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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A Indústria Cultural do Cupuaçu

[Criticas ao Norte, Nortes pela Critica - Ensaio 3]
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A cultura que, de acordo com o seu próprio sentido, não somente obedecia aos homens, mas também sempre protestava contra a condição esclerosada na qual eles viviam, e nisto lhes fazia honra; essa cultura, por sua assimilação total aos homens, torna-se integrada a essa condição esclerosada; assim, ela avilta os homens ainda uma vez”. (ADORNO, “A Indústria Cultural”, pág. 93)
A Festa do Cupuaçu, realizada anualmente em Presidente Figueiredo, é apresentada como “o principal evento cultural da cidade”. No entanto trata-se muito mais de um mecanismo de aviltação, controle e saque. A indústria cultural, nos termos postos por Adorno e Horkheimer[1], se mistura e se confunde com mecanismos de usurpação de recursos públicos. 

Na festa os moradores não são reis nem nobres, não são os sujeitos como se tenta fazer crer, mas objetos[2]. E sua participação é irrelevante, somem diante da multidão de pessoas que chega a cidade. “Cada um é apenas aquilo que qualquer outro pode substituir: coisa fungível, um exemplar”[3]

Toda a estrutura montada para a festa é mega. Busca-se utilizar o máximo das possibilidades técnicas, utilizar plenamente as capacidades existentes para o consumo estético de massa. Diante dos mega-espetáculos poucos se lembram que isto faz parte do mesmo sistema político e econômico que se recusa a utilizar suas capacidades quando se trata de eliminar a fome, de criar condições para que todos tenham moradia, saneamento básico e assistência de saúde dignos[4]

A afinidade originária deste negócio de divertimento aparece no seu próprio significado: a apologia dos grupos dominantes: Divertir-se significa estar de acordo. Divertir-se significa que não devemos pensar, que devemos esquecer a dor, mesmo onde ela se mostra[5]. E ela se mostra na violência que explode durante este período, na prostituição inclusive de menores, na bebedeira, na anulação do indivíduo, no lixo espalhado pela cidade. 

Logo após a Festa do Cupuaçu deste ano uma jovem da cidade postou no facebook uma foto de muito lixo entorno da Corredeira do Urubuí[6] e a pergunta: “O que faltou mesmo, lixeira ou educação do povo?”. Não percebe ela, e a maioria de nós, que não é a falta de educação o problema e sim a própria educação que reproduzimos. Entenda-se educação como a transferência de valores e conhecimentos pela sociedade e não apenas a escolarização que é apenas parte disto. Esta confusão entre educação e escolarização tornou-se, inclusive, um mecanismo que separa o viver do pensar. E a educação que temos opõe o homem à natureza quando deixa em polos antagônicos meio ambiente em relação ao progresso. Educação que muitas vezes naturaliza o genocídio e o massacre cultural, o saque, os processos de desumanização, a degradação ambiental e a corrupção. E é ela também que emburrece e embrutece os indivíduos para que, absolutamente incapazes de fazerem por si o que é necessário para uma vida agradável, se submetam docilmente ao emprego, ao trabalho mandado qualquer que seja[7]; E aí, no currículo oculto de nossa sociedade, que cria indivíduos dóceis e obedientes, as escolas de Presidente Figueiredo também não são inocentes. 

Assim como toda a grandeza da estrutura montada para a festa são também erguidos imensos camarotes onde desfilam políticos e “autoridades” da cidade com “os sues”. Trata-se de espaços de ostentação e de cooptação. O acesso aos camarotes é um privilegio de quem faz parte ou, no mínimo, consente o grupo político. 

Esta festa, assim como várias outras organizadas no mesmo estilo, se constitui por outro lado, como um estratagema para apropriação dos recursos públicos pelos grupos no poder (a “panela”). A Secretaria de Cultura e Evento tem um dos maiores orçamentos. Corredeiras de dinheiro são – ia dizer gastos, mas o termo melhor é pagos – são pagos a termo de serviços, se não sem importância, que pelo menos não valem o dispêndio. 

