2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas do Brasil! Que vivam Bem!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Caixa para Criação de Abelhas Indígenas Modelo Cacuí

Nos quase 20 anos cultivando abelhas nativas na Amazônia e partilhando conhecimentos com indígenas e camponeses, temos procurado constantemente criar e estimular o desenvolvimento de modelos de Caixas adaptadas a cada espécie. Nesse processo já desenvolvemos alguns modelos que consideramos eficientes para o cultivo de diversas espécies de abelhas sem ferrão. Neste pequeno texto queremos apresentar o Modelo Cacuí, que temos utilizado no cultivo de abelhas do gênero Duckeola, em especial, mas que também se mostrou muito prática para abelhas do gênero Melipona, Scaptotrigona e algumas outras abelhas que constroem favos horizontais.

Este modelo é composto por compartimentos sobrepostos que tem o mesmo formato. A única particularidade na estrutura básica dos compartimentos é que um deles apresenta um orifício para entrada das abelhas. No mais todos têm as mesmas dimensões. O tamanho dos compartimentos pode variar de acordo com a espécie de abelha. Aqui vamos explicar o modelo a partir das medidas que temos utilizado com mais freqüência e que é o ideal para Duckeola ghilianne. Cada compartimento mede internamente 20cm de comprimento e também 20cm de largura. Como utilizamos madeira de 2,5cm de espessura, as medidas externas de comprimento e largura ficam em 25cm. A altura dos compartimentos deve ser em torno de 7cm para facilitar o manejo.

Em duas laterais opostas de cada compartimento é feito um pequeno friso de aproximadamente três milímetros (0,3cm) onde se encaixam sarrafinhos. E é justamente neste sistema de sarrafos encaixados que se encontra “o pulo do gato”, como se diz no dito popular. Do friso de um lado da caixa até outro na lateral oposta se põem sarrafinhos em quantidade e disposição diferentes, de acordo com a necessidade ou a função que se deseje que o compartimento exerça.

Para estar completa a caixa ainda é composta de tampa e fundo que tem a mesma forma, medindo 25 por 25 centímetros. No lado que fica para fora da caixa é conveniente pregar dois sarrafos em extremidades opostas e em sentido contrário a fibra da madeira da tampa e fundo para evitar que esta empene e para servir de suporte.

Ainda no caso de abelhas Duckeola ghilianni a caixa é composta da seguinte forma: Sobre o fundo normalmente se põe o compartimento com o orifício de entrada, embora isso não precise ser tomado como regra geral. Neste primeiro compartimento põe-se de dois a três sarrafinhos na parte superior. Os dois ou três seguintes compartimentos normalmente abrigarão o centro do ninho, onde as abelhas depositarão suas crias. Nestes compartimentos normalmente se põe três sarrafos na parte de baixo do compartimento e dois na de cima. Nos andares superiores frequentemente serão depositadas as principais reservas de mel. Por isso é onde o meliponicultor fará a maioria das coletas. Nestes compartimentos se colocam até quatro sarrafinhos embaixo, que servirão de suporte para os potes de mel e dois na parte superior. No entanto muitas vezes as Duckeola não dispõem desta forma seu ninho.

É comum encontrarmos as crias nos compartimentos superiores. Neste caso a ordem dos compartimentos pode ser mudada. A recomendação é de que onde estão as crias os compartimentos sejam com dois ou três sarrafos embaixo e onde está o mel quatro. Esta disposição facilita o manejo. De todas as formas se as abelhas utilizarem compartimentos de mel para cria não haverá grandes dificuldades para o manejo. É importante nunca se esquecer de colocar pelo menos dois sarrafos em cada compartimento.

Os compartimentos devem ser acrescentados preferencialmente apenas quando os demais já estiverem ocupados. Temos utilizado até 7 (sete) compartimentos para as colméias mais fortes de Duckeola.

Para abelhas do gênero Melípona utilizamos o orifício sempre no compartimento inferior. Neste compartimento pomos apenas dois sarrafos na parte superior. O compartimento seguinte leva normalmente dois sarrafos na parte inferior. Para Melípona Fulva, a Melipona que mais cultivamos, normalmente, estes dois compartimentos são suficientes. Porém, pode-se pôr um terceiro compartimento sobre os demais com quatro sarrafos em sua parte inferior que será utilizado como melgueira.

Alguns amigos nossos estão utilizando este modelo para outras espécies de Melipona, inclusive para Melipona seminigra. Para esta se utiliza até cinco compartimentos sendo o primeiro com orifício de entrada e sem sarrafos; o segundo e terceiro com dois sarrafos na parte de baixo e dois na parte de cima, como sobreninhos; e o quarto e quinto com quatro sarrafos embaixo, como melgueira. O processo de manejo ocorre da mesma maneira que com a caixa desenvolvida por Fernando Oliveira e utilizada pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia – INPA. Porém vemos como vantagens na caixa Cacuí o fato de as abelhas terem menos obstáculos para se locomoverem no interior da colméia, ser mais fácil de construir e facilitar a acomodação do ninho quando de transferências da natureza, como explicaremos adiante. A colocação correta dos sarrafos nos sobreninhos permite realizar desdobramentos da mesma maneira que se faz com o modelo Fernando Oliveira.

Nas transferências da natureza, esta caixa permite ajustar o espaço interno para não ser necessário desmanchar a estrutura do ninho das abelhas. Neste procedimento deve-se sempre por sarrafos no compartimento de baixo para que os favos transferidos não fiquem em contato com o assoalho da caixa. Isso, mais o cuidado para não danificar os favos de cria, minimizam muito os riscos de ataques de forídios. Com a utilização deste sistema os forídios praticamente não têm representado riscos.

