2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas do Brasil! Que vivam Bem!

quarta-feira, 30 de março de 2011

Contaminação Pelo Mercúrio: sigilo e omissão

Uma bomba de efeito retardado será acionada no dia que serão fechadas as comportas do Jirau. Com a alagação de antigoslocais de garimpo da margem direita do rio Madeira, toneladas de mercúrio serão levadas até o leito do rio, agravando a contaminação existente. Na década de 1980, centenas de dragas contaminaram diretamente o leito do rio Madeira. O metal transformado em metilmercúrio é absorvido pelo plâncton e chega até o homem que se alimenta de peixe, através da cadeia alimentar. O peixe não tem fronteiras e percorre centenas, até milhares de quilômetros. Estudos científicos realizados na década de 1990 e cujos resultados foram publicados nos cadernos da Fiocruz, em 2003, comprovam que a população indígena do município de Guajará-Mirim, cuja dieta principal é o peixe, tem um teor de mercúrio acima do tolerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Foi relatado o caso de uma criança cuja taxa de mercúrio atingiu 20 vezes o valor limite. As consequências na saúde são gravíssimas. O mercúrio é responsável por más formações neurológicas durante a vida fetal e, por ser cancerígeno, pelo aumento de casos de câncer, e, principalmente, de leucemia e linfoma, doenças raras e gravíssimas, levando, muitas vezes, ao óbito. Em julho de 2008, dois adultos do povo Oro Wari’, internados no Hospital de Base de Porto Velho, um com leucemia aguda e o outro com linfoma de Hodgkin, faleceram com poucos dias de diferença um do outro. A partir dos anos 1990, o aumento assustador de casos dessas doenças na população indígena e ribeirinha do município de Guajará-Mirim só pode ser explicado pela contaminação por mercúrio. O monitoramento da taxa de mercúrio na população indígena foi solicitado pela bioquímica responsável pelo estudo, entretanto, depois de 15 anos, ainda não aconteceu. O Ministério Público Federal, que está a par da situação, está se empenhando para que seja realizado um novo estudo. Estamos aguardando. Se com o garimpo de ouro o rio Madeira tornou-se um "depósito” de mercúrio, isso não justifica que continue a receber tal substância. É lamentável a irresponsabilidade de órgãos ambientais oficiais, como a SEDAM, que anos atrás autorizou o funcionamento de 20 dragas de garimpo no rio Madeira, perto de Porto Velho. Mais recentemente, o Ibama também decidiu fornecer a licença ambiental para Jirau, como se acrescentar toneladas de mercúrio no rio Madeira fosse algo insignificante. A contaminação já existe, mas, maior a contaminação, maior a incidência de casos de câncer, leucemia e malformações fetais, atingindo ribeirinhos de três países: Brasil, Bolívia e Peru; e isso, por centenas de anos. São milhares de pessoas que adoecerão e muitas irão a óbito prematuramente. Infelizmente, não estamos falando de probabilidade como no caso de um país vulcânico que constrói usinas atômicas, mas de certeza. Apesar da necessidade de se criar mais empregos, nossa consciência relutaria em aceitar a construção de uma usina de armamentos cujas armas seriam vendidas a países em guerra, não é mesmo? Entretanto, cientes dos impactos do Jirau como podemos se conformar com a construção dessa UHE que a longo prazo terá conseqüências semelhantes? No conceito dos países europeus, a energia hidrelétrica é a menos poluidora. Entretanto, nenhuma barragem na Europa alagou áreas de garimpo. A preocupação dos países da União Européia com a contaminação pelo mercúrio é tal que foi proibida a venda de termômetros de mercúrio. Como vão reagir os europeus quando souberem que objetos de alumínio importados do Brasil foram fabricados com energia proveniente de barragens da Amazônia que alagaram áreas de garimpo, agravando a contaminação de indígenas e ribeirinhos de três países? Por outro lado, para os responsáveis da empresa GDF-Suez, que tem mais de 50% das ações do Jirau e que é a primeira empresa europeia de produção de energia, o lucro prevalece. Os países da Europa procuramo ecológico mais correto dentro de suas fronteiras! Cabe ao Brasil criar essa consciência. Cabe a nós, brasileiros, abrir os olhos para analisar com coragem os impactos do "bezerro de ouro” do desenvolvimento e descobrir quem são os principais beneficiados. Somos a favor do bem estar, mas não a qualquer preço! CIMI de Rondônia e equipe Guajará-Mirim. Fonte: Adital (http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=54850)

