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Que vivam os Povos Indígenas! Que vivam Bem!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Y-Juca-Pirama*

Contexto - A Distribuição  
“Egydio tome aí, o Moura acaba de ser preso!” – sem sair do ônibus, voltei ao meu assento no ônibus Brasília - São Paulo. Foi na rodoviária de Goiânia, em inícios de 1974. Antônio Moura foi quem controlava a “central” de distribuição do Y-Juca-Pirama em Goiânia. Poucos além de D.Tomás e Moura sabiam sequer onde o documento fora impresso.

Antes de sair de Brasília eu telefonara para o Moura solicitando dois pacotes de “material escolar” (era a senha do Y-Juca-Pirama). Eu me dirigia ao Sul do Brasil e na rodoviária de Goiânia Moura me entregaria o pacote. O ônibus Brasília - São Paulo fazia ali uma parada para embarque de passageiros.
Naquele dia, enquanto Moura e Júlia, uma destemida agente de pastoral da Diocese de Goiás, esperavam a chegada do ônibus proveniente de Brasília, Moura recebeu voz de prisão. Com grande presença de espírito, no que sempre foi um mestre, passou discretamente o pacote do Y-Juca-Pirama, para as mãos de Júlia, como quem livra as mãos, para erguê-las em sinal de rendição. Com a mesma discrição Júlia os recebeu e foi esperar a chegada do ônibus em outro local da plataforma.
Naquele dia só entrou um novo passageiro no ônibus e este foi-se sentar justo no assento atrás de mim. Inútil dizer que durante aquela noite não dormi um instante sequer porque o passageiro nas minhas costas, provável inocente, me “controlava” a noite toda.
Em São Paulo dirigi-me imediatamente ao apartamento da mãe de Antônio Moura para lhe dar mais uma vez a dolorosa notícia da prisão de seu filho, pois Moura já sofrera alguns anos de prisão, quando foi agente de pastoral da Prelazia de S. Félix do Araguaia.

A Redação
“O Y-Juca-Pirama, o Índio, aquele que deve Morrer” foi elaborado no sítio de Frei Mateus, no interior do município de Abadiânia. Autores: Pe. Antonio Iasi, sj., D.Tomás Balduino, op., Pe. Ivo Polleto, D.Pedro Casaldáliga, Frei Eliseu Lopes, op., e eu, que não consto na relação dos assinantes. Muitos stranharam a minha ausência nos assinantes, sendo eu, então, secretário executivo do CIMI e um dos autores do documento. A omissão se deveu a uma recomendação de D. Pedro Casaldáliga que argumentava que o recém-criado Secretariado do CIMI correria risco de sofrer falta de continuidade, ou no mínimo, teria a sua liberdade de ação cerceada, em caso de repressão.
Estávamos vivendo um clima de perseguição. E todo o cuidado era pouco. No final do encontro de redação fui encarregado de conseguir mais assinaturas, fora daqueles que já haviam dado seu aval, antes mesmo da redação definitiva do documento. As coisas não eram nada fáceis. Mil e um conselhos, recomendações me acompanharam, quando, após o encontro do interior de Abadiânia, saí em viagem, rumo Sul, na busca de novas assinaturas. “Com o bispo tal não adianta conversar sobre o assunto, nem com aquele outro, porque não vão assinar mesmo. Procura aquele e mais aquele outro”...

A Epopéia das Assinaturas e Reações
Dirigi-me quase direto para Palmas/PR, onde me encontraria com o Pe.Natalicio Weschenfelder,( falecido recentemente) um assinante certo. Mas o primeiro imprevisto foi que o Pe. Natalício não estava em casa. Quem me recebeu foi o Pe. Leonildo Brustolin. coloquei-o ao par do assunto, mostrando-lhe cópia do documento. Ele nem completou a leitura e já colocou sua assinatura, recomendando-me mostrar também o documento para o bispo D.Agostinho J. Sartori. Embora ele era um daqueles que com certeza não assinaria o documento, não tive mais como fugir de mostrar-lhe o documento, pois não tinha suficiente intimidade com o Pe. Leonildo para lhe dar explicações sobre o que me fora recomendado. Era um domingo de manhã. O bispo me recebeu e apresentei-lhe o documento, pedindo a sua assinatura. Recebeu-o e sumiu para o seu quarto sem comentários. Só me chamou no final da tarde. Vermelho e bastante tenso, me devolveu o documento e disse: “Li tudo com atenção! É isto mesmo! Pode colocar a minha assinatura!”
Parti feliz no rumo de Erechim. Depois da agradável experiência de Palmas, ao passar por Chapecó, tive vontade de parar também para mostrar o documento a D.José. Mas acabei não arriscando, cedendo às recomendações. Se o tivesse feito, com certeza teria tido mais sucesso do que em Erechim, onde acabei encontrando total rejeição à assinatura do documento, apesar das recomendações positivas.
D.José, bispo da Diocese de Chapecó e futuro Presidente do CIMI, até então, sempre bastante alheio à questão indígena, acabou, alguns anos depois transformando-se em um dos mais fortes aliados da causa indígena.
Menos de meio ano antes do Y-Juca-Pirama, saiu o documento: “Ouvi os clamores do meu Povo”, da Igreja do Nordeste e em conseqüência foi invadido o Juvenato Dom Vital, onde funcionavam o Secretaridado Regional Nordeste-II da CNBB, a Cúria Arquidiocesana de Recife-Olinda, Conferência dos Religiosos e o Secretariado de Pastoral da Arquidiocese. Todos que estavam trabalhando ali ficaram detidos, inclusive D.José Lamartine Soares, Bispo Auxiliar da Arquidiocese. Os telefones foram interceptados, ficando impedidas a entrada e saída de quem quer que se aproximasse. Arrombaram a mecanografia. Tudo para apreender o Manifesto dos Bispos e Religiosos do Nordeste.
Naquele período até os de casa temiam a gente, quando não tomavam atitudes de repreensão ou até de agressão.
Assim o cônego Afonso, responsável pela representação da CNBB em Brasília (a sede ainda funcionava no Rio de Janeiro), reprovava abertamente os documentos da Igreja de S.Félix: “Uma Igreja em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social” e o documento dos Bispos do Nordeste, “Ouvi os Clamores do Meu povo”, como principalmente os padres e bispos que mais se evidenciavam atrás destes documentos, como D. Helder Câmara, D.Pedro Casaldáliga e o Pe. Gentel. Como a sede do CIMI, funcionava então na representação da CNBB em Brasília, as nossas relações se azedaram logo. Poucas semanas depois me expulsou daquela residência aos gritos e empurrões.

