2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas do Brasil! Que vivam Bem!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Os Índios do Século XXI

[Publicado Originalmente no Jornal Diário do Amazonas de 27 de maio de 2012]
 
 
"Índio quer tecnologia" - berra O Globo, em chamada de primeira página (25/05). Lá está a foto de um guerreiro Kamayurá, que usa um iPhone para fotografar o terreno da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, onde será construída a aldeia Kari-Oca que vai sediar eventos paralelos da Conferência Rio + 20. Ele viajou de barco e de ônibus, durante três dias, com mais vinte índios do Alto Xingu, de quatro nações diferentes. Chegaram na última quinta-feira, para construir a aldeia Kari-Oca.

Na aldeia que eles vão construir formada por cinco ocas - uma delas será uma oca eletrônica hight tech - mais de 400 índios que vivem no Brasil, discutirão com índios dos Estados Unidos, Bolívia, Peru, Canadá, Nicarágua e representantes de outros países temas como código florestal, demarcação de terras, reservas minerais, crédito de carbono, clima, usinas hidrelétricas, saberes tradicionais, direitos culturais e linguísticos. No final, produzirão um documento que será entregue à ONU no dia 17 de junho.
Embora a notícia contenha informações jornalísticas, O Globo insiste em folclorizar a figura do índio. Em pleno século XXI, o jornal estranha que índios usem iPhone, como se isso fosse algo inusitado. Desta forma, congela as culturas indígenas e reforça o preconceito que enfiaram na cabeça da maioria dos brasileiros de que essas culturas não podem mudar e se mudam deixam de ser "autênticas".
A imagem do índio "autêntico" reforçada pela escola e pela mídia é a do índio nu ou de tanga, no meio da floresta, de arco e flecha, tal como foi visto por Pedro Alvares Cabral e descrito por Pero Vaz de Caminha, em 1.500. Essa imagem ficou congelada por mais de cinco séculos. Qualquer mudança nela provoca estranhamento.
Quando o índio não se enquadra nesta representação que dele se faz, surge logo reação como a esboçada pela pecuarista Katia Abreu, senadora pelo Tocantins (PSD, ex-DEM): "Não são mais índios". Ela, que batizou seus três filhos com os nomes de Irajá, Iratã e Iana, acha que o "índio de verdade" é o "índio de papel", da carta do Caminha, que viveu no passado, e não o "índio de carne e osso" que convive conosco, que está hoje no meio de nós.
Na realidade, trata-se de uma manobra interesseira. Destitui-se o índio de sua identidade com o objetivo de liberar as terras indígenas para o agronegócio. Já que a Constituição de 1988 garante aos índios o usufruto de suas terras - que são consideradas juridicamente propriedades da União - a forma de se apoderar delas é justamente negando-se a identidade indígena aos que hoje as ocupam. Se são ex-índios, então não têm direito à terra.
Criou-se, através dessa manobra, uma nova categoria até então desconhecida pela etnologia: a dos "ex-índios". Uma categoria tão absurda como se os índios tivessem congelado a imagem do português do século XVI, e considerassem o escritor José Saramago ou o jogador Cristiano Ronaldo como "ex-portugueses", porque eles não se vestem da mesma forma que Cabral, não falam e nem escrevem como Caminha.
O cotidiano de qualquer cidadão no planeta está marcado por elementos tecnológicos emprestados de outras culturas. A calça jeans ou o paletó e gravata que vestimos não foram inventados por brasileiro. A mesa e a cadeira na qual sentamos são móveis projetados na Mesopotâmia, no século VII a. C., daí passaram pelo Mediterrâneo onde sofreram modificações antes de chegarem a Portugal, que os trouxe para o Brasil.
A máquina fotográfica, a impressora, o computador, o telefone, a televisão, a energia elétrica, a água encanada, a construção de prédios com cimento e tijolo, toda a parafernália que faz parte do cotidiano de um jornal brasileiro como O Globo - nada disso tem suas raízes em solo brasileiro. No entanto, a identidade brasileira não é negada por causa disso. Assim, não se concede às culturas indígenas aquilo que se reivindica para si próprio: o direito de transitar por outras culturas e trocar com elas.
Foi o escritor mexicano Octávio Paz que escreveu com muita propriedade que "as civilizações não são fortalezas, mas encruzilhadas". Ninguém vive isolado, fechado entre muros. Historicamente, os povos em contato se influenciam mutuamente no campo da arte, da técnica, da ciência, da língua. Tudo aquilo que alguém produz de belo e de inteligente em uma cultura merece ser usufruído em qualquer parte do planeta.
Setores da mídia ainda acham que "índio quer apito". Daí o assombro do Globo, com o uso do iPhone pelos Kamayurá, equivalente ao dos americanos e japoneses se anunciassem como algo inusitado o uso que fazemos do computador ou da televisão: "Brasileiro quer tecnologia".
O jornal carioca, de circulação nacional, perdeu uma oportunidade singular de entrevistar integrantes do grupo do Alto Xingu, como Araku Aweti, 52 anos, ou Paulo Alrria Kamayurá, 42 anos, sobre as técnicas de construção das ocas. Eles são verdadeiros arquitetos e poderiam demonstrar que "índio tem tecnologia". O antropólogo Darell Posey, que trabalhou com os Kayapó, escreveu:
“Se o conhecimento do índio for levado a sério pela ciência moderna e incorporado aos programas de pesquisa e desenvolvimento, os índios serão valorizados pelo que são: povos engenhosos, inteligentes e práticos, que sobreviveram com sucesso por milhares de anos na Amazônia. Essa posição cria uma “ponte ideológica” entre culturas, que poderia permitir a participação dos povos indígenas, com o respeito e a estima que merecem, na construção de um Brasil moderno”.
 