segunda-feira, 28 de março de 2011

O Minério Radioativo do Amazonas e as Usinas Atômicas Japonesas

Presidente Figueiredo, Amazonas, 1992: estávamos construindo a Casa da Cultura do Urubuí. Doroti, eu e as crianças ajudávamos na cobertura de cavaco. Há nossa frente, pela BR-174, roncavam caminhões carregados de minério procedentes da mina do Pitinga. Oficialmente as carretas levavam apenas cassiterita ou estanho. Em verdade, carregavam diversos minérios estratégicos, todos bem mais caros do que o estanho: ítrio, tântalo, colúmbio, urânio, criolita, ouro. A BR-174 tornou-se mais uma “veia aberta da America Latina”. O diretor do setor mineral do Mercado Comum Europeu garantia em reunião em Duisburg / Alemanha / 1991 que todo o minério do Pitinga estava sendo vendido no mercado negro, confirmando conclusão a que o geógrafo e pesquisador da UFAM, José Aldemir de Oliveira chegou em sua tese de doutorado intitulada: “Cidades na Selva”.
A área da mina do Pitinga, 526.000 hectares, foi invadida pela Paranapanema em 1979 e roubada pelo Governo Figueiredo do povo indígena Waimiri-Atroari em 1981. Da maracutaia nasceu o nome de batismo de nosso município: Presidente Figueiredo.

Num daqueles dias, do alto da Casa da Cultura do Urubuí, estranhamos a grande quantidade de carretas que vinha em sentido contrário, de Manaus para Pitinga, também carregadas de minério. Informei-me sobre o por que daquilo. Li conscientemente os jornais e revistas, principalmente as noticias que tinham referencia ao Japão, pois duas firmas japonesas, a Marubini e o Industrial Bank of Japan, controlavam então a Mina do Pitinga. E sabíamos que lavravam ali minério radioativo. Por outro lado, o parlamento japonês exigia das empresas que importavam material radioativo, um destino, fora do Japão, para o lixo radioativo. Os noticiários sobre navios que percorriam os mares contendo lixo atômico, sem saber que destino dar também eram freqüentes. E aqui, próximo ao aeroporto de Manaus, ocorreram dois acidentes aéreos e corriam boatos de que a causa seria minério radioativo, estocado pela Paranapanema nas imediações do aeroporto que interferia nos equipamentos dos aviões.

Tudo isso me fez levantar a hipótese e denunciar que as carretas que seguiam carregadas rumo à mina do Pitinga levavam lixo radioativo. A movimentação dessas carretas durou aproximadamente 4 meses. Falava-se que teriam transportado 5.000 toneladas do estranho material para dentro do nosso município.

A imprensa publicou a minha denúncia, mas em resposta entrevistava apenas geólogos e autoridades conhecidamente comprometidos com as empresas de mineração que obviamente negavam tudo. Nunca foi feita uma investigação séria sobre o assunto. Também não me processaram por calúnia. E o problema continua a pairar sobre os índios Waimiri-Atroari e a população local como uma bomba-relógio até hoje.

Queixas de trabalhadores da mina do Pitinga sobre males estranhos que sentem no corpo; fraquezas gerais; doenças sem causa aparente... E funcionários da empresa começaram a se abrir conosco sobre estes problemas. Um deles, guarda do canil da firma, trabalhava há poucos metros do local onde o lixo foi enterrado. Sempre que nos visitava se queixava de dores no corpo até que decidiu sair da mina, já sem condições de continuar o seu trabalho. Hoje mora em Brasília, onde procura em vão por justiça. Outro jovem robusto ficava ofegante ao subir a escada de 15 degraus da Casa da Cultura do Urubuí. Há poucos meses um vereador falou da proliferação do câncer no município. Muitos manifestam os problemas que sentem, outros guardam segredo com medo de sofrerem represálias da firma.

E lá no Japão milhões de inocentes pagam hoje pela maldição que donos de empresas japonesas e governantes corruptos, de lá e de cá, armaram sobre suas cabeças. Naquele tempo, os jornais publicavam protestos de ecologistas contra o transporte de plutônio, material altamente radioativo que o navio japonês Akatsuki Maru transportava da França para o Japão, cujo roteiro foi mantido em sigilo absoluto (ver Revista Veja 11-11-1992: “Chernobyl Flutuante”). É preciso animar a juventude a reagir em tempo contra quem ameaça o futuro da vida na terra; contra quem constrói monstros radioativos ou usinas atômicas sob controle de poucos; contra quem alastra sempre mais as metrópoles comandadas por leis escritas que abafam as consciências; contra a construção sem controle e sem limites de fábricas de carros e de plásticos; contra quem cobre a mãe-terra de asfalto e cimento; contra agro-negociantes que liquidam a biodiversidade em grandes extensões e envenenam a terra; contra os governantes que constroem grandes barragens para hidrelétricas passando por cima de povos e comunidades; contra quem negocia as florestas da Amazônia com exportadores de madeira.

Respeito e carinho para com a diversidade da vida que cobre a mãe-terra, enriquecida pela ação criadora das pessoas podem transformar esse paradigma hoje reinante em mesas fartas e comunidades sorridentes.

Casa da Cultura do Urubuí /Amazonas, 25 de março de 2011.