Pelos Caminhos do Brasil Continente
Como D. Tomás, Pe. Iasi e eu viajávamos muito pelo interior do País, a distribuição do documento pelas paróquias e comunidades se deu de forma muito rápida e ágil. Para se ter uma idéia eis as minhas andanças durante o meio ano que se seguiu ao lançamento do Y-Juca-Pirama, 25 de dezembro de 1973: Rio de Janeiro, Magé, Petrópolis, São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Brasília, Goiânia, Anápolis, Gurupi, Miranorte, Colinas de Goiás, Miracema do Norte(Palmas), Tocantínia, Araguaína, Tocantinópolis. Carolina, Grajaú, Barra do Corda, São Luís, Belém, Altamira, Santarém, Alenquer, Óbidos, Juruti, Parintins, Urucará, São Sebastião do Uatumã, Itapiranga/Am, Itacoatiara, Manaus, Letícia, Tabatinga, Benjamim Constant, São Paulo de Olivença, Porto Velho, Guajará-Mirim, Gi-Paraná,(Vila de Rondõnia), Vilhena, Cuiabá, Diamantino, Alto Paraguai, Afonso, Nortelândia, Rondonópolis.
Mas de fundamental importância para toda a ação de CIMI naqueles diasfoi a atitude tranquila e firme do Secretário Geral do órgão, D.Ivo Lorscheiter, que valendo-se de sua autoridade de Secretário Executivo da CNBB, não se ateve apenas a um apôio total, como deu-nos sugestões de grande clarividência, como a que incentivava o CIMI a permanecer apenas um órgão oficioso da CNBB, para que pudesse agir com mais arrojo dentro de uma Igreja dividida em tantas linhas contraditórias, frente à pastoral indígenista. No caso da expulsão da casa da CNBB, foi ele pessoalmente que me acompanhou, menos de uma semana depois para dentro do prédio do órgão.
Por outro lado, destoava por vezes, a atitude de companheiros como a do colega jesuíta da Universidade Católica de Goiania que não aceitou que eu me reunisse nas dependências da Universidade com os bispos D.Tomás Balduíno e D. Pedro Casaldáliga, temendo represálias da polícia federal. E me dizia textualmente: “Porque ou trabalhamos na Universidade e nos sujeitamos às exigências que nos impõem para continuar recebendo verbas, ou frustramos tudo e entramos na linha de D.Tomás, uma linha de engajamento social.”
Em outra oportunidade, quando, após uma reunião do CIMI em Goiãnia, acompanhado de D.Tomás e D.Pedro, quando fiz uma visita ao Reitor da mesma Universidade, este me repreendeu, alegando que a visita destes dois bispos “subversivos” comprometeria as relações da Universidade com o Governo.
De fato, poucos meses depois, o Provincial nos negou um quarto, em Brasília, já concedido pelo superior da casa, para instalarmos provisoriamente a sede do CIMI. A distribuição do Y-Juca-Pirama, foi feita com muita eficiência e rapidez, graças, principalmente, à corajosas equipes de leigos, tendo quase sempre ao eu lado ou à sua frente algum padre determinado a apoiar a causa indígena. Destacaram-se assim as equipes de Goiânia e Campinas, em torno das paróquias dos PP Claretianos. Os leigos da OPAN em torno da sua sede em Cuiabá. A equipe de leigos e padres da Prelazia de S.Félix do Araguaia e da Diocese de Goiás. Mas seria cansativo citar todos os grupos e pessoas que em particular, se destacaram no mutirão da divulgação deste documento.


Casa da Cultura do Urubuí/Presidente Figueiredo/Amazonas, 14 de fevereiro de 2012.


Egydio Schwade

*Acesse o Documento pelo Link: Y-JUCA-PIRAMA 

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