Recomendamos que sempre que possível se utilize madeira de grande durabilidade e que esteja seca.

Esperamos que cada vez mais pessoas se interessem por cultivar abelhas indígenas sem ferrão, criem novas tecnologias apropriadas e as divulguem, colaborando assim para a manutenção da biodiversidade amazônica e para a saúde e alegria de todos.


Casa da Cultura do Urubuí, 30 de maio de 2011

Maurício Adu Schwade

domingo, 29 de maio de 2011

Festa do Cupuaçu e o Presidente Figueiredo

Anualmente na cidade de Presidente Figueiredo é realizada a Festa do Cupuaçu. Neste ano de 2011, entre os dias 27 e 29 de maio, aconteceu a sua 21ª edição. A principal atração a se apresentar no palco da Praça da Vitória foi a Banda Paralamas do Sucesso. Ao cumprimentar o público presente o vocalista, Herbert Viana, falou que era uma grande satisfação estar neste local, apesar de o nome da cidade fazer referencia a uma pessoa que é parte de “um tempo escuro da nossa história”, a história do Brasil. A propósito, queríamos relatar brevemente quem foi o Presidente Figueiredo, para que se entenda um pouco do que faz referencias importantes da arte brasileira, como é Herbert Viana, revelarem certo asco a este nome.
O general Figueiredo foi o último presidente da ditadura militar. Este período “escuro da nosso história”, como falou Herbert, foi marcado por sangrentas repressões a toda e qualquer oposição, e isso creio que é do conhecimento de todos. Muitos grandes pensadores, intelectuais, artistas e defensores da democracia foram ferrenhamente perseguidos e muitos acabaram mortos. Isso, principalmente em termos do desenvolvimento humano, causou grande atraso para país. Também agravou profundamente a desigualdade social. No fim do regime militar o Brasil estava entre os países com maiores desigualdades sociais do mundo.
Figueiredo também ficou conhecido pela frase “prefiro o cheiro dos cavalos ao o cheiro do povo”, revelando seu profundo desprezo pelo povo do Brasil.
Seu nome foi atribuído a esta cidade depois que em seu governo se desmembrou parte da Terra Indígena Waimirí-Atroarí em favor de multinacionais da mineração, em especial a Paranapanema Internacional Indústria e Comercio que, criada no paraíso fiscal das Ilhas Caiman, era responsável pela comercialização do minério.
Aliás, o próprio município foi criado para ajudar a viabilizar o saque de minérios desta porção do território nacional. E foi em grande parte por alguma arrecadação proveniente desta atividade de mineração que a cidade cresceu. Por muito tempo muitas denúncias foram feitas de que a maioria do minério explorado fluía pelo mercado negro, não deixando no país sequer o valor dos impostos devidos. Apesar disto o que se arrecadava e mais as propinas do que se deixava de arrecadar atraiu muitas pessoas com interesses escusos, muitos dos quais se meteram na política local. Presidente Figueiredo foi muito tempo a segunda arrecadação do Estado e ainda hoje continua entre as três maiores.
Também faz parte destes tempos sombrios o cruel assassinato de mais de dois mil Indígenas Waimirí-Atroarí, grande parte deste genocídio ocorrido no território que hoje é Município de Presidente Figueiredo.
Para concluir quero elogiar o grande show que os Paralamas fizeram aqui. E quero falar para o Herbert que de fato é uma vergonha termos este nome no município. Um dia devemos mudá-lo, no entanto, esperamos também outras mudanças para que então este dia chegue.

Casa da Cultura do Urubuí, 29 de maio de 2011.
Maurício Adu Schwade

Veja também: A Indústria Cultural do Cupuaçu

sexta-feira, 20 de maio de 2011

As Abelhas e o Nosso Ambiente



Desde 1993 a nossa família investe na criação de abelhas aqui na região norte do Amazonas, no Município de Presidente Figueiredo. Além de 10 espécies de abelhas indígenas sem-ferrão, criamos também abelhas africanizadas, hoje presentes em toda a Amazônia.


De nossa experiência concluímos que a criação de abelhas protege a floresta Amazônica e é um investimento sustentável, rentável e compatível com as diversas atividades agrícolas, quando feita dentro dos princípios da agroecologia.


O investimento nas diversas espécies de abelhas presentes na região:




  • garante e enriquece a biodiversidade.


  • traz alimento e remédio para quem as cria.


  • o excedente dos seus produtos é facilmente comerciável.


  • garante águas boas já que as abelhas necessitam de águas limpas o que exige do seu criador cuidado especial das fontes e mananciais.


  • amplia ao infinito a vida na Mãe-terra, devido aos princípios exigidos por uma honesta criação de abelhas.


  • Incentiva a troca de conhecimentos, de mudas e de sementes.


  • Estimula todos na observação das diversas formas de consórcios, permutas e interdependência dos seres vivos, levando pessoas e povos a fazerem ciência, tecnologia e cultura, obtendo como resultado um grande acúmulo de sabedoria para condução da vida.

As abelhas nos ajudam a nos percebermos como administradores da vida e não pretensos donos de terras, águas, solos e demais elementos da natureza. São ‘pedagogas’ dirigindo sempre os nossos olhares rumo ao conjunto da vida, com um carinho especial para os dosséis ou copas das árvores e plantas, geradoras as flores.