Egydio Schwade

As fotografias são da área de Pitinga (década de 1980) e fazem parte do acervo fotográfico da Casa da Cultura do Urubuí.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Colômbia: Tragédia, Alegria e Esperança


Há décadas a Colômbia sofre por conflitos armados iniciados com guerrilhas que propunham uma transformação política em favor do povo menos favorecido. Contraditoriamente hoje, somados e articulados a conflitos alimentados pelo narcotráfico e a mineração, os confrontos armados afligem, massacram e camuflam a supressão de direitos, especialmente das populações mais humildes. Em meio a tragédia dos conflitos, o povo colombiano, alegre e acolhedor, resiste e planta sementes de esperança.

Somente no departamento do Chocó, localizado na costa pacífica colombiana, mais de uma centena de pessoas, 25 a 30% da população desta zona, a maioria camponeses, indígenas e afro-colombianos, foram expulsas de seus locais de origem e lutam para sobreviver longe de suas casas, quase sempre na periferia das cidades. Em todo o país os dados oficiais divulgados pela TV local falam de mais de 400 municípios que vivem sob risco permanente de confronto entre os diversos grupos armados.

Grupos guerrilheiros há bastante tempo começaram a admitir receitas provenientes da venda de drogas para financiar suas lutas, justificando essa ação por, em sua maioria, a droga rumar para os EUA e Europa, degradando as sociedades que desde muito exploram o Novo Mundo. Narcotraficantes, movidos unicamente pela possibilidade de grana fácil, também agem, às vezes seduzindo, e normalmente coagindo a população rural ao cultivo de ilícitos.

O exército, não livre de corrupção e comandado por governos de extrema direita, não poucas vezes agridem violentamente os mais fracos, os agricultores e povos tradicionais, expulsando muitos dos que ainda não haviam sido enxotados pelo narcotráfico. Mais terríveis que estes são os grupos paramilitares, formados por sanguinolentos mercenários, grupos que, muitas vezes, matam para depois perguntarem quem era.

E agora, quando as coisas pareciam estar rumando para uma diminuição dos conflitos, surge uma nova ameaça. Empresas multinacionais de mineração, aproveitando do ainda conturbado território colombiano, contratam entre os grupos paramilitares tropas para “limparem o terreno”. A operação consiste em obrigar a plantar ou simplesmente acusar campesinos que habitam em zonas onde existe minério, de estarem cultivando coca, para assim justificar o assassinato e/ou expulsão dos mesmos.

Mas os bons, generosos e simpáticos colombianos, grandíssima maioria neste país nosso irmão onde tive o prazer de estar no último mês, resistem e reconstroem a esperança a cada dia. Com sua incrível força e alegria não param de pôr em ação propostas de um mundo melhor. É assim no pequeno município de San José Del Plamar, onde o povo, com sua prefeitura, impregnados até a alma da consciência ambiental, põem em caminho propostas que buscam garantir seus direitos de vida digna e a preservação da riquíssima e única biodiversidade e paisagem naturais, fazendo frente e buscando apoio em todas as partes para barrar o nefasto e famigerado avanço das mineradoras. Em Carmen Del Atrato, cidade onde na igreja se encontra a memória de mais de oitenta pessoas, parte dos muitos membros daquela comunidade mortas pelos grupos armados, não são menores os esforços para construir uma sociedade melhor.

Quem dera que nós todos, aprendendo e solidários com as suas lutas, procurássemos conhecer e apoiar os esforços para cuidar do nosso meio ambiente e das pessoas e contagiássemos nossa América de paz e alegria!!!!

Maurício Adu Schwade

Casa da Cultura do Urubuí, 23/03/2011

Vida e História de Dorotí: Texto 5

Doroty Alice Müller: Um Sorriso para a Vida

A Figura forte e sempre presente de nossa querida Dorô nos traz à lembrança momentos de sua trajetória marcante. Ela chegou à OPAN em 1974, para um estágio numa vila operária, próximo a Porto Alegre RS. No ano seguinte foi destinada ao Projeto Novo Horizonte, MT, onde a equipe estava ultimando sua atuação à frente de uma escola, pois a decisão era entregar a escola à comunidade local. Em 1976 Dorô já está no Projeto Acre e Purus, onde com um grupo da OPAN (Rosa Monteiro e Darci Secchi) e da TVC (Marta Callovi e Giovanni Cantu), realizaram os primeiros levantamentos dos povos Kulina, Kaxinaua, Jamamadi e Apurinã, nos rios Purus e Envira, com apoio das paróquias locais. Eram os primeiros movimentos de constituição do Regional do CIMI, quando Dorô foi escolhida para integrar a equipe de coordenação da pastoral indigenista do CIMI. No ano seguinte, a atuação se estendeu para a região de Lábrea e Humaitá, procedendo a um levantamento que inclui os índios Piraha, Jiahui, Apurinã, Parintintin, Turã, Tenharin, Mura e Jamamadi. Para tanto, Dorô percorreu alguns rios, igarapés e lagos. Procurou, também, como encarregada do Regional Norte do CIMI, motivar aquelas áreas para um trabalho pastoral específico junto aos grupos indígenas. No segundo semestre de 1977 no Baixo Purus, apoiadas na sede da prelazia de Lábrea, Dorô e Marta dinamizaram o atendimento na área de saúde e apoio à cultura dos grupos Jamamadi, Apurinã e Kanamanti.