De quatro em quatro anos os políticos vão a domicílio com o coração do lado direito e da miséria socialmente reproduzida, fazem, com suas ofertas e promessas afáveis de homem para homem, com que os problemas pareçam casos particulares e curáveis por meio de um favor ou uma promessa de emprego[8]

Neste contexto, a afirmação de Adorno[9] de que “a cultura que, de acordo com o seu próprio sentido, não somente obedecia aos homens, mas também sempre protestava contra a condição esclerosada na qual eles viviam, e nisto lhes fazia honra; essa cultura, por sua assimilação total aos homens, torna-se integrada a essa condição esclerosada; assim, ela avilta os homens ainda uma vez”; essa afirmação não poderia ser mais verdadeira.



Maurício Adu Scwhade,
Casa da Cultura do Urubuí, 7/2012


Notas

[1] HORKHEIMER, Max & ADORNO, T. W. “A Indústria Cultural”. Em Teoria da Cultura de Massa. Introdução, Comentários e Seleção de Luiz Costa Lima. Editora Saga, 1969.
[2] O consumidor não é rei, como a indústria cultural gostaria de fazer crer, ele não é o sujeito desta indústria, mas seu objeto. ADORNO. T. W. A Indústria Cultura: página 93. 
[3] “A Indústria Cultural perfidamente realizou o homem como ser genérico, Cada um é apenas aquilo que qualquer outro pode substituir: coisa fungível, um exemplar. Ele mesmo como indivíduo é absolutamente substituível, o puro nada, e é isto que começa a experimentar quando, com o tempo, termina por perder a semelhança”. HORKHEIMER & ADORNO em “A Indústria Cultural”. Em Teoria da Cultura de Massa. Introdução, Comentários e Seleção de Luiz Costa Lima. Editora Saga, 1969: página 181. 
[4] “A idéia de “exaurir” as possibilidades técnicas dadas, de utilizar plenamente as capacidades existentes para o consumo estético de massa, faz parte do sistema econômico que se recusa a utilizar suas capacidades quando se trata de eliminar a fome”. HORKHEIMER & ADORNO em “A Indústria Cultural”: página 175. 
[5] “Mas a afinidade originária de negócio e divertimento aparece no próprio significado deste: a apologia da sociedade: Divertir-se significa estar de acordo[...] Divertir-se significa que não devemos pensar, que devemos esquecer a dor, mesmo onde ela se mostra”. HORKHEIMER & ADORNO em “A Indústria Cultural”: página 180. 
[6] Urubuí é o Rio que margeia a cidade e uma de suas corredeiras é um importante balneário e palco de alguns eventos na Festa do Cupuaçu. 
[7] “Uma coisa é certa: a ideologia vazia de conteúdo não brinca em serviço quando se trata da previdência social. [...]. Ninguém deve dar conta oficialmente de que pensa. Em troca, todos são encerrados, do começo ao fim, em um sistema de instituições e relações, que formam um instrumento hipersensível de controle social. [...] Que em cada carreira, mas sobretudo nas profissões liberais, o conhecimento do ramo esteja geralmente ligado a uma atitude conformista, pode criar a ilusão que este seja o mero resultado de um conhecimento específico. Na realidade, faz parte da planificação irracional desta sociedade que ela, bem ou mal, apenas reproduz a vida de seus fiéis. [...] aquele que não se provê, é mandado para os campos de concentração, ou em todo caso ao inferno do trabalho mais humilde e para as favelas. HORKHEIMER & ADORNO em “A Indústria Cultural”: páginas 184 a 185. 
[8] Mas a Indústria Cultural reflete a assistência […], os assistentes sociais […] e filósofos a domicílio com o coração do lado direito, que, da miséria socialmente reproduzida, fazem, com a sua intervenção afável de homem para homem, casos particulares e curáveis na medida que a depravação pessoal do sujeito não se oponha. HORKHEIMER & ADORNO em “A Indústria Cultural”: páginas 185 a 186. 
[9] ADORNO. T. W. A Indústria Cultura.


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