Juntando ao mel a produção de pólen, própolis, cera, além do serviço de polinização prestado pelas abelhas e tomando-se em conta o pouco recurso exigido numa criação de abelhas, concluímos que se trata do investimento mais rentável para a região Amazônica. Mas há necessidade de se criarem ambientes reais e eficientes para a conservação ambiental e a recomposição da biodiversidade em todo o mundo. Sendo os insetos, principalmente as abelhas, os elementos fundamentais da conservação e recomposição da biodiversidade, é preciso garantir um ambiente saudável para a multiplicação de todas as espécies de abelhas, não somente daquelas que mais interessam aos que objetivam apenas o mercado.


As abelhas são parte integrante do ecossistema da região em que vivem. Sua principal função na natureza é a polinização das flores e, consequentemente, a produção de sementes e frutos. Dependendo do ecossistema, as abelhas brasileiras sem-ferrão são responsáveis por 35 a 94% da polinização das árvores nativas.


Os monocultores, os agronegociantes e os donos de serrarias são os maiores inimigos das abelhas porque depredam e/ou envenenam as fontes de alimento das abelhas. O uso de inseticidas, especialmente nas plantações de arroz, soja e algodão, arrasam toda possibilidade de sobrevivência das abelhas em regiões inteiras. Também a derrubada seletiva das árvores mais velhas, hoje até incentivada por algumas instituições ambientalistas (como a WWF), atrás da “madeira certificada”, representa um novo perigo às abelhas, principalmente para as abelhas sem-ferrão.


Finalmente, vale a advertência do Prof. Warwick Kerr (no livro “Abelha Uruçu: Biologia, Manejo e Conservação”, 1996):


“Diante da destruição acelerada das matas é imprescindível a elaboração de programas de conservação. Se houver um firme objetivo de preservar e restaurar as árvores nativas brasileiras, faz-se necessário preocupar-nos seriamente com a polinização de suas flores. Estudos sobre biologia das abelhas polinizadoras, manejo e especialmente reprodução controlada e divisão de suas colônias se tornam informações essenciais para quaisquer medidas a serem adotadas em tais programas de conservação. A meliponicultura, ou seja, a criação de meliponíneos (abelhas sem-ferrão), é uma atividade humana que contribui para a conservação das abelhas e de seu habitat – já nos ensinavam os diversos povos indígenas que primeiro domesticaram estes insetos sociais.”


Por tudo isto, concluímos que a criação de abelhas é recomendável na luta de todos para salvarmos o nosso planeta. É urgente que nos deixemos guiar por estes bichinhos e mudar a orientação da produção de alimentos no mundo.



Casa da Cultura do Urubuí / Presidente Figueiredo, 17 de maio de 2005.



Doroti e Egydio Schwade

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Uma “Floresta de Alimentos” inspirada na cultura indígena

Notícia publicada originalmente no sítio da UEA (08 de Outubro de 2009)

Filho de um gaúcho com uma catarinense militantes do movimento indigenista, nascido em Itacoatiara, o agricultor Maurício Adu Schwade cultiva uma área em Presidente Figueiredo em que a família pratica uma agricultura de base agroecológica inspirada na convivência com agricultores familiares e comunidades indígenas denominada Floresta de Alimentos. “É um sistema bem diversificado”, explica, baseado na recuperação de áreas degradadas para consumo familiar e comunitário.
O que diferencia esse conceito do que se convencionou chamar de sistemas agroflorestais é o foco. Enquanto os sistemas agroflorestais focam a produção, a Floresta de Alimentos vê o produtor, em primeiro lugar, como uma unidade consumidora, inclusive de bens culturais e sociais. “A natureza é pensada não só como um fornecedor de materiais para o homem, mas como um conjunto desses valores”, diz Adu.
Em Presidente Figueiredo, a família é proprietária de uma área em torno de 50 hectares, em que a área de cultivo mais intenso gira em torno de 4 hectares, que foi recuperada com experiências de fruticultura, criação de abelhas, aqüicultura. “É um local que a gente nem encara propriamente como um espaço particular. É um espaço coletivo de aprendizado”, define. Mel, frutas, geléias estão entre os produtos comercializados pela família. Mas o grosso da produção, seguindo a tradição indígena, é objeto de trocas, intercâmbio e manacu – tipo de troca em que se dá algo para receber outro bem em outro momento.
A experiência foi apresentada no Seminário de Construção do Conhecimento Agroecológico, que está sendo realizado em Parintins em paralelo ao II Seminário de Agroecologia do Baixo Amazonas. O evento é realizado pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Embrapa Amazônia Ocidental e Associação Brasileira de Agroeocologia. Enquanto aguardava o momento de apresentar sua experiência, Adu assistia à palestra da pesquisadora Sandra Noda. Ao falar sobre o histórico da agricultura familiar no Amazonas, Noda lançou um desafio para os acadêmicos da UEA: identificar como se dará a transição da agroecologia na Amazônia das Águas.
O evento está sendo realizado até esta sexta, 9, no Centro de Treinamento Dom Archângelo Cerqua, localizado às margens do lago Macurany, em Parintins, e trouxe ao município produtores toda a Amazônia, de municípios vizinhos e da zona rural de Parintins. Manuel Barbosa, morador da comunidade de Santa Maria do Uarituba, um típico agricultor familiar da região, todos os meses traz o excedente da produção de uma pequena propriedade de 3 hectares para o mecado local. E os produtos da ordem do dia são o feijão, a macaxeira e o abacaxi. Com uma família de 11 pessoas para sustentar, ele veio conferir as novidades e, se possível, levá-las para a comunidade. "Muitas vezes a gente trabalha errado a produção da terra”, explica o agricultor.
Orgulhosa do filho, aluno do curso de agroecologia da UEA, a dona de casa Rosa Alves Ferreira, moradora da Vila Amazônia, também veio em busca de novidades para seus vizinhos. "É importante a gente aprender alguma coisas e passar para eles", conta.