Entre 1978 e 79 certamente mudaram os planos: com o casamento com Egydio Schwade e o nascimento do primeiro de cinco filhos, a família Schwade se localizou em Itacoatiara, AM, iniciando um trabalho com os povos Wai-wai, Ixkariana e Waimiri-Atroari, implantando a Pastoral Indigenista na Prelazia de Itacoatiara.

Nos anos subseqüentes o casal Doroty e Egydio se integrou em diversos fóruns locais e regionais, dinamizando a comunicação entre os grupos através do Boletim CIPÓ. Paralelamente a essas atividades, foram colhendo informações, estudando e planejando os passos no rumo dos Waimiri e Atroari. Em 1985 iniciaram um trabalho escolar, conduzindo uma experiência de um programa de alfabetização na língua, durante um período de 15 meses, quando foram expulsos pela FUNAI. A questão Waimiri-Atroari viria a marcar profundamente a inserção na região, com levantamento de informações e fundação do MAREVA (Movimento de Apoio à Resistência Waimiri e Atroari), constituindo uma rede de parceiros, numa corrente a favor destes povos. Assim, o profundo compromisso com a transformação local e a inserção nas questões globais oferecem uma moldura do seu modo de vida, cabendo certamente à Dorô animar e revigorar as relações do cotidiano, com sua reflexão crítica e engajada.

Em 2009, ao festejarmos 40 anos de OPAN, tivemos a oportunidade de ouvir de Dorô a reafirmação de suas convicções e seu entusiasmo pelas causas populares e indígenas.