Esses são os índios do século XXI. A mídia olha para eles, mas parece que não os vê.

sábado, 26 de maio de 2012

Tragédia Recorrente


Mais uma vez nos surpreendemos com o brutal assassinato de uma adolescente em Presidente Figueiredo. Mas uma vez nos indignamos...

Mas, e quando é que vamos parar para refletir? Não digo pensar no imediato, no calor da dor. Digo refletir profundamente sobre as causas; digo ir além da mera resposta fácil do bode expiatório, do criminoso da vez. Quando?

Que são monstro, não discuto, concordo!!! Mas olhem com atenção as fotos. São jovens!!! São talvez tão vítimas quanto Adriely. Ela que não estará em meio a seus amigos, sorrindo e fazendo sorrir. Mas que tem, quem sabe, o conforto do que está para lá do Terreno.

Eles, coitados, condenados a uma morte viva. Condenados a morte social. Condenados a carregar em cada um dos seus passos na Terra o peso de tão grande crime.

Ela, Eles,tantos outros, todos nós; Ferrugem, Itaituba, ... Todos vítimas! Vitimas fatais; vítimas da angústia; vítimas do medo... Todos vítimas!!

Sim, todos vítimas, mas também culpados!! Uns mais outros menos, mas culpados!! Uns mais conscientes, outros menos, mas todos culpados!!

E para quem ainda não viu sua culpa, digo: estás entre os menos conscientes, mas não posso responder se estás entre os mais culpados!! E acho que não cabe este debate aqui; se o fizermos corremos o risco de mais uma vez buscarmos se esconder atrás de bodes expiatórios.

Cabe, sim, começarmos a ver os problemas.

O problema de pensarmos, quando muito, em políticas para a juventude, e nunca políticas com a juventude. De tratarmos a juventude como incapaz de pensar o futuro, de sonhar o futuro, de viver o futuro. De impedirmos a juventude de criar as políticas públicas, pensar as políticas públicas, viver as políticas públicas. De impedirmos que a juventude pense a cidade e a floresta, viva a cidade e a floresta, construa a cidade e a floresta cultural.

Falo da juventude, mas isso não vale só para a juventude. Vivemos numa sociedade de repressão, onde não se permite uma ampla participação. Numa falsa democracia, onde após um processo viciado de votação prevalece o silencio, a repreção, o jogo sujo, a humilhação do puxasaquismo...

Ôps, ôps, ôps... Não comece a pensar que a culpa é do fulano ou do beltrano político. Não, não, não. É deles também; mas eles também são vítimas. Eles também são prisioneiros deste sistema viciado que só se desconstrói com uma ampla participação da sociedade. Participação e transformação.

Só se desconstrói quando criarmos um ambiente que - para lá dos guetos - discute, critica, ouve, constrói coletivamente apesar das diferenças. Um ambiente onde se pense o futuro um pouco mais para frente; onde o medo de perder o emprego, ou a comodidade de um emprego de ‘carrapato-de-saco’ não impere, não impeça a ação, a denuncia, a crítica e a construção coletiva.

Onde se possa criticar a forma que se organiza a Festa do Cupuaçu sem ouvir que é mera intriga. Onde se possa denunciar que esta forma megalomaníaca leva à violência, à prostituição, à bebedeira. Onde cada um possa ajudar a construir uma política cultural que valorize as pessoas; que valorize o local; que valorize a cultura.

Onde mais que pensar sobre a ação de repressão quando o crime já foi cometido; mais que pensar em correr para chamar a polícia quando o sangue já se misturou a água do Urubuí; mais que achar que fazer justiça é bradar pela morte dos assassinos, que são, como estamos vendo, também vítimas; Pensemos, isso sim, em como criarmos oportunidades de vida. E destaco: Oportunidade de Vida, e não de emprego como muito se pensa que é a solução.

Oportunidade de Vida, de Criação, de Participação, de Envolvimento e de Compromisso com a Sociedade.



Por: Maurício Adu Schwade
Casa da Cultura do Urubuí, 26 de maio de 2012.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Cine & Vídeo Tarumã: Cinema Pela Verdade



[Publicado originalmente por UFAM]


De 30 maio a 1º de junho a UFAM, recebe o projeto Cinema Pela Verdade, no Auditório Rio Negro, do ICHL, com exibições de filmes e realizações de debates. O evento é uma realização conjunta do Cine & Vídeo Tarumã, Núcleo de Antropologia Visual e Instituto Cultura em Movimento e tem o aval do Comando Local de Greve dos docentes, que incorporou as exibições ao seu calendário grevista.

Os filmes selecionados para exibição na UFAM são:


Dia 30 de maio - Quarta Feira -  8h30 - Auditório Rio Negro/ICHL
Cidadão Boilesen [de Chaim Litewski)

O filme indicará para discussão o tema “A Participação do Empresariado na Ditadura Militar”, e terá a presença do professor José Seráfico de Carvalho e do jornalista Aldísio Filgueiras.

