2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

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quinta-feira, 7 de junho de 2018

MUNICÍPIO DE PRESIDENTE FIGUEIREDO – II


 “O minério anima e enfeitiça”

A rede de rodovias construídas pela Amazônia, incluindo a rodovia BR-174, Manaus-Boa Vista, teve como principal objetivo ligar as minas da região, garantindo a infraestrutura para a sua exploração. As obras enriqueceram empresas de construção e as aliciou para ampliarem os seus objetivos. Assim, as rodovias se tornaram “veias abertas” - na expressão de Eduardo Galeano, - por onde se escoam os recursos naturais, em especial, o minério, deixando para a população local, pouco benefício, mas muitos buracos na floresta e nas estradas...

Na opinião de Robert Goodland, assessor do Banco Mundial a estrada Manaus-Boa Vista teve como objetivo principal a exploração mineral,(1) relegando a segundo plano a sonhada ligação rodoviária das capitais Manaus e Boa Vista. Antônio F. de Souza, em seu livro “Roraima em Revista”/1970, corteja o pensamento do governo: “O minério anima e enfeitiça, Roraima faísca e fascina.”(2) “A BR-174 é fator de integração nacional e de ligação internacional com a Venezuela, nas fronteiras setentrionais da pátria brasileira, cujo subsolo esconde riquezas minerais que se traduzem nas grandes possibilidades econômicas que as estradas ajudarão a descobrir”(3).

Sob o título: “Sondando a Desconhecida Bacia Amazônica – uma investigação de 21 programas de exploração mineral no Brasil” – Max White, geólogo do Geological Survey dos Estados Unidos, publicou em maio de 1973 um artigo que descreve 21 projetos geológicos e de mineração iniciados na Bacia Amazônica como parte de um programa de cooperação entre o Departamento Nacional de Produção Mineral, a Companhia de pesquisa de Recursos Minerais e o Geological Survey dos Estados Unidos, sob o patrocínio do Governo Brasileiro e da Agência para o Desenvolvimento Internacional dos E.U.A. (USAID). De acordo com White, naquela data já havia 225 geólogos e engenheiros realizando investigações minerais na Amazônia – mais de 125 com base em Belém, perto de 40 em Manaus e cerca de 60 em Porto Velho.” (4).

Uma das principais áreas de pesquisa mineral na época se localizava na região dos Kiñá “na parte Noroeste da Bacia Amazônica, no Território de Roraima e no Estado do Amazonas. O artigo de White descreve três grandes projetos nessa região: (1) o projeto Norte da Amazônia, que consiste no reconhecimento geológico e geoquímico de 1.051.840 km2, quase todo o 
território do Brasil ao norte do rio Amazonas; (2) o projeto Roraima, que consiste em trabalhos geológicos numa área de 120 mil quilômetros quadrados na parte setentrional do Território de Roraima, perto da fronteira com a Guiana e a Venezuela; e (3) o projeto Aripuanã-Sucunduri, que cobre uma área de 80 mil quilômetros quadrados nos sistemas de drenagem dos rios Aripunanã, Rooswelt, Guariba, Juma e Sucunduri, na parte Sul do Estado do Amazonas.” (5).

O fato que mais influiu nesse grande número de atividades de prospecção mineral na região, foi a conclusão do projeto RADAM, ou seja, o imenso levantamento aerofotogramétrico e mineral da Bacia Amazônica. Em 1973, quando White publicou o seu artigo, os geólogos do Projeto RADAM já haviam praticamente completado um exame de toda a parte Norte da Amazônia. “De acordo com periódicos especializados em mineração, (lamentavelmente distantes do público nacional), grandes depósitos de minério de ferro, manganês, estanho, bauxita e carvão, haviam sido encontrados na região. O projeto RADAM descobrira também grandes depósitos de colúmbio, tântalo, zircônio, ouro e diamantes. Os resultados desses levantamentos indicavam que a Bacia Amazônica continha um dos mais valiosos e diversificados perfis minerais do mundo” (6).

Durante todo esse período a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais-CPRM, desempenhou um papel importante na abertura da frente de expansão mineral da Amazônia. A CPRM foi criada pelo Governo Militar em 1969 e desde então tem cumprido três funções básicas: 1. melhorar o conhecimento geológico básico do país; 2. fornecer assistência técnica e financeira às companhias ineressadas em sua exploração, tanto estrangeiras como nacionais, para o desenvolvimento da prospecção e da lavra mineral; e 3. patrocinar e desenvolver a base tecnológica para a rápida expansão da indústria de mineração no Brasil.