Foto (1) Maiká Schwade, 2010
Foto (2) Gil e Nádia, 2010

domingo, 15 de maio de 2011

Por que kamña matou kiña?

2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar – Texto3

Em junho de 1985, sentado na calçada em frente ao prédio da FUNAI, em Brasíia, em companhia de dois Waimiri-Atroari ou Kiña, um deles me perguntou à queima-roupa: “O que é que civilizado joga de avião e que queima corpo da gente por dentro?”
Em aula, tão logo tiveram confiança em nós, Doroti e Eu, semelhantes perguntas se sucediam: “Por que Kamña (civilizado) matou Kiña?” “O que é que Kamña jogou do avião e matou Kiña?” Kamña jogou kawuni (de cima, de avião), igual a pó que queimou garganta e Kiña morreu logo”. “Apiyemeyekî?” (Por quê?). Procurávamos, inicialmente, furtar-nos à curiosidade sobre essas questões, sabedores da susceptibilidade dos agentes da FUNAI e das Forças Armadas, únicos responsáveis pelo destino deste povo.
Um texto de Damxiri dizia: “Apapeme yinpa Wanakta yimata” (Meu pai me abandonou no caminho da aldeia de Wanakta). A frase, discutida em aula, nos levou à seguinte história: um dia a aldeia de Yanumá, pai de Damxiri, nosso aluno da escola Yawara, foi atacada por kamña (civilizado). Yanumá procurou reter o ataque, enquanto mulheres e crianças fugiam pelo varadouro que conduzia à aldeia de Wanakta, localizada no Alto Rio Camanaú. Mortalmente ferido, Yanumá ainda conseguiu alcançar a mulher e os filhos. Sentindo-se desfalecer, recomendou à mulher que se refugiassem na aldeia de Wanakta, um líder descrito por eles como: “Wanakta karanî, xuiyá, todapra” (Wanakta, um homem bom, bonito e gordo). Sua aldeia estava situada numa região bem fora do roteiro da estrada e dos rios navegáveis. Possivelmente nunca foi vista pelos militares, tendo sido uma das únicas que não foi atingida pela violência praticada pelos militares.
As 31 (trinta e uma) pessoas que compunham a comunidade Yawara, onde desenvolvemos o nosso trabalho, eram sobreviventes de quatro aldeias localizadas à margem direita do rio Alalaú, desaparecidas entre 1970 e 1975. A pessoa mais velha tinha em torno de 40 anos. As demais, acima de dez anos, eram órfãs, com exceção de duas irmãs cuja mãe ainda vivia. Seus pais morreram na resistência contra a rodovia BR-174. As crianças de 4 a 10 anos também eram órfãs. Seus pais morreram de sarampo em 1981, abandonados pela FUNAI à beira da BR-174, no Km 292.
Na medida em que a confiança da comunidade crescia já não éramos apenas professores, mas pessoas envolvidas com o seu desejo de viver. Questionaram a razão pela qual kamña matou os seus pais, parentes e amigos. Desenhavam cenas de violência. Avião ou helicóptero sobrevoando a aldeia, soldados atirando escondidos atrás de árvores e na única frase ao lado, muitas vezes se destacava essa pergunta: “apiyemeyekî?” (por quê?).
Algumas vezes relacionaram os mortos. Panaxi, um jovem pai, descreveu o seguinte episódio que vivenciou no início dos anos 70 com seus pais, irmãos, parentes e amigos numa aldeia na proximidade do baixo Alalaú: “Antigamente não tinha doença. Kiña estava com saúde. Olha civilizado aí! Olha civilizado ali! Lá! Acolá! Civilizado escondido atrás do toco-de-pau! Civilizado matou Maxi. Civilizado matou Sere. Civilizado matou Podanî. Civilizado matou Mani. Civilizado matou Akamamî. Civilizado matou Priwixi. Civilizado matou Txire. Civilizado matou Tarpiya. Com bomba. Escondido atrás do toco-de-pau!”
Yaba escreveu: “Kamña mudîtaka notpa, apapa damemohpa” (civilizado desceu de helicóptero na minha casa, aí meu pai morreu). “Ayakînî damemohpa. Apiyemyekî?” (Minha irmã morreu. Por quê?).
Abaixo, outra relação de mortos: na Mahña mudî, (aldeia do rio Mahña, Alto Alalaú) Mawé, Xiwya, mãe de Rosa, Mayede, marido de Wada, Eriwixi, Waiba, Samyamî, mãe de Xere e Pikibda. Morreu ainda pequena (pitxenme), filha de Wada. Maderê, mulher de Elsa. Wairá, mulher de Amiko que mora no Jara, Pautxi, marido de Woxkî que mora no Jará. Arpaxi, marido de Sidé que mora no Alalaú, Wepînî, filho de Elsa. Kixii e seu marido Mayká, Paruwá, pai de Ida. Waheri, irmã de Wome e mais outra irmã de Wome. Suá, pai de Warkaxi e suas duas esposas e um filho. Kwida. Wara’ye – pai de Comprido. Tarahña, pai de Paulinho. Ida, mãe de Mayedê. Morreu ainda uma mulher velha cujo nome não relacionaram. A filha de Sabe que mora no Mrebsna Mudî, dois tios de Mário Paruwé, o pai de Womé e uma filha de Antônio.
Kramna Mudî era uma aldeia Kiña que se localizava na margem Oeste da BR-174, no Baixo rio Alalaú, próximo ao local conhecido como Travessia sobre a Umá, um “varadouro interétnico” que atravessava o território Waimiri-Atroari de Sul a Norte, para interligar com os Wai Wai e outros povos Karib na Guiana e no Suriname. No final de setembro de 1974, Kramna Mudî acolhia o povo Kiña para uma festa tradicional. Visitantes do Camanaú e do Baixo Alalaú já estavam lá. O pessoal das aldeias do Norte ainda estava a caminho. A festa já estava começando com muita gente reunida. Pelo meio dia um ronco de avião se aproxima. O pessoal sai das malocas para ver. A criançada se concentra no pátio. O avião derramou um pó e todos morreram, menos um.
O tuxaua Comprido estava a caminho. Vinha do Norte com a sua gente. Chegando perto estranharam o silêncio. Aldeia em festa sempre está cheia de algazarra. Ao se aproximarem encontraram todos mortos, menos um. Morreram sem um sinal de violência no corpo. Dentro da maloca, nos girais, grande quantidade de carne moqueada, mostrando que tudo estava preparado para acolher muita gente. O sobrevivente só se recordava do barulho do avião passando por cima da aldeia e do pó que caia. Os Kiña forneceram uma relação de 33 parentes mortos neste massacre.
Contaram-nos que Comprido, ao ver os parentes mortos pelo chão, revoltou-se muito. Antes de voltarem para as suas malocas, provavelmente no dia 30 de setembro de 1974 à tarde, um grupo de Kiña atacou três funcionários da FUNAI, João Dionísio do Norte, Paulo Ramos e Luiz Pereira Braga, que subiam o Rio Alalaú para abastecerem o Posto Alalaú II. Mataram os três e jogaram os corpos na altura da Travessia, local onde a Umá (varadouro) atravessa o Alalaú, a aproximadamente seis quilômetros da aldeia chacinada. No dia seguinte, o tuxaua Comprido atacou o Posto Alalaú II, a aproximadamente 500 m da ponte do Rio Alalaú, então, o ponto mais avançado da BR-174.