O filme Cidadão Boilesen (2009), revela as ligações do empresário dinamarquês Henning Albert Boilesen, presidente do famoso grupo Ultragás, com os militares nos primeiros momentos da ditadura, ajudando no financiamento da violenta repressão e também a sua participação na criação da temível Oban – Operação Bandeirante -, espécie de pedra fundamental do Doi-Codi.




Dia 31 de maio - Quinta Feira -  14h - Auditório Rio Negro/ICHL
Hércules 56 [de Sílvio Da-Rin)

O documentário abordará o tema “Focos de Resistência aos Militares na Ditadura”, com os debates sendo travados com o professor Aloysio Nogueira e o escritor Márcio Souza.

O documentário Hércules 56 (2006) relembra, através de entrevistas com sobreviventes e elaboradores do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick e a sua consequente troca por 15 presos políticos, o fato ocorrido na semana da independência de 1969. Da-Rin e sua câmara “passeia” pelos rostos de Cláudio Torres, Daniel Aarão Reis e Franklin Martins, dirigentes da Dissidência da Guanabara (DI-GB), que idealizou a ação e adotou a sigla MR-8, e Manoel Cyrillo e Paulo de Tarso Venceslau, os dois únicos remanescentes da Ação Libertadora Nacional (ALN), que realizou conjuntamente a operação. Na operação, foi divulgado um manifesto revolucionário e a troca dos presos políticos, que foram banidos do território nacional e levados ao México no avião da FAB Hércules 56. Além das entrevistas, o filme lança mão de várias imagens de arquivo que retratam as condições de atuação política no final dos anos 1960, a libertação dos presos políticos, a curta permanência no México e o período vivido em Cuba, terminando por avaliar a experiência da luta armada no Brasil.


1º de junho - Sexta Feira - 8h30 - Auditório Rio Negro/ICHL
Condor [de Roberto Mader)

O filme aborda o tema “Reflexos da Ditadura Militar na Vida Social” que será debatido com a professora Arminda Mourão e o filósofo e indigenista Egydio Schwade. Nesta última sessão, estará presente o diretor do filme, Roberto Mader, que também discutirá particularidades do filme e de suas intenções.

Condor (2007) é uma referência direta à “Operação Condor”, conexão entre as ditaduras militares do Cone Sul nos anos 1970, que resultou no sequestro e assassinato milhares de pessoas e no exílio de tantas outras. O documentário é uma análise contemporânea destes eventos, trazendo uma história de terrorismo de estado, mas também de pessoas e da procura pela verdade e justiça. Entre os entrevistados estão o general Manoel Costreras (braço direito de Pinochet), Pinochet Jr., Jarbas Passarinho e Hebe de Bonafini (Madre de Mayo), assim como outras vítimas, ativistas políticos e seus parentes. O filme foi vencedor dos prêmios de Melhor Documentário no Festival do Rio e em Gramado em 2007. Finalizando a mostra, estará presente a esta sessão o diretor Roberto Mader, que incorporará a mesa de debates.

As exibições ocorrerão no Auditório Rio Negro, localizado no ICHL, com entrada gratuita. Para maiores informações, consulte o blog do Cine Video Tarumã, a comunidade do orkut (“Cine Vídeo Tarumã – UFAM”); no twitter. Ou no grupo do facebook.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Para Duas Mulheres

[Publicado originalmente em D24]




Ambas unidas pela fé lutavam pelo que acreditavam. Ambas escolheram a Amazônia como palco de suas ações. Ambas já nos deixaram, uma de ‘morte matada’, assassinada num dos bárbaros crimes que ocorrem nesta Amazônia sem fim, a outra de ‘morte morrida’, de males que só nestes trópicos há.

Ambas levavam a vida adubando a terra e semeando, cuidando da mata e dos bichos, mas cuidaram mesmo foi de gente, especialmente dos injustiçados. Ambas foram radicais e não faziam concessões na defesa do que acreditavam, porém suas radicalidades tinham um quê de ternura, de afeto e de leveza, pois o que lhes impulsionava era o amor à vida em toda a sua plenitude. Uma conhecido movimento pastoral, pois a partir dos anos 1990 não havia uma reunião para se discutir a Amazônia na perspectiva dos mais simples que seu nome não fosse citado. A outra tive o privilégio de conhecer pessoalmente e de aprender muito com seus ensinamentos.

É sobre esta que escrevo o que dela conheci no dia a dia. A casa que construiu não tem portas nem janelas, visto que sempre está aberta a todas as pessoas do mundo, de várias línguas, de diferentes credos, alguns buscando aprender, outros contribuindo e outros tantos apenas experimentando outro modo de viver. Para ela não havia felicidade maior do que acolher e compartilhar.

Tive o privilégio de assistir ao crescimento de seus filhos e à casa inteira se transformar de doces, de mel, de amor em experiências de solidariedade como se aquela casa no interior da Amazônia fosse um cantinho construído para mudar o mundo.

Há pouco mais de um ano Ela nos deixou, quando um mal súbito nos privou de seus ensinamentos, conselhos, receitas naturais e da alegria de acolher. Foram uns poucos dias de sofrimento e ela, que cuidava de todos, não cuidou suficientemente de si e foi cuidar de outros num recanto qualquer do universo.

