. No trilhozinho da mata viram onde a menininha antes brincava, apanhava cará, cortava a capoeira e plantava. E choraram de saudade, mas continuaram andando.
Quando estavam perto de onde fora enterrada a menina, viram uma clareira na mata e os amigos disseram:
- No lugar dessa clareira era mato, quando eu vim aqui naquele dia. Como é que é isso?
Chegaram à beira da clareira e viram uma floresta de alimentos com tudo que era plantação, de flores, de frutas, de tubérculos, milho e tudo mais. Os amigos então disseram:
- Nossa menininha não está aqui, mas foi dela que nasceu esta floresta de alimentos. Agora é que estamos entendendo o que ela falou: - Eu só morro se vocês se esquecerem de mim, não me atenderem e cuidarem de mim no tempo certo, me semearem e me cultivarem...
Dos braços da menina nasceram mandioca e macacheira; dos dedos, ararutas e ariás; das unhas, amendoim; da cabeça, castanha e abiu; dos seios, amapá, sorva e coco; da costela, feijões pretos, rajados e de outros tons, quiabo e ingás; do coração taioba; das pernas, jatobá, cedro, e vários tipos de madeira; do fígado os carás; do pâncreas, andiroba; das vértebras, tucumã, açaí e pupunha; dos intestinos, batatas-doce, mamão, goiaba e maracujá; do dente, milho; das roturas, cabaças e cuias; da língua e das orelhas, plantas medicinais; da saliva, copaíba; dos olhos, flores azuis; dos cabelos, flores brancas e amarelas; do sangue, flores vermelhas e urucum; e assim por diante, uma infinidade de cores e sabores brotaram da terra.

Estava tudo no ponto de colher. Encheram os paneiros e cestas e levaram para alimentar todos com abundancia e mesa farta.


Maurício Adu Schwade.

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