Casa da Cultura do Urubuí / Presidente Figueiredo / 14 de maio de 2011.
Egydio Schwade

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Assembléia da CNBB e os Índios

Como vem acontecendo nas últimas décadas, a questão indígena foi colocada de forma contundente, em toda sua dureza e violência, pelo presidente do CIMI, Dom Erwin Krautler nesta 49ª Assembléia Geral da CNBB. Em seu pronunciamento, mais uma vez teve destaque a dramática situação nos Kaiowá Guarani: "De acordo com estes levantamentos, o Estado de Mato Grosso do Sul tem sido recordista em violências contra os povos indígenas. Ali as comunidades indígenas são obrigadas a viver em beira de estrada, são frequentemente expulsas de seus acampamentos, têm suas barracas e pertences queimados e seus líderes assassinados. Cerca de 50% dos assassinatos de indígenas ocorre naquele Estado. De acordo com recente informação do Ministério Público Federal, na terra indígena de Dourados, constituída de três mil e seiscentos hectares, nos quais vivem, em situação de confinamento, mais de 12 mil indígenas, o índice de homicídios é 800% maior que a média nacional. Esta prática de violência contra os povos indígenas no Mato Grosso do Sul, especialmente em relação ao povo Guarani Kaiowá, não deixa de ser um genocídio.
A omissão em relação ao intenso processo de violências enfrentadas pelos Guarani-Kaiowá é talvez o elemento mais significativo da falta de interesse do Governo Federal pelos povos indígenas. Os abusos contra este povo têm sido denunciados pelo CIMI e por outras organizações de defesa dos direitos humanos e indígenas no Brasil e em nível internacional. Entretanto, mesmo assinando um Termo de Ajustamento de Conduta, no qual a FUNAI se comprometeu, em 2008, em realizar os estudos de identificação e delimitação de terras de ocupação tradicional indígena naquele Estado, até o presente momento o órgão indigenista está omisso. A demarcação das terras poderia evitar a morte de centenas de pessoas do povo Guarani-Kaiowá”.
D. Erwin em diversas ocasiões tem reafirmado que a situação dos Kaiowá Guarani é das mais graves que ele já viu em toda sua vida. Comovido por essa realidade e está cobrando providencias das autoridades responsáveis, em todos os lugares por onde está passando.

D. Dimas, novo arcebispo de Campo Grande

Os Guarani e seus aliados ficaram muito felizes com a nomeação do novo arcebispo de Campo Grande. Dom Dimas esteve em março de ano passado visitando vários acampamentos do povo Guarani no cone Sul do Mato Grosso do Sul. Naquela ocasião, juntamente com D. Erwim, presidente do CIMI, pode sentir um pouco da dor e injustiça de que são vítimas os mais de 40 mil indígenas deste povo. Nesta ocasião se comprometeu de levar essa realidade às esferas do governo (presidente da República, Ministro da Justiça...) e pedir providencias urgentes, especialmente com relação à demarcação das terras. Também se comprometeu a dar visibilidade a essa realidade, promovendo um debate a respeito nas emissoras católicas de TV.
D. Dimas voltou a Dourados, pouco tempo depois, para pregar um retiro para o clero local. Esse conhecimento da grave situação e dos conflitos existentes nessa região certamente serão parte de sua ação de pastor em Campo Grande e no regional Oeste 1 da CNBB. Isso ele manifestou em seus primeiros pronunciamentos e entrevistas à imprensa regional.