Lembro-me com exatidão do seu velório, em que acadêmicos, intelectuais, membros de organizações sociais, políticos, sobretudo gente simples, vieram de vários lugares para lhe prestar homenagem. Era um dia de domingo e a mãe terra que ela ajudou a cultivar a recebeu para sempre. A terra estava úmida, resultado das primeiras chuvas de dezembro a contradizer-se com o sol escaldante de uma morna manhã. A floresta dava contorno ao cenário. Ouvia-se um longo silêncio, nada havia para se dizer. Palavra alguma seria capaz de expressar o que foi essa grande mulher que escolheu a Amazônia para viver. Com ela se foi um pouco de cada um que estava ao seu redor e de outros tantos espalhados pelo mundo. Conosco fica vivo seu exemplo de coerência e dedicação às boas causas e a memória de luta e persistência em defesa da Amazônia e de sua gente.

O silêncio foi rompido pelo canto de um pássaro a encorajar as últimas homenagens. Em seguida, até o pássaro cessou seu canto e novamente predominou o silêncio, como para expressar, que nessas ocasiões nada há a dizer, o silêncio comunicou o estado de espírito.

Para duas grandes mulheres, Dorothy Stang e Doroti Schwade simplesmente uma palavra: obrigado, seus exemplos continuarão, pois lutar é preciso.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Belo Monte: Brazil's damned democracy

[Publicado originalmente por: Al Jazeera]

The Belo Monte dam project shows the government's failure to respect indigenous rights and reform energy policy.



The Belo Monte Dam will be the third largest in the world, displacing around 200,000 people [EPA]


Quito, Ecuador- It's rather ironic to find commonalities between President Rousseff's government and past Brazilian military regimes. Brazil's President Dilma Rousseff is particularly emblematic of democracy's victory over dictatorship.

Not only has she consolidated democratic politics and overseen continued growth in the world's sixth largest economy, Brazil's first female head of state was once a guerrilla jailed and tortured by the military regime. She has pushed for a Truth Commission, forcing the military to bend to accountability and transparency.

Simultaneously, however, she is pushing forward the Belo Monte Dam, the largest in Brazil and the third largest in the world, thus following in the footsteps of the developmental policies the military regime once pursued in the Amazon.

Belo Monte perpetuates military strategies to develop the country by modernising the Amazon. Despite widespread opposition against the social and environmental costs of this huge hydroelectric plant, Rousseff has stubbornly advanced with little respect for national and international norms.

Across the region, mega-projects are drowning entire ecosystems and damning democracy. Beyond the long-term, irreversible impact of the Amazon dams, the tale of Belo Monte calls attention to what the left has yet to learn about democracy.

From Balbina to Belo Monte

Many predict Belo Monte will be another Balbina. Built on the Uatuma River, the Balbina hydroelectric plant was one of the many mega-projects the military government (1964 - 1985) constructed in the Amazon in the name of national development. The plant, which cost about a US $1bn, destroyed 240 thousand hectares of forest. To give an idea of the scale, this represents about seven times the Guanabara Bay in Rio de Janeiro.

Balbina began operations in 1989 with devastating human and ecological impacts. It drowned fauna, flora and contaminated water supplies, resulting in food and health problems. It also displaced populous indigenous villages located along the Uatuma. In 1988, the year Brazil approved its current democratic constitution, Egydio Schwade denounced Balbina's suppression of the Atroari communities in the area. The eight villages initially reported in government records in 1972 became six a couple of years later, then only two were officially relocated once the area was submerged.

Balbina became the classic example of what not to do. Its energy production never justified the extent of destruction. The lake inundated 2360 km2 for an energy potential of 250MW, reportedly providing a steady output of 80MW for the city of Manaus today. Balbina is also criticised for emitting more greenhouse gases than would be produced by burning natural gas for comparable electricity generation. As the country's most inefficient plant, it is considered the largest environmental disaster in Brazilian history. José Goldemberg, a leading Brazilian scientist at the World Commission of Dams, recommended closing it and keeping the building as a monument to humanity's insanity.

Belo Monte will submerge a huge forest area with a limited energy potential, promising similar consequences. It is expected to displace about fifty thousand people in the municipality of Altamira alone. Even official reports predict Belo Monte will function below the average efficiency of hydroelectric dams in Brazil, merely at 41 per cent of total capacity. Nevertheless, the government justifies the dam to sustain growth and eradicate poverty, guaranteeing the project's sustainability by assuring the Xingu River will have enough water for indigenous people to fish and navigate, "even during periods of drought".

Without prior consultation

Belo Monte has generated widespread opposition, in Brazil and abroad. In fact, almost everyone agrees it's a bad idea. The project was resisted by local and global civil society groups, condemned by scientists, and ordered to stop by Brazil's Public Ministry. Public figures and actors produced a video asking citizens to take action for the sake of future generations. Nearly a thousand indigenous peoples stood their ground in protest for a week in front of the Brazilian Congress. Stirring international attention, international NGOs and intergovernmental bodies have expressed their disapproval and demanded for accountability.

Belo Monte already has a record for violating the human rights of indigenous peoples. The Brazilian Public Ministry ordered a halt to construction because of concerns regarding human rights violations. The Inter-American Commission on Human Rights requested clarification concerning the fate of the traditional communities in the Xingu River basin, especially regarding the impact of water contamination and population displacement. Subsequently, the International Labour Organisation declared that Brazil's failure to consult on the mega-dam violated its treaty obligations to respect the rights of indigenous peoples.