Ivo Schroeder
Operação Amazônia Nativa - OPAN

domingo, 20 de março de 2011

Mineração em Terras Indígenas

A 12ª Reunião Ordinária da Comissão Especial de Mineração acaba de ocorrer em Brasília e, como de costume, estavam convidados apenas os interessados na aprovação do Projeto de Lei do Senador Romero Jucá que autoriza a mineração em terras indígenas. O Amazonas foi representado pelo Dep. Estadual Sinésio Campos (PT/AM), sempre mais sintonizado com o poder e seus interesses e cada dia mais distante da causa do povo pobre e espoliado. Presente também o secretário de Geodiversidade e Recursos Hídricos, Daniel Nava, que não perde oportunidade de levar a proposta da mineração em áreas indígenas, mesmo que seja sob vaias, como ocorreu na 1ª. Conferência Nacional de Meio Ambiente em Brasília / 2004. Bonifácio Baniwa representou a Secretaria de Assuntos Indígenas, uma criação do Governo do Estado para amolecer a resistência dos povos indígenas, desde 1500 roubados e prejudicados com a mineração em suas terras.
Gostaria de lembrar a esses companheiros, defensores do projeto de Lei sobre mineração em terras indígenas que o autor da mesma, Romero Jucá, já é um velho ator da ditadura da mentira. Como presidente da FUNAI em 18 de maio de 1987 assinou a Portaria DNPM/01/87, que autorizaria a exploração de minério em áreas indígenas não fosse derrubada pelo Congresso Nacional. E expulsou um casal de professores da área Waimiri-Atroari por esclarecerem os índios sobre a atuação da Mineradora Paranapanema que se apossara de suas terras. Romero os acusou de servirem “a interesses estrangeiros”, acobertando assim, pela mentira, as empresas estrangeiras que então controlavam o minério estratégico do Pitinga, as japonesas, Marubini e Industrial Bank of Japan. E o casal de professores brasileiros foi substituído por um casal de lingüistas norte-americanos. Mais recentemente, a Paranapanema passou ao controle de peruanos. Tanto o já senador Jucá, como o deputado Sinésio Campos e Daniel Nava, silenciam o fato.
A proposta do deputado Sinésio de querer “trabalhar a exploração mineral em Terras Indígenas no Amazonas nos moldes da mineração praticada pelos indígenas no Canadá” é, no mínimo, cínica. Se tiver dúvidas sobre esta grave acusação peço ao deputado que leia National Geographic de março 2009: “O Boom do Petróleo no Canadá: Terra Devastada”. Leia com atenção e interprete o texto com toda a sinceridade. Veja os Chipewyan e Cree que viveram até 1963 felizes e sadios em sua terra. Veja o destino que lhes foi imposto com a invasão das empresas de betume Syncrude e Suncor. É por esse caminho que vocês querem levar as comunidades e os povos indígenas da Amazônia? E meu caro Bonifácio Baniwa, sim, “O indígena de hoje, não é o mesmo da época do descobrimento do Brasil”, mas a entrada na academia não lhe garante maior sabedoria sobre aqueles que ao longo da História, vendo seu povo ludibriado e roubado, morreram resistindo contra a iniqüidade.
Ao longo de toda a história brasileira, a exploração mineral tem sido sempre uma atividade feita “na escuridão”. E como no tempo do Brasil Colônia, hoje, o minério (bem não renovável) continua saindo do país sem vantagem para a população local. Enquanto os pobres e excluídos não ocuparem as cadeiras no painel das discussões, interesses poderosos continuarão “conquistando leis” e, como em Vila Rica e em Sabará, os índios, os garimpeiros e até os “bandeirantes” e os “descobridores” das minas desaparecem de mãos vazias. Apenas, lá do outro lado, alguns “emboabas”, ou estrangeiros, apoiados por políticos e funcionários corruptos daqui, se enriquecem.
Situação emblemática assistimos aqui em Presidente Figueiredo, onde desfilam diariamente mais de uma centena de carretas, carregadas de minério, deixando para trás apenas crateras e a rodovia BR-174 cheia de buracos. Há meio ano, reunidos na Câmara Municipal e na presença do deputado Sinésio e de Daniel Nava, o próprio Prefeito Municipal se queixou dos donos da Mineração Taboca ou Paranapanema, hoje peruanos que sequer se teriam apresentado ao mandatário municipal. E exploram aqui no Pitinga a maior mina de minérios estratégicos do país, enquanto as principais obras do município são todas financiadas pelo Governo Federal.
Em 1991, a Associação Profissional dos Geólogos do Amazonas estimou a perda de receita, somente no projeto Pitinga, na ordem de US$ 63 milhões. E o Prof. José Aldemir de Oliveira, da Universidade Federal do Amazonas, na tese de doutoramento “Cidades na Selva” cita as palavras de um funcionário da SEFAZ que assim descreveu o mecanismo de fiscalização: “Não sabemos na verdade quanto nem o que está sendo fiscalizado. Mesmo que parássemos as carretas e fiscalizássemos, teríamos dificuldades para identificar se o minério que a empresa diz ser cassiterita realmente o é. Então não fazemos nenhuma fiscalização. Mensalmente, um funcionário da Taboca nos telefona comunicando o número da guia e o valor correspondente que eles recolheram ao Banco referente ao imposto”.
Quando leio o relato de Frei Carvajal, sobre a viagem do Conquistador Orellana pelo rio Amazonas em 1540 e comparo o que passava pelas suas cabeças naquele tempo, com o que passa pelas cabeças do Governador do Amazonas e de seus secretários e assessores, Sinésio e Daniel hoje, não vejo diferença alguma. Mesmo navegando diariamente no meio da felicidade e da abundancia das aldeias indígenas, eles só sonhavam com minério, minério e mais minério, oficializando ao longo do rio Amazonas o que os espanhóis já praticavam na costa do Pacífico e no Altiplano. O bem-estar das aldeias, a abundância de comida, só era motivo de admiração e de inescrupuloso saque. Nada mais interessava ao Orellana e seus acompanhantes, inclusive, ao “santo” dominicano Carvajal. Mutantis mutandi, o que interessa aos governantes do Amazonas e de seus assessores, Sinésio e Daniel, é oficializar o que a Paranapanema já vem praticando na terra roubada aos índios Waimiri-Atroari no Pitinga ou o que a Syncrude e Suncor praticam nas terras dos Chipewyan e Cree, no Canadá.
Travestir uma ou outra liderança em “empresário” para serviços sujos da firma, como o faz a Syncrude com Jim Boucher e a Mineração Rio do Norte com lideranças quilombolas no Rio Trombetas / PA, é mero engodo.
Concluo com National Geographic: O índio “tem consciência do preço que tem de ser pago. ’É uma luta para equilibrar as necessidades de hoje e as de amanhã, quando se pensa no ambiente em que vamos viver’, diz Boucher. Na região norte da província de Alberta (Canadá), a questão de como alcançar tal equilíbrio foi colocada nas mãos do mercado, e uma das respostas dele foi deixar de lado o futuro. O amanhã não é de sua conta.”

Casa da cultura do Urubuí / Presidente Figueiredo (AM), 20 de março de 2011.

Egydio Schwade

quinta-feira, 17 de março de 2011

O Tsunami da Fome nas Aldeias do Mato Grosso do Sul

“Se é para salvar o planeta deve ser sério. E primeiro terá que salvar os milhares de Indígenas que estão sendo massacrados em nosso estado.Eles, os Povos Indígenas sejam de que tribo forem, são originais e não serão jamais peças de atração exótica”(Silvio da Silva – CRB-MS).
“Este ano a FUNAI ainda não entregou cesta básica. São quase três meses de fome e espera”. O clamor chega das diversas aldeias e acampamentos indígenas do Mato Grosso do Sul, e em especial dos Kaiowá Guarani, da região de Dourados. O grito da fome como ondas gigantes vai se propagando pela região. Em carta encaminhada ao Ministério Público de Dourados e FUNAI, o Conselho da Aty Guasu manifesta sua enorme preocupação e alerta “Nosso povo está passando muita fome, não por culpa nossa, mas porque tiraram nossas terras, acabaram com nossa possibilidade de produzir nosso alimento, e agora estamos nos braços da fome e da dependência. E o mais grave, como não recebemos ainda nenhuma cesta básica este ano, nossas crianças estão perdendo peso, correndo o risco de uma nova mortandade por desnutrição.” Concluem a carta dizendo “Se não vier com urgência, nós do Conselho da Aty Guasu vamos fazer um documento e espalhar no mundo inteiro dizendo que querem que a gente morra de fome.”
Os centenas de telefonemas direcionados para a FUNAI, a resposta que as lideranças das aldeias e acampamentos indígenas recebem é sempre a mesma – os alimentos estão comprados, porém não tem transporte para trazê-los até aqui”. O que os indígenas não entendem é como tem centenas e centenas de caminhões carregados de soja passando por suas aldeias e não existe transporte para trazer os alimentos da cesta básica.
Egon Heck
Povo Guarani Grande Povo
Dourados, 15 de março de 2011