A área Waimiri-Atroari foi perscrutada desde 1968 por geólogos da Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais – CPRM – e do Departamento Nacional de Produção Mineral-DNPM. Levantaram o potencial mineral do alto e médio Rio Uatumã e afluentes, incluindo as minas do Pitinga em área dos Kiñá.

Em maio de 1969 o Ministro do Interior, Costa Cavalcanti, encaminhou à FUNAI um processo, contendo um plano de urbanização e povoamento de uma faixa de fronteira da Amazônia compreendida entre a Guiana e a Venezuela, elaborado pela empresa amazonense Erolt. “A região proposta no plano abrange o território dos Atroari e dos Waimiri que, prometeram unir-se para enfrentar o homem branco, seu inimigo, interessado em suas terras ricas em minério”.

O conceito de (des)envolvimento na Historia Oficial, portuguesa e brasileira, referente à Amazônia, tem ligação com a alienação dos povos amazônicos e o (des)envolvimento de sua terra e riquezas naturais que são transferidas para outras partes do mundo, sem melhorar a vida da população local e regional. Com a estrada se impôs um novo modelo de poder político e se baniu o modelo comunitário-indígena milenarmente reinante.

A História dos recursos naturais do território Kiñá-Waimiri-Atroari é ilustrativa. No início da colonização o valor que os portugueses procuravam na região do Rio Negro era mão de obra indígena e especiarias. No final do século XIX, o território Kiña começa a ser invadido com novos objetivos: a exploração da borracha, do pau-rosa e a transferência do gado de Roraima para Manaus.

Os “interesses” sempre se organizam e elaboram so seus planos na surdina, sem a consulta e opinião dos segmentos populares. Alheias ao processo, as comunidades locais não tem condições de se organizar em sua defesa. Desta forma, os índios e a população regional, em especial, os pequenos agricultores do rio Uatumã e da BR-174, ficaram à mercê de manipuladores dos empreendimentos que se apossaram de seu território, de suas pessoas e dos seus recursos naturais.

O Governador Danilo Areosa do Amazonas, na oportunidade da morte do padre Calleri, em 1968, protestou contra o pedido de interdição dos trabalhos da BR-174 pela FUNAI: “Esses silvícolas, - referindo-se aos Kiñá, - ocupam áreas das mais ricas do nosso Estado, impedindo a sua exploração
com prejuízos incalculáveis para a receita nacional, impossibilitando a captação de maiores recursos para a prestação de serviços públicos”.(7) E o Governador de Roraima, Fernando Ramos Pereira acrescentava: “Sou de opinião que uma área rica como essa não pode se dar ao luxo de conservar meia dúzia de tribos indígenas atravancando o seu desenvolvimento”.(8) Fica evidente a intenção de afastar os índios a qualquer custo. E eles começaram a sumir a partir de 1968. “...tombaram no silencio da mata, foram sutilmente enterrados e esquecidos no espaço e no tempo” – como refere o sertanista da FUNAI, Apoena Meirelles.(9)

Ao roubo do patrimônio dos índios Waimiri-Atroari e o sumiço de pelo menos 9 aldeias indígenas, seguiram grandes investimentos para o saque das riquezas.

A criação do município de Presidente Figueiredo ocorreu dentro e em função desse acobertamento do saque mineral em terras Waimiri-Atroari.

Casa da Cutura do Urubuí, 7 de junho de 2018,

Egydio Schwade.

(1) Goodland, Robert e Irwin, H. S. – „Amazon Jungle: Green Hell to Red Desert?“ – Amsterdam/1975.
(2) Souza,, Antônio F. de - “Roraima em Revista”/1970.
(3) Idem
(4) White, Max G. – Probing the unkown Amazon Basin – A Roundup of 21 Mineral Explotation Program in Brasil. 
– 05/1973.
(5) Davis, Shelton – “Victims of the Miracle” – Rio de janeiro/1978
(6) Idem
(7) Jornal A Crítica - Danilo Protesta contra Interdição do Alalaú – Manaus, 27-11-19768
(8) Jornal A Crítica – Governador acusa índios pelo atraso de Roraima – Manaus, 05-03-1975.
(9) Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO – 26-10-1975.

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