Volta do Acampamento Terra Livre

Em torno de 80 representantes do Mato Grosso do Sul participaram do Acampamento Terra Livre e do Encontro sobre as terras em conflito, em Brasília. Ao retornarem a suas aldeias, foram unânimes em destacar o importância dessa mobilização indígena nacional. Porém evidenciaram que lá foram para lutar pelos seus direitos, especialmente à terra. Isso deixaram bem claro nos documentos que levaram, tanto em nome da Aty Guasu, como das diversas comunidades em luta pela terra. Por essa razão expressaram seu descontentamento e com aqueles que tentaram direcionar os debates apenas para a troca de presidente da FUNAI.
Voltaram animados por sentir que sua luta continua sendo uma luta assumido como prioridade pelo movimento indígena brasileiro. Porém esperam gestos concretos dessa solidariedade, assim como tem acontecido por vários anos com a Raposa Serra do Sol, em Roraima.

Povo Guarani Grande Povo
Dourados, 10 de maio de 2011.

sábado, 7 de maio de 2011

A Propósito do Dia das Mães

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A carta abaixo foi escrita por Doroti, ainda solteira, após 51 dias diretos em viagens de levantamento da situação das comunidades indígenas e seringueiras dos rios Iaco, Purus, Envira e Tauaracá no Acre e Médio e Baixo Purus, no Amazonas, como coordenadora do CIMI-Amazônia Ocidental, durante o ano de 1976 e início de 1977.







Rio Branco, 13 de março de 1977.

Querida mãe,

Depois de 51 dias viajando chego a Rio Branco e encontro a correspondência e entre as cartas a tua. Mãe, eu sinto contigo, sofro contigo, não te culpo nem a meus irmãos e irmãs tampouco. Todos nós somos participantes de uma geração angustiada e que perdeu seu “principio velho”. Todos nós pertencemos a uma sociedade que corrompe, onde ficou o lucro como deus soberano. Este sistema que endeusou o lucro e usou todos os meios disponíveis (sexo, injustiça de toda a espécie, engano, desonestidade) para tornar o homem apenas produtivo (que trabalha para produzir bens) e consumidor (que consuma, luxe, viva comprando). Tudo isto criou conflitos de gerações. Tudo isto fez a família se quebrar. A gente viajando nos confins desta região percebe que isto tudo acontece também aqui. Este sistema corruptor não deixa escapar ninguém.
Mãe, sei que a senhora sofre, sei que meus irmãos e irmãs também. Mãe, também sei que milhares de famílias sofrem por motivos semelhantes. Poucos percebem que estes sofrimentos não são particulares, mas de todo o povo que está enganado por um sistema podre. Só agora entendo todo o seu sofrimento, a senhora quis quebrar esta corrente de paganismo, mas nós não entendemos. Nós não podíamos entender porque estávamos afundados nesta sociedade. Ela nos penetrava a alma por todos os poros. Agora sei também que não é possível quebrar estas correntes se não for em trabalho social, não só na nossa família, mas tentarmos estar voltados para tudo e todos que nos cercam.
Mãe é isto que eu estou fazendo, ou melhor, que tento fazer. Tento quebrar estas cadeias injustas que esmagam e corrompem o homem. Não o faço sozinha, não. Na Igreja surge gente de todo o lado que trabalha nesta esperança. Cristo continua vivo e muita gente está procurando viver esta fé, dar testemunho desta esperança de um modo radical. Sabe mãe, tua filha tem servido para fazer despertar muita gente, até padres e bispos e freiras têm sido ajudados a despertar, pelas graças que tenho recebido. Mãe, tua filha não está fanatizada não. Apenas aceitei o desafio que meu coração sempre sentiu: arriscar a própria segurança para ajudar o homem, principalmente aquele mais desprezado e oprimido. Este desafio que eu aceitei me trouxe em troca o conhecimento mais profundo de Cristo, nosso Mestre. É isto que tua filha tem vivido, tem buscado com muita força. Existe esperança para que os homens todos não precisem empurrar um dia após o outro, mas tenham alegria de viver.
Mãe, compreendo teu sofrimento, mas sei que ele não é em vão e tu também encontrarás a alegria de viver, esta alegria que o mundo de hoje nega a todas as pessoas. Não pense que o que acontece em nossa família é só conosco. Milhões de pessoas estão se batendo neste mar de angústias. Talvez, tu sofras mais porque és sensível e sempre desejaste viver cristãmente. Mãe tenha esperança. Teu sofrimento não é em vão. Sempre que sentires necessidade desabafe, conte para a gente teu sofrimento. Quando eu puder vou te visitar, mãe. Agora, nestes meses, não é possível, porque estamos fazendo levantamentos e preparando cursos para os agentes pastorais deste regional. Tenho andado muito para entrar em contato direto tanto com os índios, como com os padres e outras pessoas que devem trabalhar para que haja mais justiça. Até outubro eu irei te ver, se der antes, eu te prometo que irei. Pelo respeito que te tenho peço tua bênção e amor.
Tua filha Doroti.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Código do Desflorestamento