domingo, 13 de março de 2011

Violência Contra o povo Kiña

2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar – Texto 2

Quando chegamos à aldeia Yawará dos índios Kiña ou Waimiri-Atroari / Sul de Roraima, no dia 4 de setembro de 1985, a casa destinada a nós professores, estava ocupada pelo chefe de posto da FUNAI, por isso, fomos encaminhados para uma casa velha que servia de depósito para material descartado. Mas era uma peça histórica importante. Foi a primeira casa do posto, construída por volta de 1975, quando a picada da estrada BR-174 se aproximava daquela região. Testemunha da ocupação bélica do território índio. Contamos 18 furos nas paredes externas, através dos quais se podiam apontar armas de diversos calibres em todas as direções. E a casa que servia de almoxarifado da FUNAI, tinha as mesmas características. Tratava-se de verdadeiras trincheiras.
Neste ambiente desencadeamos o processo de alfabetização em Kiñayara, língua do povo Waimiri-Atroari ou Kiña, como se autodenominam. Sem conhecimento da língua, eles iniciaram a sua comunicação conosco através do desenho, que dominavam maravilhosamente. E para não provocar susceptibilidades da FUNAI as tarefas de aula eram feitas na aldeia a 500 metros da escola, fora do nosso controle. Desenhos, letras e frases elaboradas diariamente em casa eram utilizados no dia seguinte em aula como pontos de partida para discussões e esclarecimentos.
No processo assim desencadeado surgiram dos desenhos as letras, destas palavras, das palavras as frases e, finalmente, os textos: lendas, estórias e a História do povo. O desenho permaneceu presente durante todo o processo dando garantia da apreensão dos conhecimentos partilhados e da veracidade do que foram revelando do seu mundo: a fartura da natureza com suas plantas, animais, peixes, a sua vivência cultural, com enfeites, danças e cantos. As lendas, a história passada e presente dos membros da aldeia, dos pais e parentes mortos e do povo Kiña. A produção dos textos provocava, invariavelmente, longas discussões sobre a forma e o conteúdo das mensagens. Eram como buracos de fechaduras acessando às lendas, aos dramas e às tragédias vividos no cotidiano. Falam de acidentes geográficos, da natureza e das pessoas. Falam dos seus mortos, de experiências vividas no interior da floresta. De malocas, ou aldeias varridas do mapa pela violência dos kamña (os civilizados).
A região em foco era terra habitada. Por toda a parte morava gente. Gente que tinha o seu projeto e programa de vida bem organizado, dentro de uma geografia onde eles eram os sábios. Tinham caminhos organizados por todo esse território. Tinham uma economia que satisfazia as necessidades e o bem-estar da população. Conheciam a floresta. Os Kiñá conhecem o seu território palmo a palmo. Cada rio e igarapé, cada acidente geográfico, cada planta, ave, inseto, cada bicho tem seu nome em kiñayara. E tudo tem o seu significado no universo do povo.
Alternavam as suas aldeias para a caça e a coleta, estabelecendo-as nas nascentes dos rios no período das chuvas e na margem dos rios para a coleta de ovos de tracajás, de tartarugas e da pesca no período da seca. Os rios Negro (AWA), Uatumã, Abonari, Urubu e Anebá são citados nessa migração periódica, como território de ocupação permanente pelos Kiña.
Varadouros
subiam ao longo dos igarapés e ligavam com outros igarapés e outros rios. As cabeceiras eram transpostas por caminhos que conduziam para outras bacias. E o domínio das mais recônditas e distantes aldeias Kiña interligava com outros povos de língua Karib através de varadouros de mais de 1.000 quilômetros, penetrando Roraima, Pará, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. A organização das aldeias ou malocas não permitia o isolamento das pessoas. Meios de comunicação acessíveis a toda a população, como a canoa, o varadouro e o trocano resolviam os problemas de intercambio de mensagens e visitas para a organização de festas e de mutirões. Alimentação e abrigo ao longo dos caminhos eram providos pelas “florestas de alimentos” de antigas aldeias.
Sem um contato, sem um aviso prévio, do dia para a noite, apareceram enormes máquinas que começaram a destruir o precioso patrimônio do povo Kiña. Gente cortando sem respeito os seus caminhos. Gente derrubando a floresta e abrindo crateras, inundando grandes extensões da floresta, fazendo sumir igarapés e rios e se apossando do território que desde tempos imemoriais consideravam seu.
“Os velhos achavam que kamña colocaria toda a nossa floresta de raízes para cima”, diziam-nos os sobreviventes.
Casa da Cultura do Urubuí, 13 março de 2011
Egydio Schwade