The Belo Monte case crystallises the debt of the Brazilian state to indigenous peoples. Since 1991, Congress has been deliberating on the Statute of Indigenous Peoples and has still not approved a proposal to demarcate and protect indigenous lands. Most of the small farmers displaced by Belo Monte have no formal legal title to their lands, and those who have received compensation got paid well under market value. According to the Catholic Church's Indigenous Missionary Council, 434 projects will directly impact or indirectly impact indigenous territories. Almost 200 of these projects are geared toward energy production, many of them hydroelectric plants.

This is but a snapshot of the rights Brazilian democracy owes to half a million indigenous peoples from 227 ethnic groups who occupy 13 per cent of the national territory.

Hydro-politics

The Belo Monte affair exemplifies a certain approach to hydro-politics. The problem is not exactly the stubbornness of President Rousseff but rather what the government's failure to respect indigenous rights and to rethink energy policy in a collective manner says about the quality of democracy. Eschewing informed, prior consultation regarding the wisdom of mega-infrastructure projects in the Amazon makes visible the disdain for indigenous rights and authority, while awkwardly recalling the policies of the dictatorship. The deaf ear for critics and the impunity for violating international norms evoke top-down decisions made behind closed doors.

Then there is the regional context. Across the Americas, energy policies, and hydroelectric projects in particular, are being imposed in a similar authoritarian fashion. President Obama is permitting Shell to drill in the Arctic Ocean despite widespread opposition ranging from indigenous peoples to scientific groups. On February 14 2011, the Colombian government violently removed protesters blocking plans to divert the Magdalena River for the Quimbo Dam. In the entire Amazon, there are reportedly 150 hydroelectric plants planned, 60 of them in Brazil. The Belo Monte dam rings the alarm bell because of its scale, but Rousseff is not alone.

While successful left-wing governments may be promoting socio-economic inclusion, their energy policies all too frequently evade consultation and dismiss social protest as well as contrary scientific studies. Invoking a discourse that subjugates the means to an end of development, Rousseff justifies Belo Monte as a necessary component of growth. But she, of all people, should not ignore the importance of consensual and participatory decision-making.

More than a decade ago, Nobel Prize winner Amartya Sen stressed three important ways in which democracy enables development. First, he observed, democracy is intrinsic to freedom - it is inherently fair to express opinions on energy policy. Second, democracy is instrumental to expand freedoms - people have stakes on which energy policies to develop. Third, democracy plays a constructive role in identifying solutions to new challenges- the growing demand for energy has no immediate, single solution thus requiring collective dialogues to create new solutions.

Democratic politics is key to developing alternatives capable of holding national governments and the global energy industry accountable. Belo Monte is about the future of the Amazon as much as it is about bauxite mining and global industries and state policies that respect indigenous rights to self-determination.

To rethink energy policy - and Belo Monte - is not to give in to hippie views of the world. It is about recognising the value of collective decision-making. "The more, the merrier," people say. We could add "the more, the smarter".

Manuela Picq has just completed her time as a visiting professor and research fellow at Amherst College.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Turma do Curso de Agroecologia da UEA de Itacoatiara faz Visita Técnica à Casa da Cultura do Urubuí



A carreira de agroecologia é ainda nova no Brasil. No estado do Amazonas duas instituições de ensino superior – Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM) – já oferecem cursos de graduação nesta área. Nos dias 15 e 16 de maio de 2012 tivemos a alegria de receber a turma de Agroecologia do campos de Itacoatiara da UEA para uma visita técnica que teve como propósito discutir experiências de agricultura amazônica.

Embora a carreira de agroecologia ainda seja pouco conhecida, é talvez a mais importante no contexto Amazônico dentro do universo dos cursos de Ciências Agrarias. Primeiro porque assume o papel de conciliar o conhecimento científico com o conhecimento dos povos amazônico. Segundo porque assume o desafio de desmistificar a pseudociência que muitas vezes se verifica na academia quando esta procede a um simples copiar de técnicas de agricultura de outras regiões e aplicar na forma de receita pronta, sem uma mínima contextualização ao ambiente social e ecológico regional, acarretando sérios danos ambientais.

Com isso, abre-se a possibilidade de uma reconciliação dos caminhos que levam a satisfação humana e a manutenção do ambiente. Caminhos estes que só podem existir efetivamente quando juntos, já que falar em desenvolvimento sem pensar nas questões ambientais é espalhar uma ilusão, uma vez que não pode haver bem estar humano sem conforto ambiental. Cuidar do ambiente é cuidar das pessoas.

Por tudo isso nós, participantes da Casa da Cultura do Urubuí (CACUÍ), a partir de esperiências concretas, temos apoiado os debates em torno da agroecologia e recebido grupos como este da UEA-Itacoatiara, num constante intercâmbio em busca de reforçar e aprofundar os conhecimentos que retomem o caminho da sustentabilidade iniciado pelos povos Indígenas.



Casa da Cultura do Urubuí, 17 de maio de 2012.
Por Maurício Adu Schwade.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Criado o Comitê Pela Verdade, Memória e Justiça do Amazonas


 
Mais de 100 pessoas participaram, nesta segunda-feira, do encontro para formação do Comitê pela Verdade, Memória e Justiça do Amazonas. Entre os participantes estava o representante da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Gilney Viana. O comitê terá como principais desafios o levantamento completo dos desaparecidos políticos e dos mais de 2 mil Waimiri-Atroari massacrados entre as décadas de 1960 e 1980, durante a Ditadura Militar.

