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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

AS ABELHAS E O NOSSO AMBIENTE



Desde 1993 a nossa família está investindo na criação de abelhas nesta região norte do Amazonas na BR-174, entre Manaus e Roraima, no Município de Presidente Figueiredo. Além de 10 espécies de abelhas indígenas sem-ferrão, criamos também abelhas africanizadas, hoje presentes em toda a Amazônia.
O que já podemos concluir de nossa experiência é que o investimento na criação de abelhas protege as copas das plantas e das árvores da Amazônia e como tal é um investimento sustentável e rentável. Além disso, é compatível com as diversas atividades agrícolas, especialmente, quando dentro dos princípios da permacultura e da agroecologia. 
O investimento nas diversas espécies de abelhas da região:
· garante e enriquece a biodiversidade. 
· traz alimento e medicamentos para as populações envolvidas em sua criação. E os seus excedentes são facilmente comerciáveis. 
· garante águas boas já que as abelhas necessitam de águas limpas o que exige do seu criador cuidado especial das fontes e mananciais.
· Amplia a visão das pessoas sobre o futuro da Mãe-terra e conseqüentemente da humanidade.
· Incentiva a troca de conhecimentos, de mudas e de sementes. 
· Estimula todos na observação das diversas formas de consórcios, permutas e interdependência dos seres vivos entre si, levando pessoas e povos a fazerem ciência, tecnologia e cultura, obtendo como resultado um acúmulo de sabedoria na condução da vida.
As abelhas nos ajudam a ser administradores da vida e não pretensos donos de terras, águas, solos e demais elementos da natureza. São excelentes ‘pedagogas’ para conduzir os nossos olhares rumo ao conjunto da vida amazônica com um carinho especial para os dosséis ou copas das arvores e plantas diversas, que geram as flores.
A nossa “Floresta de Alimentos” seria muito pobre sem a presença maciça destes polinizadores.
Assim, o agricultor que, ao invés de derrubar e vender os troncos, aumenta o número de copas ou dosséis pela transformação de capoeiras em “florestas de alimentos”:
· Garante o abastecimento diário de sua mesa com frutas variadas e saborosas, bem como com tubérculos e raízes podendo evitar frutas e batatas importadas, caras e contaminadas com agrotóxicos;
· Garante um solo sempre mais fértil através da reciclagem da biomassa;
· Aproxima os animais silvestres, garantindo a proteína animal sem o esforço irracional do caçador que arriscando a sua saúde perde dias e noites na perseguição dos últimos espécimes de caça que se escondem no fundo da floresta;
· E finalmente, multiplicando as copas, multiplicam-se os polinizadores, em especial as abelhas
Hoje já temos alguns dados estatísticos sobre a produção de mel, de uma só espécie de abelhas (apis melífera), colhido em sete micro-áreas em volta da cidade de Presidente Figueiredo, áreas onde a floresta nativa predomina em 80%. A produção media anual destas micro-áreas varia entre 25 e 45 quilos de mel/ano por colméia.
Juntando ao mel a produção de pólen, própolis, cera, além do serviço de polinização que as abelhas prestam e tomando-se em conta o pouco investimento exigido numa criação de abelhas, podemos concluir que não há outro investimento melhor e mais rentável para a região Amazônica. 
Entretanto, queremos frisar a necessidade de se criarem situações e ambientes reais e eficientes para a conservação ambiental e a recomposição da biodiversidade em todo o mundo.
Nos últimos anos a pesquisa científica tem progredido muito sobre biodiversidade, mas popularizou pouco. Como conseqüência as pessoas permanecem alienadas da natureza a ponto de considerá-la um detalhe de pouca importância. Primordialmente era diferente. A revelação das descobertas era a maior alegria do homem do campo e da floresta.
Os insetos, principalmente as abelhas, são elementos fundamentais para a conservação e recomposição da biodiversidade. Assim sendo, é preciso achar a melhor situação para o desenvolvimento de todas as espécies de abelhas, não somente daquelas que mais interessam aos que apenas objetivam o mercado.
O ambiente natural onde a abelha deve ficar para se fortalecer e desenvolver com saúde é a natureza florida. Com mais variedade de alimentação as abelhas campeiras se mantém mais tempo fora da colméia o que as torna robustas, vigorosas, resistentes e ativas na procura de pólen e néctar.
É este então o ambiente que o homem deve garantir para as diversas espécies de abelhas. 
Investir na variedade de flores, principalmente, nas floradas dos períodos de mais carência, mantém o equilíbrio do mundo das abelhas e também a saúde do apicultor e do meliponicultor, que se tornam assim essencialmente promotores da biodiversidade.
As abelhas são parte integrante do ecossistema da região em que vivem. Sua principal função na natureza é a polinização das flores e, consequentemente, a produção de sementes, frutos, mel, pólen, cera e própolis.
Dependendo do ecossistema, as abelhas brasileiras sem-ferrão são responsáveis por 40 a 90% da polinização das árvores nativas. 
Hoje a taxa das espécies de abelhas sem-ferrão brasileiras diminui mais rapidamente do que a destruição das florestas porque a maioria vive em ocos de árvores e estes estão sendo destruídos com muita velocidade. Muitos meleiros encontrando as colônias de abelhas derrubam a árvore e retiram o mel, jogando a cria ao chão onde é comida por formigas. Mas pior ainda são as serrarias que selecionam as árvores maiores, mais velhas que mais frequentemente abrigam em seus troncos e galhos os ocos, o ‘habitat’ preferido dos enxames. 
O uso de inseticidas, especialmente nas de plantações de arroz, soja e algodão arrasam toda possibilidade de sobrevivência das abelhas em regiões inteiras. Algumas abelhas já se estão tornando urbanas, como a jataí. Na cidade, por sua vez, são afetadas pelas pulverizações para controle do mosquito da Dengue. Também a derrubada seletiva das árvores mais velhas, hoje até incentivada por algumas ONGs, atrás da certificação florestal, representa um novo perigo muito grave às abelhas, principalmente para as indígenas sem-ferrão.
Finalmente, vale a advertência do Prof. Warwick Kerr em “Abelha Urucu Biologia, Manejo e Conservação”, Belo Horizonte/ 1996:
“Diante da destruição acelerada das matas é imprescindível a elaboração de programas de conservação. Se houver um firme objetivo de preservar e restaurar as árvores nativas brasileiras, faz-se necessário preocupar-nos seriamente com a polinização de suas flores. Estudos sobre biologia das abelhas polinizadoras, manejo e especialmente reprodução controlada e divisão de suas colônias se tornam informações essenciais para quaisquer medidas a serem adotadas em tais programas de conservação.
A meliponicultura, ou seja, a criação de meliponíneos (abelhas sem-ferrão), é uma atividade humana que contribui para a conservação das abelhas e de seu habitat – já nos ensinavam os diversos povos indígenas que primeiro domesticaram estes insetos sociais.”
Por tudo isto, concluímos que a criação de abelhas não é só viável, mas recomendável nesta luta de todos para salvarmos o nosso planeta.
É urgente que os técnicos se deixem guiar por estes insetos e mudem sua postura na orientação da produção de alimentos na Amazônia.


Presidente Figueiredo, 11 de julho de 2007.


Doroti e Egydio Schwade

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