O Deputado Aldo Rebelo (PCdoB) tem buscado, por todos os meios, explicar algumas inaceitáveis (e, talvez mesmo, inexplicáveis) concessões ao agronegócio, no que se refere ao novo Código Florestal, no que ele qualifica como “o equilíbrio possível”.
A argumentação de Rebelo é da mais pura retórica. Em primeiro lugar, quer nos fazer crer que todo o seu esforço é tão só e simplesmente por salvar da falência – que viria por conta das multas por transgressão do código florestal – a milhares de pequenos agricultores. O fato é que centenas de grandes e poderosos fazendeiros e empreendimentos de agro-negócio efetivamente se beneficiarão (em prejuízo do bem comum), mas o Deputado parece considerar isso um pequeno e desprezível efeito colateral.
O deputado também abusa da retórica quando sugere que alguém gostaria de enquadrar na legislação atual propriedades abertas ao tempo de Tomé de Souza. Alguém precisa avisar o deputado que, sendo o foco dos problemas ambientais no Brasil atual, sobretudo as terras de cerrado e da Amazônia, Tomé de Souza ou qualquer outro Governador Geral nada tem a dizer. Mas é importante para a argumentação de Rebelo misturar e confundir os fatos. Pelo mesmo motivo ele sugere que o reconhecimento, como Áreas de Preservação, das terras acima de 1.800 metros, inviabilizaria a ocupação dos altiplanos no Peru e na Bolívia. Só faltou, como máximo exagero, dizer que o melhor a fazer, para atender aos ambientalistas, é devolver o Brasil aos índios.
O outro foco da argumentação de Aldo Rebelo está na insistência de que “nenhum” país do mundo possui qualquer legislação que trate de Reserva Legal ou algo equivalente. Sequer a mata ciliar estaria legalmente protegida naqueles que ele referiu como “países ditos ‘civilizados’”. A pergunta, ora explícita, ora implícita, que o Deputado nos dirige é: por que nós temos que fazer isso, se os “concorrentes” (o termo é dele) dos nossos produtores não o fazem?
Não é preciso ouvir ou ler mais nada do que diz o Deputado para que se revele o que ele entende por “princípios” ou “códigos éticos” de conduta. O raciocínio dele, pobre, mas cristalino, é esse: se os outros não fazem, por que é que nós vamos fazer?
Como todos sabemos, esse é o raciocínio que justifica toda sonegação fiscal, toda corrupção, todo super-faturamento de obras, todo aumento absurdo de proventos de Parlamentares em todos os níveis. Em resumo: o raciocínio do tipo “se ninguém faz, por que nós vamos fazer?” é o argumento dos sem princípio.
O último tipo de argumento, também falacioso, do deputado comunista, sugere que a manutenção da exigência de um grande percentual da propriedade rural como reserva legal (na Amazônia, sobretudo) significa abrir mão de território, de solo, de subsolo e de recursos hídricos que, de outro jeito, estariam contribuindo para “elevar o padrão de vida material e espiritual” da população brasileira (as palavras entre aspas são do artigo do deputado no Estadão, em 30 de abril último). Será que o Deputado prestou atenção, há algumas décadas atrás, quando se propalava aos quatro ventos que o ouro e os minérios de Carajás pagariam nossa dívida externa? Será que o Deputado não sabe que a exploração do minério em Carajás, ao contrário, aumentou nossa dívida externa (pela construção de uma ferrovia e de um novo porto no Maranhão) e, ao final, a riqueza que continua sendo produzida lá não enriquece ao povo brasileiro, mas àqueles que já são ricos? Será que o deputado acredita, sinceramente, que as enormes plantações de soja que destroem floresta amazônica, áreas de pantanal e de cerrado, e comprometem nossos recursos hídricos, para produzir a alimentação do gado no 1º mundo, estão “elevando” nosso padrão de vida material e espiritual?
Será que o deputado acredita na teoria da conspiração que propala por aí, de que os países ricos “usam o meio ambiente para nos bloquear o acesso a uma vida melhor”? Será o Deputado Aldo Rebelo uma pessoa tão obtusa e de raciocínio tão confuso? Ou terá ele se tornado apenas mais um subserviente dos acordos com o agro-negócio, jogando no lixo as bandeiras históricas daqueles que construíram, no passado, alguns dos mais importantes partidos de esquerda no Brasil?
Há alguns anos o deputado Aldo Rebelo ganhou certa notoriedade ao tentar legislar sobre a língua portuguesa. Escreveu absurdos, fruto de uma péssima assessoria e do mau hábito de parlamentares de julgarem-se peritos em qualquer coisa. Na época, aliás, ninguém alertou ao Deputado Rebelo que em “nenhum país do mundo” se legisla sobre língua; ao menos, isso não acontece em países ditos “civilizados”. Lembrei-me, com alguma nostagia, daquela iniciativa ingênua do deputado. Se aprovada aquela sua lei anti-estrangeirismo (era disso que se tratava), ela seria inócua, isto é, não produziria efeitos sobre a realidade lingüística, como não produziu efeito a revogação da Lei da Gravidade, por aquele prefeito do interior, segundo uma antiga piada. Mas, se aprovada sua versão negociada do Código Florestal, o futuro condenará nossa geração por essa opção lesa-pátria. E ninguém, no futuro, nos concederá a desculpa da ingenuidade, muito menos para o Deputado Aldo Rebelo.
Registra a memória brasileira dos tempos da ditadura, que um dos generais ditadores do Brasil, indagado sobre o que achava de Chico Buarque, teria dito que gostava muito da “fase romântica” do compositor. Chamado a comentar a resposta do general, Chico Buarque teria respondido: “Também me agradava a fase romântica do General”.
Lembro dessa história aqui, para dizer que, apesar de ingênua e equivocada, lembro com alguma saudade da fase de “gramático” e “normatizador a língua” do Deputado Aldo Rebelo.
Wilmar da Rocha D'Angelis
E-mail: dangelis@unicamp.br