O desaparecimento de indígenas ocorreu em toda a Amazônia, porém eles não constam nas listas oficiais dos desaparecidos. Com a inclusão dos Wamiri-Atroari nas listas oficiais, o número de vítimas da Ditadura deve triplicar. O comitê deve auxiliar a Comissão da Verdade, da presidência da república, a responder lacunas como: “Por que kamña (civilizado) matou Kiña (Wamiri-Atroari)?”, “O que é que kamña jogou do avião e matou Kiña?”, “Apiyeme-yekî” (por quê)?.

 
Participam da coordenação do Comitê pela Verdade, Memória e Justiça do Amazonas os seguintes:

Egydio Schwade (CACUí)

Paulo Monte (Professor da UFAM)
Antônio Fábio Mendonça (OAB)
Hideraldo Lima da Costa (ANPUH)
Wilson Carlos Braga Reis (Sindicato dos Jornalistas)
Associação dos Sociólogos
Gabinete do Deputado José Ricardo (PT)
Luiz Navarro (PCB)
Gerson Medeiros (PSOL)
Oswaldo Coelho (Advogado)
Carlos Gomes Aragão (Pesquisador)
José Ribamar Mitoso (Professor UFAM)
Vitor Cruz e Silva (estudante de direito)
Paloma Maquiné da Silva (estudante de direito)
Adriano Gonçalves Feitosa (estudante de direito)
Thales José da Silva Feitosa (estudante de direito)
Aline Vasques Castro (estudante de direito)
Casa da Cultura do Urubuí, 14 de maio de 2012. 



Maiká Schwade

Waimiri-Atroari – a Guerra velada e revelada


Foto: Beto Oliveira (Câmara dos Deputados), 09 de maio de 2012.
Contra os Waimiri-Atroari se realizou uma "guerra relâmpago”. Ao citar essa frase, Egydio Schawade concluía seu depoimento na Comissão da Verdade, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, em Brasília. Seus olhos começaram lacrimejar. Era um início de tarde agradável na capital federal. 
No dia 9 o plenário 9 recebeu um curioso e indignado público. Estava se começando a revelar um dos mais cruéis crimes cometidos pela ditadura militar contra um povo indígena. Existem indícios de que no período de dez anos (1967 a 1977) no período da construção da BR 174, que liga Manaus a Boa Vista, foram exterminados em torno de 2 mil Waimiri-Atroari. Esse povo resistiu bravamente contra a invasão de seu território.
A guerra santa do desenvolvimento a qualquer custo, ontem e hoje, continua fazendo milhares de vítimas, em sua grande maioria anônimos, ocultados, enterrados pela história do colonizador, dos interesses dominantes. Foi o que expressou o secretário do Cimi, Cleber Buzatto, ao iniciar os depoimentos do massacre e genocídio dos Waimiri-Atroari. Fez menção à construção da hidrelétrica de Belo Monte, que está sendo construída às custas de enormes e irreversíveis impactos sociais e ambientais. 

Foto: Beto Oliveira (Câmara dos Deputados),
09 de maio de 2012

Egydio, em seu depoimento de um pouco mais de meia hora, trouxe inúmeros documentos e informações que mostram como o palco e desenrolar a guerra contra os Waimiri-Atroari e sua resistência. Disse, em seu depoimento contundente: "Em junho de 1985, sentado em companhia de dois Waimiri-Atroari na calçada em frente ao prédio da FUNAI, aqui em Brasília, um deles me perguntou à queima-roupa: "O que é que civilizado joga de avião e que queima o corpo da gente por dentro?”. Teria sido napalm? Em aula, mais tarde, as perguntas se sucediam: "Por que kamña (civilizado) matou Kiña?”; "O que é que kamña jogou do avião e matou Kiña?”; Kamña jogou kawuni (de cima, de avião), igual a pó que queimou garganta e Kiña morreu”. "apiyeme-yekî”=por quê?”.

Para ilustrar a forma bélica utilizada para vencer a resistência dos Kiñá trouxe uma afirmação do sertanista Sebastião Amâncio, substituto de Gilberto Pinto, publicado em O Globo: "Os Waimiri-Atroari precisam de uma lição: aprender que fizeram uma coisa errada. Vou usar mão de ferro contra eles. Os chefes serão punidos e, se possível, deportados para bem longe de suas terras e gente. Assim, aprenderão que não é certo massacrar civilizados (...). Irei com uma patrulha do Exército até uma aldeia dos índios e lá, em frente a todos, darei uma bela demonstração de nosso poderio. Despejaremos rajadas de metralhadoras nas árvores, explodiremos granadas e faremos muito barulho, sem ferir ninguém, até que os Waimiri-Atroari se convençam de que nós temos mais força do que eles”.

De forma maquiavélica e cruel, o sistema foi invadindo o território, matando e subjugando seu povo, abrindo aos interesses do grande capital nacional e internacional. Ficam os monumentos à insanidade, como a hidrelétrica de Balbina, os buracos e rastro de destruição deixados pela mineradora Paranapanema e pela atual Taboca. Como dizia o sertanista Apoena Meirelles, quando coordenador da Frente de Atração Waimiri-Atroari, em 1975”.