domingo, 6 de março de 2011

Vida e Histórias de Doroti Schwade: Texto 4

Minha querida irmãzinha de sangue e de vivências
Ela nasceu em 08 de maio de 1948, exatamente um ano e quatro dias depois do meu próprio nascimento.
É claro que não lembro, pois era um bebê. Porém, tenho lampejos de lembranças a partir de seus dois anos de vida. Ela e Sálvio, nosso irmão primogênito, de uma família de sete filhos, nascido um ano e meio antes de mim, portanto dois anos e meio antes de Doroti, eram, ao mesmo tempo, meus opostos e meus alter-egos. Pois se aventuravam pelos bosques, morros e árvores ao redor de nossa casa. Eu, às vezes era a “boazinha”, palavra de nossa mãe, que já embalava no berço nossa quarta irmã, Regina.
Quando não suportava mais essa prisão infantil corria atrás deles e, buscando toda a coragem de um corpo infantil, subia uma árvore, no entanto, não conseguia mais descer e me recordo como Doroti e Sálvio tentavam me ajudar. Às vezes, perdiam muito tempo, tentando. Ao final, desisti e nunca mais subi em uma árvore.
Outro episódio, ao qual me lembro bem, é que o exército passava ao largo de nossa casa, marchando e nós três, os dois de cabecinha lourinha e eu de cabelos castanhos, ficávamos extasiados os observando lá de cima do morro. Um dia, um soldado daquela tropa falou bem alto “bom dia” e, Doroti, com sua vozinha, respondeu alto e em bom som “bom dia” e ecoou uma risada de toda soldadesca. Lembro-me muito bem de como me mortifiquei de não ter tido a mesma reação dela.
Outras lembranças da infância se referem do quanto era bondosa essa menina pequenina e frágil. Nossa mãe, uma ocasião, chamou-a de “anjo da bondade” e eu, a invejei muito por isso. Desde muito cedo quis ser como ela: pequenina, delicada, mas, ao mesmo tempo, uma fortaleza inteligente e desembaraçada. Porém, eu era grandona, desajeitada e burra, no meu entender. Nosso primeiro dia de escola foi numa isolada, que ficava perto de nossa casa. A professora, Dona Leonor, que tinha alunos das quatro primeiras séries, nos passou uma conta de divisão enorme, no meu entender. Era de quatro algarismos e, quando vi aquilo comecei a chorar e, Doroti, como uma formiguinha ao lado de um elefante, começou a me consolar, dizendo que devia ser um engano da professora. Quem sabe, ela não sabia ser este nosso primeiro dia de escola. Não voltamos mais àquele estabelecimento e fomos matriculadas num colégio estadual, onde hoje está construído o prédio da Prefeitura Municipal de Blumenau. Era o Luiz Delfino, onde nosso pai já havia estudado na década de 20, do século passado.
Era muito longe e íamos de ônibus. Mas, quando a professora faltava, voltávamos a pé pelos trilhos da estrada de ferro, já que ônibus pra voltar somente ao meio dia. Sálvio, Doroti e eu vínhamos com uma turma de vizinhos e, para nós, não era sacrifício, e sim mais uma aventura.
Depois, mudamos de casa, pois nosso pai havia sido enganado por um comerciante de madeiras e tivemos que morar numa pequena casa alugada.
O tempo foi passando, Sálvio com onze anos foi ao Seminário, onde permaneceu até os 25 anos. Antes e enquanto isso, nossa mãe foi tendo mais filhas e um filho. Nosso irmão e irmã caçulas nasceram depois que ele havia ido ao seminário e Doroti e eu já trabalhávamos fora, para ajudar nosso pai a dar conta do sustento da casa.
Doroti, inclusive, começou a trabalhar antes de mim, com treze anos. No inverno, atravessava a ponte de ferro, no escuro, às 6:00 h da manhã e sozinha. Era uma menina franzina e ia ensacar sal num mercado atacadista no outro lado do Rio Itajaí Açu e subindo depois a Rua São Paulo. Voltava já no escuro, também pela ponte de ferro. Penso que sempre havia alguém a protegendo, pois nunca sofreu assédio ou qualquer violência.
Mais tarde, o mercado foi se expandindo e chegou ao Centro da cidade. Ela foi designada a trabalhar no atacado do mercado e, sozinha.
Sei que um dia me contou que os meninos engraxates de Blumenau tinham um ponto de encontro com ela, nesse atacado. Vinham conversar e trocar idéias sobre suas agruras.
Penso, que Doroti, desde muito cedo, observou as desigualdades e as injustiças do mundo. Acho que por essa época, já pensava em dar uma guinada na vida, em benefício dos explorados e oprimidos. Um dia me falou que estava em dúvida se tomaria o caminho da África ou da Amazônia. Os Amazônidas tiveram mais sorte! Pois, foi essa sua escolha.
Poderia falar muito sobre essa minha irmãzinha Doroti. No entanto, penso que meus outros irmãos ainda vivos, terão mais talento para isso.
Finalizando, somente queria relatar o seu “bota fora”, na antiga rodoviária de Blumenau.
Era o ano de 1974 quando partiu para Viamão, no Rio Grande do Sul. Foi lá que iniciou sua jornada rumo ao seu destino. Havia muita gente se despedindo dela e, com 27 anos, o motorista do ônibus lhe solicitou a identidade, pois achava que não tinha 18 anos, tão novinha parecia, apesar de suas lutas e trabalho.