domingo, 1 de maio de 2011

Economia Sustentável da Amazônia

Quando se está discutindo o Código Florestal Brasileiro é salutar recordar a experiência humana já vivida nesta parte do planeta, de antes da sujeição ao modelo de organização política estatal.
A sobrevivência da humanidade está hoje ameaçada pela violência física e cultural que a terra sofre e pela depredação dos recursos alimentícios originários ou próprios a cada região do planeta. Assim a sobrevivência de todos os viventes depende de uma mudança da política e da economia dos Estados Nacionais e, principalmente, de um consciente reconhecimento de economias distintas da crematística* praticada pelos Estados.
Muitos povos, comunidades, organizações e lideranças, vivem hoje preocupados atrás de créditos e de produtos de mercado para sustentar necessidades artificiais e ficções criadas ao longo da História humana. E nesta ânsia se esquecem da alimentação e da saúde das pessoas, esquecem-se da preservação da natureza, da sua cultura e da economia da reciprocidade, fundamentos da abundância, da autonomia e da razão do seu viver. A quem interessa mesmo o PIB?
Quando os portugueses chegaram à costa brasileira mais de 500 gerações já haviam vivido uma consciente adaptação ao ambiente desta terra. A sua vida se orientava, sabiamente, na perspectiva de um futuro ilimitado e comum a toda a vida na terra: humana, animal e vegetal. A natureza não era entendida apenas como o espaço antropocêntrico, mas como espaço comum de todos os viventes, todos igualmente importantes. Não lhes ocorria sentirem-se donos absolutos de tudo a ponto de poderem a seu bel-prazer, capricho ou interesse, destruir ou fazer comércio com a Criação.
Milhares de pequenas comunidades espalhavam-se pelo continente, se auto-sustentavam por meio de uma economia de reciprocidade. Grandes roçados cercavam todas as comunidades. E o que neles faltava era colhido da floresta, dos campos e das águas comunitárias. Quando em algum local a presença humana encolhia a vida animal e vegetal as comunidades transferiam a sua sede para que a vegetação nativa e os animais se pudessem reconstituir no seu vigor original.
A presença das pessoas, amigos ou parentes, trazia, normalmente, ao seio das comunidades, uma mensagem de bem-estar e de fartura. Os visitantes traziam amor e esperança, a partir dos frutos da terra, principalmente de novos alimentos que domesticavam ou descobriam na floresta. Assim, a mensagem das aldeias, de perto e de longe, vinha acompanhada com o gesto da mão cheia de vida, pela permuta de conhecimentos, saberes, técnicas e de espécies vegetais. Desta forma, os povos pré-colombianos se moviam garantindo espaço igual, não só para os humanos, mas para todos os seres vivos.
Todas as histórias sobre a origem do mundo desses povos americanos, falam do deslumbramento das pessoas diante da beleza da terra e diante da variedade de animais e vegetais. A pessoa comportava-se como chegante e não como dona de tudo. Na sua mitologia as pessoas se confundem, muitas vezes, propositadamente, com animais e plantas.
Para os povos indígenas a beleza, a variedade e a abundância da terra não podiam acabar jamais e deveriam ser enriquecidas pela presença humana. A Mãe-terra era vista numa amplidão e temporalidade indefinidas, cujo habitat o homem procurava melhorar sempre, principalmente em fartura de alimentos. Assim, quem tivesse visitado a Amazônia 9.000 anos a.C. e tivesse acompanhado a expedição de Orellana em 1.540, se teria admirado muito com as melhorias introduzidas e com os alimentos novos criados, tudo sem causar impacto negativo na dinâmica do ambiente.
Toda a cultura espiritual dos povos indígenas reflete a preocupação pela manutenção das variedades, da beleza e da abundância como patrimônio de todos. Lendas, como a do Curupira, educavam grandes e pequenos em filosofias preservacionistas. As comunidades zelavam pelas fontes, pela diversidade e pela abundância de proteínas e vitaminas, animais e vegetais.
Fr. Carvajal, o cronista da expedição de Orellana, em 1540, escreveu:
“grande quantidade de carne, peixe e biscoitos, tudo com tanta abundância que era suficiente para alimentar uma força expedicionária de mil homens durante um ano inteiro”. E 100 anos depois, em 1641, o jesuíta Acuña, que acompanhou a expedição de Pedro Teixeira (um exército 2.000 índios, 87 soldados, mais os tripulantes), de Quito até Belém do Pará, acrescenta:
“Y lo que más admira es el poco trabajo que cuestan todas estas cosas, como se puede colegir de lo que cada día experimentáramos en nuestro Real, de donde, después de llegar a la dormida, y después de ocupados los Indios amigos que nos acompañaban, en hacer barracas suficientes para todo el alojamiento, en que se consumía mucho tiempo, se repartían unos por tierra, con perros, en busca de caza, y otros por agua, con solo sus arcos y flechas; y en pocas horas veíamos venir a éstos cargados de pescado, y a aquéllos con caza suficiente para que todos quedásemos satisfechos. Lo cual no era un día o otro, sino todos cuantos duró el viaje, que fué tan cumplido como ya dije. Maravilla digna de admiración y que sólo se puede atribuir a la Paternal Providencia de aquel Señor, que con solos cinco panes y pocos peces sustentó cinco mil hombres, quedándole el brazo sano y las manos llenas, para mayores liberalidades” (Monumenta Amazônica: “Informes de jesuitas en el Amazonas 1660-1784”. Iquitos: CETA,1986).
Não era apenas à Providência Divina que se devia essa abundância, mas principalmente a uma Economia Divina, respeitada pelos humanos.

Casa da Cultura do Urubuí , 30 de abril de 11
Egydio Schwade
* Aristóteles distingue “Economia” de “Crematística”. “a economia se limita à obtenção dos bens necessários à vida e úteis à família ou ao Estado”. “Crematística é a arte de fazer dinheiro” (Apud Marx, Karl. O Capital 21ª. Edição Vol.I pg.183).