Infelizmente um manto de silêncio se lançou sobre esse crime. "A FUNAI, como principal testemunha do desaparecimento dos Waimiri-Atroari, se mantém hoje estrategicamente à distancia dos novos acontecimentos, enquanto a empresa que alagou grande parte da Reserva, dirige o destino desse povo”.

Egydio nos relatou com emoção o tempo em que viveu com sua família entre os Waimiri-Atroari, desenvolvendo um importante trabalho na área de educação: "Foi o período mais feliz de minha vida”.

O antropólogo da UNB, Stephen Baines, que também foi expulso da terra indígena Waimiri-Atroari, não apenas confirmou os indícios da morte de aproximadamente 2 mil indígenas desse povo, por ocasião da construção da estrada, mas acrescentou vários elementos que corroboram essa denúncia. Outros depoentes expuseram fatos relacionados às políticas que levaram à morte milhares de indígenas por esse Brasil afora. A Funai e a Eletronorte não enviaram seus representantes.

Momento histórico
Todas as manifestações e depoimentos ressaltaram a importância dessa audiência pública, qualificando-o como "momento histórico”. Porém não pode ficar na denuncia. Teremos que fazer justiça, e principalmente evitar que se continue cometendo essas barbaridades contra os povos indígenas.

Ao começarmos a desvendar essa triste memória, não apenas daqueles que enfrentaram diretamente a ditadura, mas de todos os que foram vítimas do mesmo regime, como é o caso dos Waimiri-Atroari.

A verdade continuará sendo revelada. Viva o heroico e resistente povo Kiñá!

Povo Guarani Grande Povo
Cimi 40 anos, 11 de maio de 2012.
Egon Hech

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Criação da Comissão da Verdade, Memória e Justiça do Amazonas


Convite

O Comitê para a Criação da Comissão da Verdade, Memória e Justiça no Estado do Amazonas tem o prazer de convidar todos os interessados para colaborar com a criação da Comissão da Verdade, Memória e Justiça do Amazonas que ocorrerá no dia 14 de maio de 2012 (segunda-feira), às 14:00 horas, no Auditório Rio Negro da Universidade Federal do Amazonas - UFAM.
A comissão terá como objetivos principais debater, registrar e divulgar os casos de desrespeito aos direitos humanos cometidos durante a Ditadura Militar no Estado. 

Respeitosamente,


Presidente Figueiredo, 10 de maio de 2012


Egydio Schwade
Pelo Comitê para a Criação da Comissão da Verdade, Memória e Justiça
no Estado do Amazonas


Comissão da Verdade quer Tornar Público Massacre de Indígenas Durante Regime Militar

Debate na Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça. Foto: Beto Oliveira, 09 maio de 2012.
Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça da Câmara quer tornar público os assassinatos de dois mil índios durante o regime militar, entre os anos de 1972 e 1975. Os índios da etnia waimiri-atroari eram contrários à construção da BR-174, que liga Manaus e Boa Vista e corta a área original da reserva indígena no Amazonas.

A denúncia foi veiculada no jornal A Crítica de Manaus no dia 8 de abril e levou a Comissão Parlamentar da Verdade à realização de audiência pública nesta quarta-feira. A presidente da comissão, deputada Luiza Erundina, do PSB de São Paulo, criticou a ausência da Funai e da Eletronorte, que foram convidadas para participar da audiência. Luiza Erundina reiterou que não se pode esquecer a história desses índios.

"Não dá porque são minoria - e são minoria exatamente pela forma como os brancos os trataram e como o Estado brasileiro historicamente tem tratado esse segmento da população brasileira - que as coisas se dão dessa forma e sequer chegam ao conhecimento da opinião pública."

O indigenista missionário Egídio Schwade informou que existem documentos do Exército descrevendo ações para assustar os indígenas com o objetivo de concluir as obras da rodovia na época. Egídio Schwade afirmou que esse período da história brasileira ainda é muito nebuloso e precisa ser esclarecido.

"Eu acho que não pode deixar adormecer um massacre desse tão perto. A gente tem hoje sobre massacres de 150 anos, se tem detalhes, pormenores muito importantes e sobre esses aí, quase nada, né?"

Egídio Schwade reclamou da falta de acesso aos indígenas. Ele explicou que as informações que chegam são passadas pela Eletronorte, que coordena o programa waimiri- atroari.

Luiza Erundina informou que vai enviar um requerimento de informação para que a Eletronorte e a Funai enviem dados sobre os índios waimiri-atroari. A comissão vai ouvir na próxima quarta-feira(16) os representantes dos camponeses que também sofreram com o regime militar.


De Brasília, Karla Alessandra
[Rádio Câmara]

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça Discute o Desaparecimento de Mais de 2000 Waimiri-Atroari sob a Ditadura Militar

[Publicado Originalmente por Rogelio Casado no PICICA]

Egydio Schwade indo para o Debate em Brasília
PICICA: O desaparecimento de 2000 índios Waimiri Atroari durante a ditadura militar foi discutido pela primeira vez na Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça presidida pela deputada Luiza Erundina.

Segundo a jornalista amazonense Verenilde Pereira, residente em Brasília, presente à sessão, a representante da FUNAI, Francisca Picanço, que é "assessora parlamentar", não compareceu, nem mandou recado. Isto irritou os parlamentares e o deputado Chico Alencar chegou a dizer, em alto e bom tom: "A assessora está "gazetando” trabalho".