Luzia Müller

quinta-feira, 3 de março de 2011

Caso Cacique Veron: Os condenados absolvidos

Diante das distintas avaliações do julgamento de três dos participantes da crueldade, com requinte de operação militar, desencadeada contra a comunidade Kaiowá do tekohá Takuara, no município de Juti-MS, nos dias 12 e 13 de janeiro de 2003, gostaria apenas de fazer algumas observações.
O que estava em julgamento era um crime e muito mais. Estava na cadeira de réu uma história secular de impunidade e violência. Estava na cadeira dos réus muito mais do que três peões de fazenda que aceitaram exercer a função de pistoleiros e assassinos de índios. Estava na cadeira dos réus o preconceito, o racismo, a discriminação que alimenta o ódio das elites econômicas e políticas da região, se espalhando como praga nas mentes e corações de milhares de cidadãos que continuam negando aos índios seus direitos mais elementares de ser, de viver, de ter sua terra. Estavam na cadeira dos réus dezenas de assassinatos de lideranças indígenas, cujos executores e mandantes, continuam impunes.
Quando a defesa dos réus procurava inocentar seus clientes dizendo que Marcos Veron não era índio, era um “paraguaio”, destilavam o mais fino requente de discriminação contra nossos vizinhos, contra os quais nosso país comandou um dos maiores genocídios do continente. Quando os réus diziam que na fazenda tinha muito foguete para espantar os urubus, nivelaram os Kaiowá aos urubu que se espanta com foguetório.
Quando a defesa dizia, com sua verborragia rebuscada e irada, de “O Mato Grosso do Sul é um outro mundo”, fora da compreensão dos senhores jurados, e que portanto o julgamento jamais deveria ter sido deslocado de Dourados para São Paulo, certamente não propugnavam pela lisura de um julgamento, mas simplesmente apostavam na inocência dos seus fregueses, naquela conjuntura.
Entendo a indignação com que inúmeras instituições e pessoas pelo mundo afora receberam a decisão de absolver os réus do crime de homicídio e tentativa de homicídio. Foi esse o entendimento a que chegaram os senhores jurados, depois de cinco dias de depoimentos e exposição dos fatos e suas razões. Entendo a contrariedade com o resultado, manifesta pelos Procuradores do Ministério Público Federal, dispostos a recorrer da decisão. A defesa depois comemorar a absolvição dos crimes de homicídio, prometeu recorrer da decisão de terem sido condenados por três crimes: seqüestro a mão armada, tortura e formação de quadrilha. Resultado que derrubou todas as versões plantadas para inocentar os réus.
O processo de 27 volumes, com mais de 7 mil páginas teve uma decisão, que, conforme as partes, resultou em “vitória parcial”, como informou o Procurador Marco Antonio Rufino aos indígenas, antes mesmo da sentença ser pronunciada pela Juiza.

O recado está dado:
Nenhum matador de índio, no Mato Grosso do Sul, vai daqui pra frente dormir tranqüilo achando que não vai enfrentar a barra dos tribunais.
Será acelerada a conclusão do processo pelo Ministério Público para que os outros 24 réus arrolados no segundo processo sejam julgados o quanto antes. Dentre eles está o proprietário da fazenda Jacinto Honório da Silva Filho, o mandante da violência, Nivaldo Alves de Oliveira, o acusado de desferir as coronhadas que mataram o cacique Marcos Veron e o ex-policia da DOF, que tramou toda a operação de forma militar.
Existirá maior pressão nacional e internacional para que não continue essa violência e impunidade, que os crimes sejam punidos e os direitos especialmente às suas terras, respeitados.
Os Kaiowá Guarani presentes no julgamento, especialmente a viúva dona Julia e seus filhos, procuraram fazer do julgamento, e mesmo do resultado que ficou aquém do esperado, procuram fazer de todos esses dias, momentos de muita reza, de busca de paz, vida e dos direitos de seu povo. Ao deixarem a casa de acolhida, onde ficaram hospedados, ouviram dos diretores da casa: essa foi a delegação que mais marcou essa casa até hoje”. Da mesma forma gostariam de seguir como arautos da justiça e da paz.
Egon Heck
Povo Guarani Grande Povo
Dourados, 3 de março de 2011