Participaram da sessão Setephen Baines, antropólogo da UNB, e Egydio Schwade, ex-missionário do Cimi, autor da denúncia do desaparecimento dos Waimiri-Atroari, sob o qual dedicou vários textos em seu blog
Casa da Cultura do Urubuí [Série de textos 2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos da Ditadura Militar: 19/02/2011; 13/03/2011; 15/05/2011; 04/09/2011; 06/02/2012 e 09/04/2012].

Seus textos chamaram atenção da jornalista Elaíze Farias, do jornal A Crítica, de Manaus, que dedicou uma matéria especial sob o caso, de grande repercussão nacional. Emocionada, Elaíze fez sua apresentação, tocando a fundo os corações e mentes dos presentes.


Sthephen Baines chocou os presentes por ocasião do relato de suas pesquisas, com comentários estarrecedores sobre a atuação do Exército brasileiro. Os deputados Jean Willis (PSOL) e Érika Kokai (PT), seguidos por seus pares, exigiram explicação da FUNAI e Eletronorte - cujos representantes literalmente encolheram-se nas cadeiras.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Comissão Discute Possível Massacre de Índios Durante Regime Militar

A Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça realiza na quarta-feira (9), às 14 horas, audiência pública sobre a denúncia de massacre da etnia indígena waimiri-atroari durante o regime militar. O debate do colegiado, que faz parte da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, será no Plenário 9.

A deputada Luiza Erundina (PSB-SP), que propôs a audiência, explica que o jornal A Crítica, do Amazonas, publicou matéria sobre o desaparecimento de cerca de 2 mil indígenas no estado, entre 1972 e 1975.

Segundo a reportagem, os waimiri-atroari eram vistos, pelos militares, como um empecilho para o desenvolvimento da região pelo fato de resistirem à construção de uma estrada – a BR-174, que liga Manaus a Boa Vista. Erundina ressalta que eles não aparecem na lista oficial de desaparecidos políticos, nem na de vítimas de violação de direitos humanos durante a ditadura.

“O massacre aconteceu por etapas e envolveu diferentes órgãos do regime militar”, diz o indigenista e ex-missionário Egydio Schwade, que foi convidado para o debate. Ele defende a inclusão dos waimiri-atroari nas investigações da Comissão Nacional da Verdade, criada em novembro de 2011 pela Presidência da República.

Além do indigenista, foram convidados para a audiência:

- o secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário, Cleber Buzatto;
- o representante da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Gilney Viana;
- a repórter do jornal A Crítica, Elaize Farias;
- a presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marta Maria Azevedo;
- e um representante da Eletronorte.




Agência Câmara de Notícias, 07 de maio de 2012.





Da Redação/DC 'Agência Câmara de Notícias'

domingo, 6 de maio de 2012

Da Selva Profunda, o Grito no Asfalto


[Publicado Originalmente no Blog do Egon Hech]

“Saímos de casa há um mês e dois dias”, revelam algumas das lideranças dos seis povos indígenas do Acre há uma semana em Brasília. Reuniram com dezenas de órgãos públicos, elaboraram e protocolaram ou entregaram inúmeros documentos às autoridades, expuseram a dramática situação por que passam a maioria das comunidades indígenas no Estado do Acre, fizeram emergir do fundo da floresta ao coração do poder, o grito “Estamos morrendo. Que o mundo saiba. Façam alguma ação urgente. Não aguentamos mais. A saúde indígena nunca esteve tão pior..”

Os quarenta caciques, dos quais alguns viajaram por mais de duas semanas a pé, de canoa e ônibus, para chegar até Brasília, foram unanimes e enfáticos em seu clamor, no relato de suas dores, na exigência de providências imediatas. “Estamos aqui numa voz só. Viemos mostrar e falar a realidade, a verdade sobre o que se passa com nossas comunidades. Hoje expressamos nossas palavras até o mais profundo dos vossos corações parar desabafar todos esses anos de dores, doenças, desespero, genocídio, perseguição, que já não pode mais ser silenciado...” escreveram os Jaminawa em documento à presidente da República, parentes e autoridades.

Das mais distantes aldeias dos povos indígenas do Acre a voz insurgente da gente primeira, denunciando o sistema de morte, dor, ameaças, abandono a que estão submetidas. Parece até um filme. A maioria das pessoas que por horas ouviram atentamente os caciques, ficam embasbacadas “Nunca pensei que isso pudesse ser assim no Acre. As informações que tínhamos eram de uma beleza e tranquilidade paradisíaca.” Essa perplexidade de muitos membros dos órgãos públicos e entidades, surgem como riscos no cartão postal propalado pelo Brasil e mundo afora por muito anos.

Durante uma semana os caciques e lideranças fizeram uma maratona de audiências, depoimentos contundentes, debates acalorados mas sempre respeitosos e conscientes, entrega de documentos e denúncias... Apesar do cansaço, da estranheza e dureza de salva de pedras do poder, em nenhum momento perderam a alegria, a esperança e a certeza de que essa é uma dura luta que está apenas começando.

Vistosos cocares, corpos pintados, flechas e bordunas, armas da indignação, revolta e paz, os caciques deram visibilidade ao grito de vida e morte ecoado das aldeias mais distantes desse grande Brasil, em acres tempos.

Cimi 40 anos, 5 de maio de 2012